Maior autoridade da ONU em mudança climática vai deixar o cargo

Fiona Harvey

A natureza torturante das negociações internacionais sobre mudança climática que ficou tão evidente durante as cenas caóticas na reunião de cúpula em Copenhague em dezembro há anos é personificada por um homem.

Yvo de Boer

  • EFE/Oliver Berg

Yvo de Boer, principal autoridade da ONU para aquecimento global, acusado de levar 20 anos de negociações ao fim sem um tratado de sucesso, tem sido o barômetro do estado flutuante das conversas.

Entusiasmado e animado nas raras ocasiões quando o cenário das negociações parecia positivo, como na eleição de Barack Obama à presidência dos EUA, De Boer tinha desespero estampado em seu rosto quando as negociações encontraram obstáculos. Em uma conferência crucial em Bali em 2007, ele parecia que ia irromper em lágrimas no palco quando a reunião estava em vias de terminar em fracasso e, no final de Copenhague, sua exaustão estava aparente em sua voz baixa e olhar cabisbaixo.

Ontem, contudo, depois de renunciar da tarefa de conseguir um acordo duradouro para emissões de gases de efeito estufa, De Boer esforçou-se para transmitir uma mensagem otimista ao seu sucessor, que ainda será escolhido.

“Sou melhor para começar as coisas do que para terminá-las”, disse ele em entrevista ao “Financial Times”. “Estamos agora entrando na fase de implementação, então será muito importante ter alguém bom em implementação.”

Contudo, ele frustrou esperanças que um tratado obrigatório pudesse ser assinado na próxima grande reunião no México em dezembro, dizendo que tudo o que se pode esperar é uma “decisão” que eventualmente leve ao tratado.

De Boer pode se orgulhar de um sucesso parcial para coroar sua carreira como servidor público: o Acordo de Copenhague, que pela primeira vez incluiu promessas de países ricos e pobres para limitar suas emissões de gases de efeito estufa e prometeu assistência financeira do mundo desenvolvido ao mundo em desenvolvimento para isso.

O acordo foi atacado por críticos que dizem que os compromissos de redução de emissões são imprecisos, e que o documento tem pouco significado pois não é obrigatório. De Boer disse que é uma boa base para um tratado.

Seu sucessor terá uma tarefa difícil, enfrentando não apenas a perspectiva de reunir 193 países em torno de um tratado provisório, mas também a forte oposição de uma onda de questionamentos da mudança climática. O cepticismo ressurgiu após uma série de escândalos, incluindo falhas nos dados usados pelo Conselho Intergovernamental sobre Mudança Climática, que incluiu alegação não verdadeira que as geleiras do Himalaia derreteriam até 2035, apesar de especialistas estimarem um tempo bem mais longo.

Ontem, De Boer defendeu fortemente os cientistas do clima. “O que não está em dúvida é a ciência central. As grandes questões desse debate foram os sintomas da mudança climática”, disse ele. “Isso é como o engenheiro do Titanic anunciando que o afundamento ia acontecer algumas horas depois”.

A ONU deve buscar um sucessor do mundo em desenvolvimento, disse De Boer, já que ele e seu predecessor eram ambos holandeses.

Quando deixar o cargo em julho, De Boer vai prestar consultoria à Kpmg e está negociando cargos acadêmicos com universidades, inclusive Yale e Utrecht. Ele admitiu que o principal fator em sua decisão de renunciar foi a tensão ininterrupta que enfrentou no cargo e o custo dela, particularmente para sua família.

Tradutor: Deborah Weinberg

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