Crise grega reforça os críticos do euro

Enquanto a crise fiscal grega apresenta à zona do euro a prova mais difícil em sua história de 11 anos, os adversários da moeda única fora da região se esforçam para conter a alegria.

No Reino Unido e na Dinamarca, os únicos membros da União Europeia que optaram formalmente por não aderir ao euro, os críticos aproveitaram a crise para reforçar a tese contra a adesão. "O euro poderá ser um negócio muito rentável para a Grécia", disse recentemente o Partido do Povo Dinamarquês. "O euro tornou-se na realidade um novo mecanismo de transferência e uma desculpa para viver além dos próprios meios."

O governo de centro-direita da Dinamarca, que favorece o euro, havia prometido um referendo sobre o assunto antes da eleição do próximo ano - uma década depois que os dinamarqueses votaram contra a adesão à moeda única. Mas recuou quando pesquisas de opinião mostraram que o país ainda está profundamente dividido sobre abandonar sua moeda, a coroa.

No Reino Unido, o Partido Conservador, na oposição, intensificou sua retórica antieuro antes da eleição geral nesta primavera, que provavelmente devolverá o partido ao poder. "Nossos déficit e dívida são ruins o suficiente sem a camisa-de-força do euro", disse David Cameron, líder do partido. Ele prometeu que o Reino Unido nunca entrará para a moeda única sob sua liderança.

Na Suécia, que rejeitou o euro em um referendo em 2003, o cientista político Rutger Lindahl, da Universidade de Goteburgo, disse que a crise grega poderá prejudicar ainda mais a tese da entrada, em uma região conhecida pela disciplina fiscal. "[A população nórdica] reprova a má gestão econômica porque não está acostumada com esse tipo de comportamento", ele disse, referindo-se à suposta culpa da Grécia por sua confusão fiscal.

Mesmo na Europa Central e do Leste, onde o entusiasmo pelo euro é geralmente maior, há sinais de que o apoio está diminuindo. Os exportadores nos países que não pertencem à zona do euro, como Polônia e República Tcheca, gozaram de uma vantagem competitiva contra os membros do euro Eslováquia e Eslovênia, quando a moeda única disparou durante a crise financeira. Hoje essa tendência está recuando, mas dúvidas sobre a estabilidade na zona do euro poderão prejudicar qualquer novo esforço para a adesão.

"Independentemente da crise grega, esses países têm a posição de 'esperar para ver'", disse Sandor Richter, economista do Instituto de Estudos Econômicos Internacionais, em Viena. "Essa relutância aumentou em consequência da crise grega."

O primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, disse que seu país está comprometido a entrar, mas deixou claro que não há pressa. "Queremos fazê-lo com responsabilidade, cumprindo os critérios e sem pôr a economia em risco com qualquer choque."

No entanto, em alguns países o desejo de adotar o euro continua forte. A Estônia tem planos para aderir em janeiro próximo, depois de lutar para pôr suas finanças públicas em linha com os critérios de convergência, e Letônia e Lituânia pretendem entrar em 2014. Os três resistiram à pressão para desvalorizar suas moedas, que foram atreladas ao euro em preparação para a entrada, enquanto combatiam a recessão no ano passado. Apoio semelhante existe na Hungria, cujo primeiro-ministro, Gordon Bajnai, considera a zona do euro um "porto seguro".

Os políticos da zona do euro continuam comprometidos com a expansão da união monetária. Mas, enquanto a crise grega intensifica o exame dos desequilíbrios entre os membros, a perspectiva de admitir países atingidos pela crise como Hungria e Letônia, ambos socorridos pelo Fundo Monetário Internacional, certamente causa nervosismo.

As regras de convergência foram aplicadas estritamente mesmo antes da crise, e membros aspirantes provavelmente enfrentarão um exame mais minucioso no futuro. "Ao aceitar novos membros, temos de prestar mais atenção no que se refere a datas e à longevidade da convergência", disse Jürgen Stark, um membro do conselho executivo do Banco Central Europeu.

Juraj Kotian, analista do Erste Bank, disse que isso poderá significar que os candidatos terão de preencher os requisitos de entrada com uma ampla margem ou por um período mais longo.

A Estônia reagiu com irritação a essas sugestões. "Não estamos pedindo qualquer isenção", disse o primeiro-ministro Andrus Ansip. "Espero que ninguém comece a criar novos critérios."

Reportagem de Andrew Ward em Estocolmo, Chris Bryant em Viena, Jan Cienski em Varsóvia e Ralph Atkins em Frankfurt

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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