Toscana volta-se contra imigrantes chineses

Guy Dinmore

Em Prato (Itália)

Com a sua indústria têxtil em declínio, a cidade de Prato hostiliza as “sweatshops”

Quando a polícia, os bombeiros e inspetores italianos bateram à porta da fábrica, lançando a mais recente operação contra as sweatshops (fábricas que pagam baixos salários e submetem os trabalhadores, geralmente imigrantes, a condições precárias) que empregam chineses ilegais em Prato, a maioria dos trabalhadores atônitos que vivem em cubículos úmidos e sem janelas ainda estava de pijamas.

  • Reuters - 06.set.2005

    Operárias chinesas em fábrica de tecidos em Panjin, na Província de Liaoning, nordeste da China. Principal produto de exportação do país, as fábricas de itens texteis se espalharam pelo mundo e começam a causar polêmica em Toscana, na Itália

Em algumas horas, quatro outras fábricas de roupas na Rua Lazzeretto foram fechadas e várias máquinas de costura confiscadas. Dois imigrantes ilegais foram detidos e as dezenas de trabalhadores restantes receberam a ordem de sair.

 

Após passar anos tolerando e também se beneficiando das levas de imigrantes ilegais que criaram a maior concentração de fábricas movidas por chineses na Europa, o povo desta antiga cidade da Toscana decidiu dar um basta à situação.

“Isso foi a gota d'água. A cidade não pode continuar deste jeito”, declarou Riccardo Marini, presidente da associação de donos de indústrias de Prato. “Os chineses podem respeitar as leis na França e no Reino Unido, mas aqui eles não respeitam porque um sistema formado por políticos e empresários permite que façam isso. A coisa fugiu ao controle”.

Tendo votado na esquerda durante 63 anos, Prato adotou a centro-direita e a xenófoba Liga Norte nas eleições municipais de junho do ano passado.

Roberto Cenni, o novo prefeito que é também um empresário do setor de tecidos e vestuários, denuncia as “condições escravistas” a que são submetidos os trabalhadores chineses que ganham baixos salários. Apoiada por Roberto Maroni, o ministro do Interior de linha dura que é membro da Liga Norte, no mês passado a polícia deu início a uma onda de repressão contra as fábricas ilegais. Helicópteros sobrevoaram a área para enfatizar a mensagem.

Segundo os jornais, ao ver a sua comunidade em estado de choque, o cônsul-geral da China na vizinha Florença comparou as ações da polícia àquelas das SS nazistas.

  • Reuters - 06.set.2005

    Mulher trabalha na produção de uma fábrica de têxteis, em Huaibei, na Província de Anhui (China). Fabricantes chineses na Toscana são acusados de trabalho escravo e concorrência desleal na Itália

Orgulhoso da sua história secular no setor de têxteis, mas com a sua indústria em declínio, Prato se considera uma vítima das fronteiras abertas e da globalização descontrolada.

Marini recorda-se do primeiro grupo de 38 chineses chegando em 1989 para trabalhar em fábricas têxteis. Agora calcula-se que eles cheguem a 40 mil indivíduos, muitos deles ilegais. Um terço dos 180 moradores da cidade não é italiano, comparado a uma média nacional de 6% de moradores estrangeiros.

Enquanto a indústria têxtil de Prato perdia empregos – incapaz de competir com as roupas baratas fabricadas na China –, a comunidade chinesa em Prato usava as suas habilidades adquiridas para criar um nicho separado, produzindo a pronto moda, ou moda rápida.
Se há alguns anos muitos chineses entravam na Itália ilegalmente, agora eles simplesmente chegam ao aeroporto de Frankfurt com vistos de turista de três meses, mas não retornam ao seu país de origem. A maioria dos imigrantes de Prato é proveniente de uma única cidade chinesa – a litorânea Wenzhou, na província de Zhejiang, um enclave que tem uma história de empreendedores dispostos a atravessar o oceano.
Fora dos muros da cidade, Via Pistoiese transformou-se em uma Chinatown de Wenzhou, com restaurantes, clubes noturnos (que barram indivíduos que não sejam de etnia chinesa) e supermercados fornidos de mercadorias chinesas.

Silvia Pieraccini, uma jornalista local e autora do livro “O Cerco Chinês”, diz que a chave para o sucesso chinês é dupla. A velocidade vem primeiro. Uma fábrica na China necessita de dois meses para replicar a mais recente moda vinda de Milão e inserir produtos baratos no mercado europeu. Em Prato, este processo demora apenas duas semanas e os produtos vêm com o rótulo “Made in Italy”.
Segundo, os chineses dominaram toda a cadeia de produção. Eles importam roupas chinesas baratas, e depois as tingem e estampam. Botões, zíperes e ornamentos são fabricados na região. Os produtos acabados são vendidos para compradores de toda a Europa que frequentam as lojas de atacado.

O preço mínimo de uma camisa feminina simples de algodão é 1.70 euro (US$ 2,30, 1,50 libra esterlina, R$ 4,31). Trabalhando à plena capacidade, as cerca de 3.500 fábricas chinesas em Prato são capazes de produzir um milhão de peças por dia. Os chineses aproveitam o conhecimento criativo italiano de design, marketing e contabilidade.

Mas a mistura de recessão e repressão está conspirando contra aquelas fábricas chinesas ilegais que não pagam impostos, taxas sindicais ou serviços municipais. Mas não se sabe o que ocorrerá a seguir.

O prefeito – cuja rede de vestuários Sasch produz e vende na China – quer que os fabricantes chineses em Prato usem os próprios tecidos de alta qualidade da cidade em vez de importarem roupas e até revenderem-nas para a China.
Não se sabe se os patrões chineses legalizarão os seus negócios e, consequentemente, tornar-se-ão menos competitivos, ou se deslocarão as suas unidade produtivas para outro lugar.

Para a polícia, uma grande frustração consiste no fato de ela não poder deportar imigrantes ilegais que não possuem documentos, porque a China recusa-se a recebê-los de volta. Somente dois foram deportados no ano passado. “Nós estamos lidando com uma China sem fronteiras”, diz Marini.

Na China esta repressão praticamente não é noticiada, e a mídia estatal foi instruída a não ir a Prato. Sun Yuxi, embaixador da China em Roma, enfatiza a contribuição chinesa para a “riqueza” de Prato, insistindo que apenas uma pequena minoria dos trabalhadores é ilegal.
Desolado, e vestindo um pijama, enquanto a polícia invade a sweatshop, Lola, uma trabalhadora de 23 anos, diz que a recessão é tão grave que desde outubro eles praticamente não trabalham. Ela gostaria de voltar para casa, mas não gostaria de retornar à China de mãos vazias.

Mundo material
A população de Prato é de cerca de 180 mil habitantes, dos quais um terço é imigrante (comparado à média nacional de 6% de moradores estrangeiros).

Cerca de 35 mil a 40 mil chineses vivem em Prato, e 80% deles vêm de uma única cidade chinesa – Wenzhou, na província de Zhejiang.
23% dos alunos das escolas da cidade não são italianos.

As transferências monetárias para o exterior, em sua maioria para a China, são de cerca de 500 milhões de euros (R$ 1,3 bilhão). Em 2006, estas transferências chegaram a 50 milhões de euros (R$ 130 milhões).

O setor têxtil italiano perdeu quase 11 mil empregos desde 2000. Ele emprega atualmente 20.200 pessoas, em sua maioria italianos.
A produção têxtil caiu de quatro bilhões de euros (US$ 5,5 bilhões, 3,5 bilhões de libras esterlinas, R$ 10,3 bilhões) em 2000 para cerca de 2,7 bilhões de euros (R$ 6,9 bilhões) em 2009. A maioria das peças é exportada com o rótulo “Made in Italy”.

Cerca de 4.200 companhias chinesas estão registradas em Prato, das quais 75% são fábricas de roupas que produzem até um milhão de peças por dia.

No ano passado houve um aumento de 13% do número de companhias registradas.

Neste ritmo, costuma-se dizer que os fabricantes de roupas chineses em Prato poderiam vestir toda a população mundial em 20 anos.

Tradutor: UOL

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