Brasil acelera investimento na África

Richard Lapper*

Em Johannesburgo (África do Sul)

A Vale, a maior companhia mineradora brasileira, está se preparando para dar início a operações em Moçambique, enquanto a maior economia da América do Sul empenha-se mais na busca por recursos da África.

A remota cidade de Tete, na região central de Moçambique, fica sobre uma das maiores reservas mundiais de carvão. Neste momento em que trabalhadores migrantes e empreiteiras seguem para a região a fim de aproveitarem as oportunidades criadas por este empreendimento brasileiro multibilionário, Tete experimenta um boom econômico, e a sua infraestrutura não dá conta do fluxo constante de visitantes a negócios.

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    Mineradora brasileira planeja grandes investimentos em Moçambique, na África

“Toda vez que vou para lá, as coisas ficam mais difíceis”, diz Antônio Coutinho, um banqueiro sul-africano que está ajudando a financiar um investimento que poderia transformar a economia de Moçambique, que ainda depende de ajuda externa. “Esta é uma cidade pequena que está tentando dar conta de uma expansão maciça. A situação deve ter sido semelhante em Johannesburgo durante a corrida do ouro”.

O envolvimento da Vale é uma evidência clara do interesse crescente do Brasil na África. Os vínculos comerciais chineses e indianos com o continente estão mais avançados e atraem maior atenção.

Mas a chegada do Brasil na África faz parte do mesmo padrão segundo o qual os parceiros ocidentais típicos do continente competem com uma gama de países emergentes por recursos e influência.

Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente brasileiro que assumiu o cargo em 2003, visitou a África seis vezes nos seus primeiros cinco anos no poder.

Impulsionado pela demanda brasileira por matérias primas, o comércio cresceu rapidamente, com as importações da África subindo de US$ 3 bilhões (R$ 5,54 bilhões) em 2000 para US$ 18,5 bilhões (R$ 34,15 bilhões) em 2008. A Nigéria e a Argélia – assim como Angola – são fontes fundamentais de petróleo importado. Os competitivos produtores brasileiros de alimentos encontraram mercados em países como o Egito, contribuindo para aumentar em oito vezes o valor das exportações de São Paulo para a África, de US$ 1 bilhão (R$ 1,85 bilhão) em 2000 para US$ 8 bilhões (R$ 14,77 bilhões) em 2008.

Em Moçambique, a Vale está trabalhando com a Odebrecht, uma companhia brasileira de construção, para explorar as reservas de carvão, construir uma usina de energia elétrica e infraestrutura ferroviária e portuária para transportar o minério negro para os mercados exportadores.

Em Moatize, o local da mina na qual as escavações terão início no final deste ano, a Vale calcula que o seu investimento inicial será de US$ 1,3 bilhão (948 milhões de euros, 831 milhões de libras esterlinas, R$ 2,4 bilhões). Especialistas afirmam que o total poderá ser várias vezes superior a essa quantia.

A Vale e a Odebrecht não são as únicas companhias brasileiras que atuam em Moçambique. Há dois meses, a CSN, uma siderúrgica brasileira, comprou 16,3% da Riversdale, uma companhia mineradora australiana, na qual a indiana Tata Steel também possui uma participação acionária substancial. Essa companhia também está planejando investir bilhões de dólares na área de Tete.

A Odebrecht tornou-se a maior empresa empregadora do setor privado em Angola, com atividades que incluem a produção de alimentos e etanol, escritórios, fábricas e supermercados. Os seus executivos têm acesso direto a José Eduardo do Santos, o presidente do país. A Petrobras, a companhia petrolífera estatal brasileira, também é ativa em Angola, utilizando os seus conhecimentos técnicos no setor de prospecção em águas profundas.

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    Lula ao lado do presidente moçambicano, Armando Guebuza, em Maputo, Moçambique, durante visita ao país em 16 de outubro de 2008. Segundo o jornal Financial Times, o presidente brasileiro acelerou a agenda de visitas ao continente africano, a fim de estabelecer novos tratados comerciais com as nações africanas

Conexões culturais e linguísticas contribuíram para tornar o modelo de desenvolvimento do Brasil especialmente atraente em Angola e Moçambique. Vínculos históricos com a África lusófona remontam a séculos.

Cerca de 1,4 milhão dos três milhões de escravos africanos enviados para o Brasil entre 1700 e 1850 vieram de Angola, e na década de 1820 colonos de Angola, Moçambique e outras colônias portuguesas inscreveram-se para integrar um Brasil que declarara recentemente a sua independência.

O sucesso mais recente do Brasil no combate à pobreza – por meio do pagamento de auxílios condicionados à frequência à escola ou a visitas a clínicas – atraiu interesse em ambos os países.

“Eles se identificam conosco porque nós passamos por problemas similares aos deles no passado e adaptamos com sucesso a tecnologia às circunstâncias locais”, afirma um diplomata brasileiro em Maputo, a capital de Moçambique. “Eles veem o Brasil como um modelo a ser imitado”.

Embora as companhias brasileiras tenham investido uma quantia modesta de cerca de US$ 10 bilhões (R$ 18,5 bilhões) desde 2003, essa cifra provavelmente aumentará acentuadamente. O governo do Brasil está se empenhando em persuadir as companhias brasileiras a expandirem-se na África, especialmente depois que Lula da Silva assumiu a presidência em 2003.

A rede de embaixadas do Brasil no continente expandiu-se e dezenas de líderes empresariais acompanharam Lula da Silva em suas viagens. A fama do presidente na África é boa, tanto que em julho do ano passado a União Africana o nomeou convidado de honra na sua reunião na Líbia.

Analistas do Standard Bank em Johannesburgo argumentam que há um casamento harmônico entre os recursos brasileiros e a experiência do Brasil no setor alimentício e as oportunidades oferecidas por Angola. E eles dizem que a mudança climática poderia aumentar o valor dos investimentos do Brasil na África.

Como o clima mais quente reduziria a quantidade de terra cultivável no Brasil, os produtores de alimentos e etanol poderiam interessar-se mais por expandirem os seus negócios para a África, especialmente em países como Angola, onde a terra é abundante.

“O Brasil está se posicionando para ser o principal parceiro da África na busca vital por mais energia e segurança alimentar”, afirma Jeremy Stevens, coautor de uma recente pesquisa.

Para as multinacionais brasileiras, não há dúvida que as atrações são evidentes.

“O mais interessante em relação à África é que cedo ou tarde tudo isso se tornará realidade”, diz Roger Agnelli, presidente e diretor-executivo da Vale. “A África, juntamente com a América do Sul, representa o futuro dos recursos naturais do mundo”. 

Construindo Brics 

Na corrida pelos carimbos de passaporte, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, superou Hu Jintao, o presidente da China, tendo visitado 19 países africanos em oito viagens desde que assumiu o cargo em 2003.

Mas, em termos econômicos, a relação da África com a China continua sendo a mais significativa entre as nações emergentes do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China). O valor do comércio entre a África e a China saltou de US$ 4,1 bilhões (R$ 7,6 bilhões) em 1992 para US$ 107 bilhões (R$ 197,5 bilhões) em 2008, fazendo de Pequim o segundo maior parceiro comercial do continente depois dos Estados Unidos. Companhias chinesas têm investido agressivamente nos recursos naturais africanos, especialmente no petróleo.

Como bloco, o comércio do Bric com a África aumentou como proporção das transações comerciais do continente de 4,6% em 1993 para mais de 19% em 2008. Economistas do Standard Bank calculam que até 2030 quase 50% do comércio da África será feito com os Brics. 

*Jonathan Wheatley, em São Paulo, e Jack Farchy, em Londres, contribuíram para esta matéria.

Tradutor: UOL

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