UOL Notícias Internacional
 

23/01/2010

Nigéria enterra centenas, enquanto inquietação se espalha pelo país

Financial Times
Tom Burgis
Em Jos (Nigéria)
A população de Jos enterrou seus mortos na sexta-feira, enquanto milhares de refugiados buscavam abrigo após o mais recente estouro de violência entre cristãos e muçulmanos, que muitos culpam pela pobreza e pelo governo fracassado tanto quanto pelo ódio religioso.
  • AP

    Soldade em tanque observa prece em Jos...

  • AP

    ... corpo é retirado de casa incendiada



Casas incendiadas, uma pesada presença militar e enterros em massa atestavam o caos dos três dias de confrontos na cidade na região central da Nigéria, situada entre o norte principalmente muçulmano e o sul cristão e animista.

O número total de mortos não pode ser verificado, mas grupos de direitos humanos disseram que pelo menos 400 foram mortos nos confrontos do último fim de semana. Com a diminuição dos ataques, um toque de recolher de 24 horas foi parcialmente relaxado na sexta-feira, quando uma série de cadáveres levados à mesquita central elevou o total de pessoas enterradas lá desde domingo para 150, disse Lawal Ishaq, um líder muçulmano.

Goodluck Jonathan, o vice-presidente do maior produtor de energia da África, ordenou que as forças de segurança restaurassem a ordem. Mas a violência aumentou a inquietação nacional, com Jonathan no centro das disputas de poder que estão ocorrendo nos dois meses em que o presidente Umaru Yar'Adua se encontra incapacitado em um hospital saudita.

A Cruz Vermelha disse ter conhecimento de que pelo menos 160 pessoas de ambas as religiões foram mortas desde que os esforços de um homem muçulmano de reconstruir sua casa -destruída na violência de 2008 que matou centenas- levou a um bate-boca com jovens cristãos no domingo.

Os distúrbios se espalharam por toda a cidade e arredores. Milhares ficaram feridos, muitos por disparos de balas e golpes de facão.

Entre o que a Cruz Vermelha estima que sejam 18 mil pessoas forçadas a fugir de suas casas, havia um grupo de muçulmanos carregando tudo o que podiam para abrigá-los da noite fria em um Volkswagen superlotado.

Os 20 bloqueios de estrada do exército e da polícia entre Jos e Kano, a maior cidade no norte da Nigéria, testemunhavam os temores das autoridades de que a violência poderia se espalhar.

Mais de 13.500 pessoas morreram em distúrbios religiosos desde que os militares da Nigéria entregaram o poder para os civis em 1999, estima a Human Rights Watch.

Algumas das crises estiveram ligadas à decisão de 12 Estados do norte do país, dentre os 36 que compõem o sistema federativo da Nigéria, de introduzir uma lei Sharia parcial. Outra foi provocada pela proposta em 2002 de realizar o concurso Miss Universo na Nigéria.

Mas em Jos, onde 1.000 morreram em 2001, a religião é apenas um fator nas tensões. A economia florescente da Nigéria murchou, dando lugar a um clientelismo lubrificado pela receita do petróleo.

A volatilidade de Jos se deve em parte a migração de muçulmanos do norte, das tribos Hausa e Fulani, cuja presença alguns dos cristão berom -a designação dos habitantes naturais do Estado- ressentem. Políticos locais também são culpados de incitar o sentimento tribal em benefício próprio.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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