Apesar da onda de nacionalizações, Venezuela obtém US$ 80 bilhões para retomar produção de petróleo

Benedict Mander

Em Caracas (Venezuela)

A Venezuela assinou acordos com empresas estrangeiras para seu Cinturão do Orinoco, rico em petróleo, que exigirão investimentos de até US$ 80 bilhões e podem dobrar sua capacidade de produção.

Mas apesar de ser um voto de confiança na Venezuela, apenas três anos após uma onda de nacionalizações no Orinoco, restam dúvidas sobre quanto tempo será necessário para a recuperação da produção de petróleo em declínio do país.

  • Miraflores Palace/Handout /Reuters

    Hugo Chávez, presidente Venezuela, em campo nacionalizado de petróleo, no Rio Orinoco

Além de conceder diretamente projetos que exigirão US$ 50 bilhões em investimentos no bloco Junin de Orinoco para empresas chinesas e russas, e para a ENI da Itália, consórcios liderados pela Chevron dos Estados Unidos e pela Repsol da Espanha conquistaram, na semana passada, participações minoritárias em dois projetos de US$ 15 bilhões no bloco Carabobo de Orinoco.

“A Venezuela se colocou à mercê dos mercados para testar quanto interesse real havia nas reservas do Orinoco. Os resultados são positivos, mas não empolgantes”, diz Patrick Esteruelas, um analista do Eurasia Group. Ele aponta que, apesar da “disposição sem precedente” de abrandar os termos de contrato, com a redução de royalties e a eliminação de alguns impostos, o governo concedeu apenas dois dos três projetos em Carabobo que propôs há mais de um ano.

A maioria das empresas que inicialmente demonstraram interesse na maior oportunidade de investimento na Venezuela desde que o presidente Hugo Chávez assumiu o poder, há 11 anos, se absteve da licitação. Entre elas estavam a BP, Shell, Total e Statoil, apesar de outras partes interessadas, como a CNPC da China e a Lukoil e Gazprom da Rússia, terem optado em concentrar sua atenção em projetos localizados em acordos entre Estados no bloco geologicamente menos atraente de Junin.

Apesar dos temores de algumas grandes empresas de petróleo, o fato de Carabobo ter recebido lances de empresas renomadas destaca a necessidade de melhorar as reservas. Enquanto isso, a posição de reconciliação da Venezuela pode refletir uma moderação no nacionalismo dos recursos no contexto de preços mais baixos do petróleo.

O interesse no petróleo extrapesado de Orinoco também aponta para o fato de que a futura produção mundial poderá depender cada vez mais de reservas de desenvolvimento mais difícil, com os depósitos pré-sal do Brasil e as areias betuminosas do Canadá também ganhando em importância.

Rafael Ramirez, o ministro da energia da Venezuela, diz que os projetos de Carabobo e Junin dobrarão a produção de petróleo do país de 3 milhões de barris por dia para 6 milhões de barris por dia até 2016. Mas observadores questionam se todos esses projetos estarão produzindo tão cedo.

“O desenvolvimento de Junin e Carabobo ao mesmo tempo será bastante desafiador. A coordenação de múltiplos projetos exigirá investimento e coordenação extraordinários entre as autoridades venezuelanas e os investidores. A curva de aprendizado será vertical”, diz David Voght, diretor administrativo da IPD Latin America, uma consultoria que trabalha com as companhias petrolíferas na Venezuela.

“Dadas as necessidades técnicas e compromissos de capital, esses projetos apresentam um caminho exigente à frente”, diz RoseAnne Franco, uma analista da PFC Energy. “Isto serve como lembrete de que as reservas do país permanecem substanciais demais para serem ignoradas.”

Chávez alega que o Cinturão do Orinoco é o maior campo de petróleo do mundo, com pelo menos 270 bilhões de barris de reservas recuperáveis.

Outro grande obstáculo para seu desenvolvimento bem-sucedido é se a PDVSA, a companhia estatal de petróleo da Venezuela que mantém uma participação de 60% nos projetos de Carabobo, permitirá aos seus parceiros minoritários um certo grau de controle operacional.

O retrospecto de gestão da PDVSA é irregular. “A PDVSA deve permitir que os parceiros se tornem agentes mais integrais em suas companhias mistas”, diz Voght. Outras complicações incluem a localização remota dos projetos e os altos custos de financiamento que a PDVSA está repassando aos seus parceiros.

As empresas também devem produzir petróleo a uma taxa duas vezes maior que a dos projetos existentes. E o gosto de Chávez pela expropriação permanecerá uma ameaça.

Mas, por ora, as empresas estão demonstrando otimismo.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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