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25/01/2010

Ambientalistas e grandes companhias fazem da internet palco de batalhas publicitárias

Financial Times
Sheila McNulty
Em 2003, Silvia Garrigo, então advogada da Chevron nos EUA, preparava-se para ir à floresta tropical equatoriana para coletar amostras de solo para testes. Ela foi acompanhada por queixosos que acusavam a segunda maior companhia de petróleo dos EUA de ter deixado um rastro de destruição ambiental quando saiu do país em 1992.

"Toda a equipe técnica dos queixosos apareceu vestida em macacões de astronauta e com máscaras antigás. Eles passaram uma fita vermelha e disseram que era uma zona perigosa", lembra Garrigo, hoje diretora de questões e políticas globais da Chevron.
  • AP

    Refinaria da Chevron Texaco, em Richmond, na Califórnia

"Foi cômico. O resto das pessoas que estavam na 'zona tóxica' não tinha máscaras, incluindo o juiz. Foi então que percebemos que se tratava de teatro, de julgar o caso na imprensa".

Aquele dia marcou um ponto de virada na estratégia da Chevron. Ela decidiu ir à luta - na verdade empregando táticas semelhantes à dos queixosos. Ao adotar uma estratégia tão incomum, ela espera conquistar a opinião pública.

Como o processo legal é uma ação de classe, ou ação popular, como é chamada no Equador, qualquer pessoa afetada pela contaminação é um queixoso. Por isso foi do interesse dos queixosos galvanizar o maior apoio possível.

A batalha pelo apoio popular ganhou ímpeto no ano passado e uma decisão deverá sair nos próximos meses. A cada mês que passava, a luta tornava-se mais teatral, incluindo manifestantes que queimaram bonecos que representavam a equipe jurídica da Chevron sobre um dos poços contaminados.

As apostas são altas. Os querelantes pedem US$ 27 bilhões de indenização, fazendo deste o maior processo ambiental da história, com os potenciais danos representando aproximadamente um quinto do valor de mercado da Chevron, de US$ 159 bilhões.

"Se fossem US$ 27 milhões, isto teria terminado há muito tempo", disse Robin West, presidente da consultoria PFC Energy.

Em vez de reservar os comentários para o tribunal, a Chevron tomou a medida incomum de levar o caso ao palco mundial, ao contratar um ex-repórter da CNN para contar seu lado da história e criar um canal dedicado no YouTube.

A estratégia da Chevron contrasta acentuadamente com a defesa da BP (antiga British Petroleum) contra acusações de falhas em suas operações nos EUA depois de um grande vazamento no Alasca, uma explosão fatal em uma refinaria no Texas e um escândalo de comércio de propano. Enquanto a BP afastou a atenção pública, a Chevron a atraiu.

Na verdade, esta é a primeira vez que uma grande companhia foi tão agressiva para se defender. Enquanto outras empresas já foram à internet, nenhuma chegou a esse nível.

Gene Randall, o ex-repórter da CNN que fundou a firma de relações públicas GRE depois de deixar o jornalismo, sete anos atrás, explica seu papel: "Eles acharam que a internet estava saturada de histórias anti-Chevron e me contrataram para contar sua história".
  • Reprodução

    Derramento de óleo em rio da Amazônia equatoriana, restrato em vídeo do Youtube postado por ambientalistas contrários às ações da Chevron


Ele passou seis meses com uma equipe de câmera, produtores, editores de vídeo e tradutores viajando pela região e gravando dezenas de horas de material, que resumiu em um documentário de 14 minutos, juntamente com uma série de peças menores, que a Chevron colocou em abril no YouTube e em seu site na web. Uma busca pelas palavras "Chevron Equador" encaminha os usuários para o filme.

Os queixosos alegam que os espectadores poderão ser levados a acreditar que o filme é uma peça de jornalismo independente. Randall nega que ele fingiu ser um repórter e aponta para a mensagem da Chevron no site.

Amy Myers Jaffe, especialista em energia do Instituto para Políticas Públicas James A. Baker III, diz que a Chevron não teve alternativa senão revidar. "No tribunal da opinião pública, vence a proliferação. As pessoas tendem a acreditar em algo que leem em 17 blogs."

Enquanto isso, a Coalizão de Defesa da Amazônia, que representa os grupos indígenas em nome dos queixosos, empregou seu próprio publicitário para revidar as alegações da petroleira: Karen Hinton, da Hinton Communications.

"O único motivo pelo qual os queixosos me contrataram foi reagir aos ataques da Chevron na imprensa, e não o contrário", diz Hinton. "A Chevron tem seis firmas de publicidade em sua folha de pagamento, trabalhando na defesa do processo, e eu tenho muito trabalho para derrubar informações enganosas e erradas fornecidas por essas firmas para certos repórteres e blogueiros."

A Chevron insiste que a Texaco - comprada pelo grupo em 2001, herdando assim a suposta poluição alegada no processo - gastou US$ 40 milhões em limpeza quando seu contrato terminou e ela foi solicitada a deixar o Equador, em 1992. O governo do Equador a havia liberado por escrito de outras responsabilidades.
  • Reprodução

    Operário da Chevron opera barril de petróleo na região da Amazônia equatoriana, em vídeo denunciado por ambientalistas no Youtube



Mas os queixosos dizem que o acordo de saída da Chevron não a absolveu de reclamações de terceiros, que são aceitas em nome de qualquer pessoa afetada pelos danos do campo de petróleo.

Eles dizem que a companhia é responsável até pelos poços e dejetos que a Petroequador, a companhia de petróleo estatal, concordou em limpar quando assumiu as operações da Texaco em 1992 - a Texaco havia estabelecido a operação e a dirigiu até pouco antes de sair.

O caso prejudicou a reputação da Chevron, diante dos pesos-pesados que apoiaram a Coalizão Amazônica, como o deputado americano Jim McGovern, celebridades como a atriz Daryl Hannah, a ativista dos direitos humanos e ex-modelo Bianca Jagger e Kerry Kennedy, uma defensora dos direitos humanos e filha do falecido Robert F. Kennedy. A companhia também teve de enfrentar um documentário, "Crude" (Cru), que estreou nos EUA em outubro e na semana passada no Reino Unido. Ele mostra - contra o pano de fundo dos poços de petróleo abertos - vítimas de câncer, água potável poluída e a luta dos povos indígenas do Equador para responsabilizar a Chevron, e teve ampla aceitação.

A principal defesa da Chevron não é que a poluição não existe, mas que ela não a criou.

"Não há dúvida de que há uma confusão no Equador", diz Charles James, vice-presidente executivo da Chevron. "Mas nós não operamos naquele país há quase 20 anos."

Bill Doyle, que foi responsável pela supervisão executiva das operações da Texaco na América Latina e na África de 1987 até o final de 1990, acredita que a empresa está certa ao se defender no processo.

No entanto, ele diz que a companhia melhoraria sua reputação se desse mais ênfase à conciliação com os povos indígenas. "Eles não poderiam dar US$ 10 milhões para os índios?", pergunta. "Seria um bom lugar para aplicar algum dinheiro humanitário."

Cortejando a opinião pública
O episódio do Brent Spar na década de 1990 é um bom exemplo que mostra como as companhias lidavam com campanhas ativistas públicas antes da internet. A Royal Dutch, como era conhecida a Shell na época, foi atacada por tentar afundar o Brent Spar - uma bóia-tanque de armazenamento de petróleo que, segundo a avaliação da companhia, continha uma pequena quantidade de petróleo - no mar do Norte. O Greenpeace organizou uma campanha global de alta visibilidade contra esse plano, incluindo a ocupação do Brent Spar por ativistas e o boicote dos postos de gasolina Shell. A companhia decidiu recuar, rebocar a bóia e usá-la na construção de novas instalações portuárias perto da Noruega. Houve vários ataques contra postos da Shell, incluindo o incêndio de um deles na Alemanha.

Como demonstra o caso da Chevron, a batalha pela opinião pública na era da internet significa que as empresas podem estar menos dispostas a recuar rapidamente. A rede deu aos ativistas um público maior, mas também permitiu que as empresas revidem com mais facilidade.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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