Escolas de samba brasileiras se profissionalizam e descobrem a arte do gerenciamento

Jonathan Wheatley

Chegar perto da bateria de uma escola de samba é, literalmente, uma experiência que mexe com a gente. Os surdos fazem com que o nosso corpo vibre e os tambores de sonoridade mais aguda atacam os ouvidos e os deixam zumbindo. Antes de nos darmos conta, estamos dançando ao ritmo da bateria.

No domingo passado, várias escolas de samba de São Paulo ensaiavam para as festas de carnaval que começam hoje, quando elas darão início aos seus desfiles anuais com exibições fabulosamente exuberantes em uma competição muitíssimo disputada pelo campeonato local. Embora não tenha sido um ensaio de roupas – os magníficos carros alegóricos e indumentárias são mantidos em segredo até a grande noite –, milhares de fãs vieram assistir ao espetáculo no Sambódromo da cidade, uma avenida construída para este fim específico, amplamente iluminada, ladeada de arquibancadas que só são integralmente utilizadas uma semana por ano.

  • Caio Guatelli/Folha Imagem. Digital

    Arlequins sobre todas na comissão de frente da Mocidade Independente de Padre Miguel durante o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. A imagem reflete o equilibrio e a profissionalização das escolas de samba brasileiras nos dias de hoje

As escolas são frequentemente comparadas a times de futebol. Elas competem em campeonatos muitas vezes divididos em ligas (existem cinco em São Paulo), onde os desfiles anuais recebem notas de painéis dadas por juízes criteriosamente escolhidos. Elas atraem adeptos fanáticos, muitos deles prontos a dedicar tempo livre para apoiar as atividades das escolas. E, assim como os times de futebol do Brasil, as escolas de samba são organizações sem fins lucrativos cujas diretorias, por lei, não podem ser remuneradas. Isso significa que elas tendem a depender do amor, da paixão e da dedicação abnegada, e não de disciplina e processos formais.

Mas, assim como vários clubes de futebol evoluíram de instituições baseadas em comunidades para organizações administradas por profissionais, muitas escolas de samba estão sendo pressionadas para melhorar o seu desempenho com a introdução de ferramentas de gerenciamento desenvolvidas no mundo dos negócios. Rodolpho Pricoli Filho, presidente da Unidos do Peruche, uma das escolas de samba mais tradicionais de São Paulo, é um indivíduo que encoraja fortemente esta mudança de abordagem.

“Muita gente trabalha para escolas de samba por amor, mas amor apenas não é suficiente”, argumenta ele. “Por que nós fomos rebaixados duas vezes nos últimos anos? As pessoas precisam ser profissionais. Elas precisam ser capazes de exigir resultados. Em uma companhia o pagamento é efetuado de acordo com o resultado. Em uma escola de samba as pessoas trabalham por amor. Isso realmente causa alguns problemas”.

Como presidente da Elevadores Ergo, uma companhia de elevadores com vendas anuais de cerca de R$ 2 milhões (US$ 1,1 milhão, 785 mil euros, 690 mil libras esterlinas), Pricoli está bem posicionado para falar a respeito da diferença entre uma companhia e uma escola de samba.

  • Caio Guatelli/Folha Imagem

    Desfile da Unidos do Peruche, que homenageou o cartunista Mauricio de Sousa no ano de 2007 e apostou nas cores, no Sambódromo do Anhembi

“Algumas escolas fizeram a transição”, afirma Pricoli. “Vejam a Vai Vai (uma das maiores escolas de samba de São Paulo). Eles estão totalmente profissionalizados”.

No barracão – as enormes instalações nas quais as escolas de samba constroem os seus carros alegóricos – da Vai Vai, Lourival Almeida, diretor de carnaval, conta uma história diferente. “A coisa mais importante que toda empresa deseja dos seus clientes e trabalhadores é lealdade, amor pela marca”, afirma ele. “As escolas de samba têm isso de sobra. As pessoas se dedicam por amor”.

De fato, como a maioria das escolas de samba, a Peruche e a Vai-Vai contam com trabalhadores apaixonados e dedicados, dispostos a trabalhar várias horas por pouco ou nenhum salário. Mas ser uma organização amadora é algo que pode também trazer problemas. É difícil, por exemplo, impor disciplina sobre os diretores quando estes não são pagos, o que, por sua vez, faz com que seja difícil atrair pessoas com a qualidade necessária.

Marcelo Cotrim, vice-presidente da Peruche, diz que a escola de samba está saindo de um período difícil. “O nosso presidente é um dos indivíduos bons”, diz ele. “Neste ano, ele fez um empréstimo pessoal para ajudar a pagar as despesas com o carnaval. Mas nós já fomos chefiados por alguns tipos bem ruins – pessoas que estavam mais interessadas em poder, dinheiro e mulheres”.

O dinheiro envolvido é significante. As escolas de samba da primeira divisão de São Paulo recebem R$ 507 mil por ano da prefeitura da cidade. As escolas da segunda divisão recebem R$ 287 mil, e o valor cai para R$ 45 mil na quinta divisão.

A Vai-Vai gasta R$ 2,5 milhões com o seu carnaval, e mais R$ 50 mil mensais com as suas outras atividades. Peruche gastará cerca de R$ 1,5 milhão com o evento deste ano, sendo que R$ 600 mil virão de patrocínio, aluguel das dependências da escola, vendas de entradas e assim por diante, e cerca de R$ 225 mil da venda de fantasias a aproximadamente 1.500 fãs que desfilarão juntamente com os integrantes da escola de samba, muitos dos quais também pagam pelas suas próprias fantasias. Mas Pricoli precisa tirar dinheiro do próprio bolso para uma parcela das despesas restantes.

Almeida, da Vai-Vai, cita uma série de fontes de renda. Para o carnaval, além do dinheiro fornecido pela prefeitura, há direitos de transmissão televisiva e vendas de entradas, fantasias e mercadorias. Os passistas e percussionistas da escola de samba são contratados para eventos sociais e corporativos, e a sua sede no distrito do Bexiga, no centro de São Paulo, exibe shows e serve almoços à base de feijoada aos sábados.

Ela também tem acordos com os governos estadual e municipal para treinar professores em música e capoeira, uma combinação brasileira de dança e arte marcial. A sede da Vai-Vai também funciona como um centro social para a comunidade, dirigindo as pessoas para serviços de saúde, por exemplo, e ajudando a manter os jovens ocupados.

Tudo isso exige bastante gerenciamento. “Nós temos uma estrutura de comando não profissional, mas por detrás disso há uma organização bastante profissional”, explica Almeida.

Organizar um desfile de carnaval já é por si só uma tarefa enorme. O resultado do trabalho de Peruche neste ano consistirá de 23 diferentes blocos, ou grupos, cada qual tendo de 70 a 80 pessoas com uma fantasia específica, 200 percussionistas, quatro carros alegóricos principais, um grupo de frente com o seu próprio carro alegórico menor, e vários destaques, casais e indivíduos usando trajes especialmente elaborados, dançando na passarela e nos carros alegóricos.

O trabalho para a escolha de um tema, elaboração de um enredo e criação de fantasias e carros alegóricos tem início apenas algumas semanas após o desfile do ano anterior.

  • Evelson de Freitas / Folha Imagem

    Carro alegórico da escola de samba Vai-Vai durante desfile em São Paulo, no ano de 2001

Cinco ou seis meses antes do evento, um exército de soldadores, carpinteiros, escultores, costureiras, pintores e outros trabalhadores entra em ação.

Os líderes de equipes são contratados por uma remuneração fixa para criarem as fantasias de um bloco, por exemplo. Com esta quantia, eles têm que pagar e contratar os seus próprios trabalhadores. Por uma empreitada de duas a três semanas na Peruche, por exemplo, um líder de equipe recebe de R$ 2.000 a R$ 2.500.

“Os nossos carpinteiros trabalham também em outras áreas, mas eu posso lhe garantir que eles não fazem tal coisa com a mesma paixão”, afirma Almeida, da Vai-Vai. “Aqui você vê o seu trabalho se tornar uma obra de arte reconhecida por milhares de pessoas”.

Muitos trabalhadores atuam por iniciativa própria, muitas vezes decidindo por si próprios como transformar um desenho em uma fantasia ou em uma escultura de 3,5 metros de altura. Geralmente, isso funciona, embora às vezes às coisas deem errado, e as fantasias não apareçam à tempo ou os carros alegóricos não sejam capazes de resistir às chuvas torrenciais de verão. Muitas vezes é a estrutura de gerenciamento que faz a diferença entre uma escola vencedora e uma perdedora. A diretora de nove membros da Vai-Vai, composta em sua maioria de profissionais e de executivos de companhias, reúne-se todas as segundas-feiras durante o ano inteiro à partir das 20h, sem hora específica para terminar. É raro que alguém falte ao encontro.

Já na Peruche, Pricoli está lutando para gerar o mesmo nível de dedicação. A sua diretoria tem 20 integrantes, dos quais quatro não participaram das reuniões na maior parte do ano passado. “Eles só querem ser diretores para poderem obter um bom lugar no desfile”, reclama Pricoli. “Se eles aparecerem, nós não os deixaremos entrar”.

O “profissionalismo” que Pricoli admira tanto na Vai-Vai é em parte resultado do sucesso daquela escola de samba na competição. A Vai-Vai foi campeã 15 vezes, a última vez em 2008, e nunca foi rebaixada.

Já a Peruche foi campeã cinco vezes, nas décadas de cinquenta e sessenta, mas na última década foi rebaixada três vezes para a segunda divisão, sendo novamente promovida em cada ano subsequente. Após o rebaixamento do ano passado, ela espera retornar à primeira divisão neste fim de semana.

O sucesso gera sucesso, por meio de mais acordos de patrocínio e outras rendas. Pricoli, que foi eleito presidente da Peruche em 2008, após estar envolvido com a escola de samba durante 15 anos, está tentando trazer a sua experiência empresarial para a diretoria da escola.

“Em uma companhia a gente tem controle”, explica ele. “O produto está nas suas mãos. É muito mais simples. Em uma escola de samba há um novo comitê a cada ano. Não é como uma linha de produção”.

Como é que ele reverterá a situação da Peruche? “Estamos tentando trazer indivíduos competentes para fazer parte da escola”, diz ele. “Isso é importante tanto para os projetos sociais quanto para o carnaval. E, a seguir, teremos que procurar patrocínio e outros auxílios junto aos nossos amigos empresários”. 

Uma história do carnaval 
O carnaval tem as suas raízes nas comemorações do Entrudo do século 17, uma espécie de festa de rua agressiva protagonizada por imigrantes portugueses no Rio de Janeiro. À medida que isto evoluiu para bailes fechados e mais sofisticados, descendentes de escravos africanos passaram a fazer as suas próprias festas de rua. As barreiras entre os dois carnavais ruíram no Rio nas décadas de vinte e trinta, e as primeiras escolas, ou clubes, de samba, foram formadas.

Cidades distintas possuem tradições carnavalescas diferentes. No Rio e em São Paulo, trata-se mais de um espetáculo, com desfiles nos sambódromos, estádios específicos projetados por Oscar Niemeyer, o arquiteto mais famoso do Brasil.

Em Recife, no nordeste do Brasil, o carnaval é uma festa tradicional e de caráter participativo, com “blocos” de foliões que abrem caminho pelas ruas. Em Salvador, a festa é uma mistura dos dois carnavais anteriores, e os foliões seguem os trios elétricos – bandas munidas de inúmeros alto-falantes que se apresentam em cima de caminhões especiais.

O carnaval de São Paulo é de origem rural, tendo sido trazido para a cidade pelos trabalhadores das lavouras cafeeiras no início do século 20. Assim como o carnaval do Rio, ele está focado nos desfiles anuais no sambódromo. As primeiras escolas de samba da cidade surgiram nas décadas de vinte e trinta, embora elas só tenham se tornado organizações legais sem fins lucrativos a partir de 1950. 

Tradutor: UOL

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