Deficiência no emprego da ajuda ao Sudão gera crítica às rígidas regras do Banco Mundial

Barney Jopson,

Em Juba (Sudão)

Só um terço das verbas foi utilizado em quatro anos; regras estritas para desembolso são alvo de críticas

Um fundo administrado pelo Banco Mundial com o objetivo de ajudar o sul do Sudão a recuperar-se de décadas de guerra civil desembolsou pouco mais de um terço do dinheiro disponível, enfurecendo os doadores ocidentais que forneceram a maior parte do capital.

  • Antony Njuguna/Reuters

    Refugiados sudaneses em Uganda esperam por repatriados. O Sudão registra desde 2003 um conflito armado entre rebeldes e milícias apoiadas pelo governo sudanês responsável pela morte de mais de 200 mil pessoas na região de Darfur, região mais castigada pelos conflitos

Até o final do ano passado, somente US$ 181 milhões (R$ 331,6 milhões) dos US$ 524 milhões (381 milhões de euros, 333 milhões de libras esterlinas, R$ 960 milhões) que foram disponibilizados para o Multi-Donor Trust Fund (MDTF, um fundo global formado por vários doadores) foram gastos. Passados mais de quatro anos do tempo de duração do fundo, que é de seis anos, US$ 343 milhões (R$ 628,4 milhões) permanecem sem uso.

Sob o sol do Sudão

  • Veja série de reportagens sobre os refugiados do Sudão e os campos de refúgio de crianças

“Este resultado não é insuficiente”, afirma Michael Elmquist, diretor da equipe de doadores conjuntos que representa seis países que contribuíram para o MDTF. “Algumas partes do fundo funcionaram bem. Mas outras tiveram um desempenho terrível”.

As regras do Banco Mundial referentes ao desembolso de fundos explicam por que tanto dinheiro deixou de ser gasto. Este caso expõe um dilema de relevância para as várias iniciativas no sentido de tentar ajudar países em desenvolvimento: uma abordagem rígida em relação ao gasto de dinheiro pode acabar fazendo com que grandes somas deixem de ser empregadas, mas uma política mais flexível gera o risco de desperdício de verbas. Qualquer das duas opções deixa o Banco Mundial exposto a críticas.

O sul do Sudão é uma das regiões mais pobres do mundo, e necessita desesperadamente de escolas, clínicas, água tratada e estradas.
Elmquist afirma que não “há como” o MDTF gastar todo o seu dinheiro, incluindo os US$ 75 milhões (R$ 137,4 milhões) fornecidos pelo governo britânico, antes do prazo que expirará no ano que vem.

O MDTF deveria financiar a construção de cem escolas, mas essa meta foi reduzida para 44. Até agora apenas dez foram concluídas.
No ano passado, os doadores alocaram US$ 181 milhões (R$ 331,6 milhões) que teriam sido fornecidos ao MDTF para três outros fundos controlados por eles. O desempenho do MDTF foi prejudicado pelas regras de aquisição do Banco Mundial.

No processo de licitação para contratos de treinamento de professores, é exigida das agências de auxílio uma presença em todos os dez Estados do sul do Sudão. A falta de segurança e problemas de logística fazem com que isso seja quase impossível.

 

Maya Mailer, uma assessora política da Oxfam, diz que o fundo “foi criado em meio a uma incompreensão fundamental da realidade do sul do Sudão”.

O governo do sul do Sudão injetou mais de US$ 170 milhões (R$ 311,4 milhões) do seu próprio dinheiro no fundo. Mas os seus ministérios, criados nos cinco anos que se seguiram ao acordo de paz que pôs um fim à guerra com o regime de Cartum, frequentemente carecem da experiência necessária para seguir os procedimentos exigidos pelo Banco Mundial.

Laurence Clarke, o gerente do programa do Banco Mundial para o Sul do Sudão, reconhece que foi criticado pelos doadores. Mas ele os acusa de terem “abdicado totalmente de suas responsabilidades”. Clarke acrescenta que os números relativos aos gastos não contam a história toda. A quantidade de dinheiro fornecida aos ministérios e o número de contratos de serviços assinados no ano passado revelam que a situação está melhorando.

“As realidades na área fizeram com que fosse necessário um início mais lento e um certo processo de maturação”, argumenta Clarke.
Mas Elmquist, falando em nome dos doadores, responde: “Quando escolas não estão sendo construídas e serviços de saúde deixam de ser fornecidos, não dá para fingir que tudo vai bem. O povo do sul do Sudão merece algo melhor. E os nossos contribuintes também”.

Tradutor: UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos