Elite do norte da Nigéria briga pelo poder

Tom Burgis

Em Kaduna (Nigéria)

Descendo por uma estrada ressecada fica o túmulo do líder mais celebrado da Nigéria. A lenda diz que quando a estrutura entrou em colapso há alguns anos, o corpo exposto de Ahmadu Bello, o Sardauna de Sokoto que carregava a bandeira da elite do norte, estava miraculosamente preservado tal como no dia em que foi assassinado em janeiro de 1966.

Hoje, a mesma elite, antes vista como o árbitro de poder do país, está dividida e a região está tumultuada. O presidente Umaru Yar'Adua, o último líder nascido no norte, está aparentemente incapacitado, em seu terceiro mês num hospital da Arábia Saudita.

  • EFE

    O presidente nigeriano Umaru Yar'Adua, internado em num hospital da Arábia Saudita desde 23 de novembro de 2009, gerando um vácuo de poder, especulações e disputa de poder entre a elite local

Um jovem do norte, Umar Farouk Abdulmutallab, tentou supostamente explodir um avião norte-americano no dia de Natal em nome da Al Qaeda. A região está tumultuada por causa do último conflito étnico e violência religiosa que deixou centenas de mortos dentro e em torno da cidade de Jos no mês passado. Com a ameaça de luta por causa da sucessão, o título militar tradicional de Sardauna é invocado como símbolo da unidade perdida. A briga política entre o antigo establishment do norte e uma nova safra de jovens líderes pode ser decisiva para mudar o curso da nação mais populosa da África.

“O grande problema hoje é que o norte não é o mesmo norte que conhecíamos”, diz um ex-conselheiro político. “No passado, cinco ou seis líderes escolhiam o candidato [para a presidência]. Agora isso foi destruído. A liderança do norte está muito velha. Os jovens turcos não querem mais ouvi-los.”

Com sua população predominantemente muçulmana ligada por uma língua comum, Hausa, o norte abriga a maioria dos 150 milhões de habitantes da Nigéria, em contraste com o sul principalmente cristão. A riqueza do país, em forma de pródigas reservas de petróleo, está sob os solos do sul, mas o norte detinha tradicionalmente o poder político, produzindo uma série de governantes civis e militares.
Mas quando os generais entregaram o poder aos civis em 1999, os anciãos do norte apoiaram Olusegun Obasanjo, um sulista há muito visto como aliado, para a presidência. Seu choque quando este se livrou dos oficiais do norte e cultivou uma nova geração de políticos nortenhos ainda reverbera.

À medida que declina o poder de uma velha guarda que cortou seus dentes nas décadas seguintes à independência da Inglaterra em 1960, uma nova coleção de líderes emerge. Para os críticos, muitos desses jovens turcos são produto de um sistema político que desvia renda do maior setor energético africano para uma vasta rede de patronagem.

Os detratores da velha guarda retrucam que foi sob o governo dela que as instituições se corromperam. Longe de ser uma idade de ouro, foi uma era marcada por golpes, guerra civil e o começo do declínio da economia.

As indústrias antes prósperas do norte entraram em colapso sob o peso do contrabando, da corrupção e das falhas no abastecimento de energia elétrica. Apenas lagartos ocupam as fábricas têxteis fechadas; o flutuante setor agrícola é uma memória esvanecida. Cresce o número de jovens mendigos entre os carros.

Dados oficiais mostram que nos três Estados do norte, mais de metade de todas as crianças menores de cinco anos estão abaixo do peso, bem mais do que no sul.

A crise de liderança atual revelou a redução da autoridade dos anciãos. Alguns estadistas do norte criticaram o gabinete por não insistir que Yar' Adua entregue o poder interino a seu vice-presidente, Goodluck Jonathan, um sulista que tem forjado alianças no norte. Mas o partido da Democracia do Povo, no governo – e não os intelectuais e líderes religiosos envelhecidos do norte – agora manda no jogo.

Meia dúzia de governadores estaduais e ministros da nova leva são possíveis concorrentes para a presidência nas eleições marcadas para o ano que vem; competindo com antigos chefes de inteligência e oficiais aposentados apoiados pela velha guarda.

“[A velha guarda] não tem o poder para impedir que os jovens turcos subam ao poder”, diz Shehu Sani, um ativista pela democracia em Kaduna, lugar de descanso de Sardauna. “Mas eles têm a capacidade de tornar as coisas desconfortáveis para eles”.

O fato de que muitos no norte pareçam ter virado as cosas para Yar'Adua revela suas divisões internas. O presidente vem de Katsina, no extremo norte, e muitos se ressentem de que ele não repartiu os benefícios do poder nem reavivou a economia da região.

Para Yusuf Maitama Sule, um velho estadista da antiga cidade de Kano, no norte, que serviu sob o governo de Sardauna, a fusão do poder político e comercial está na raiz não apenas da desintegração do norte mas também dos problemas da Nigéria.

“Sardauna costumava nos dizer... 'você não pode correr e coçar as nádegas ao mesmo tempo'. Você não pode estar no governo e fazer negócios ao mesmo tempo”, diz ele.

Agora com 80 anos e cego, ele acrescenta: “Hoje, os políticos não pensam nos interesses nacionais, mas em seus próprios interesses, em fazer dinheiro. É por isso que existe caos.”

Tradutor: Eloise De Vylder

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