De olho nas pesquisas,Obama continua fazendo pressão

Edward Luce

Em Washington

Charlie Cook, o respeitado analista eleitoral, irritou alguns democratas nesta semana quando comparou a incansável luta de Barack Obama pela reforma na saúde à obsessão de George W. Bush com a guerra no Iraque. 

“Acho que adotar uma abordagem ‘Capitão Ahab’ na saúde é comparável à decisão de Bush de entrar em guerra”, disse ao Jornal Nacional. (O Capitão Ahab colocou seu navio baleeiro em risco com sua caça obsessiva por Moby Dick). Cook acrescentou ontem que com isso não quis dizer “equivalência moral”. 

Hoje, Obama vai fazer sua mais recente e mais pública tentativa de avançar seu projeto de reforma de 10 anos e US$ 950 bilhões (em torno de R$ 1,8 trilhão) publicado na segunda-feira, quando fará uma “reunião de cúpula” com seus oponentes republicanos -uma maratona de reunião que será transmitida pela televisão. 

Alguns democratas questionaram por que Obama vai gastar tempo no ar tentando alcançar o impossível: pensar junto com uma oposição que descreve o projeto como uma forma de socialismo europeu. 

Contudo, uma avaliação das atitudes muitas vezes confusas do público norte-americano sugere que Obama estudou bem as pesquisas. Se, como parece provável, a reunião de Obama não conquistar republicano algum, os democratas quase certamente vão tentar aprovar emendas ao projeto do Senado pelo processo de “reconciliação” –um instrumento que permite que um projeto de lei seja aprovado com 51 votos, no lugar da super-maioria de 60 exigida para leis normais. 

Se chegar a isso, a manobra vai gerar revolta de republicanos que vão acusar Obama de enfiar um projeto impopular goela abaixo de um país combalido pela recessão. Mas, de acordo com uma recente pesquisa do Centro Pew, somente um quarto dos americanos e menos da metade do público com terceiro grau compreende a regra de 60 votos. “Sentei-me ontem a noite para explicar o que era a reconciliação para meus alunos de pós-graduação. Se você estudar a opinião pública, não deve haver nada que impeça o presidente Obama de tomar esse caminho”, disse Robert Blendon, professor da Universidade de Harvard e especialista no setor de saúde. 

A opinião pública sobre o conteúdo do projeto de lei de saúde é mais confusa. A maior parte dos americanos apoia fortemente os benefícios prometidos pelos projetos da Câmara e do Senado. Estes incluem proibir as empresas de seguro de avaliar os clientes com condições pré-existentes,como diabetes. Eles também defendem o fim da prática das seguradoras de impor um limite de gastos anuais ou para a vida toda. E apoiam a criação de subsídios para dar cobertura à maior parte dos 47 milhões não assegurados. 

Por margens igualmente amplas, os norte-americanos se opõem a todas as coisas necessárias para pagar por essas reformas, especialmente os cortes de US$ 500 bilhões em pagamentos sob o sistema de Medicare, que fornece saúde socializada para pensionistas. Naturalmente, há bastante espaço para interpretar essas opiniões contraditórias. “Se você seguisse as preferências do público, você levaria os EUA à falência rapidamente”, diz um estrategista democrata. 

Talvez o resultado mais importante das pesquisas de opinião seja o alto apoio entre eleitores democratas pela reforma da saúde –quase um espelho exato da oposição à reforma entre eleitores republicanos. 

Como os fieis ao partido formam uma proporção maior do eleitorado nas eleições ao Congresso do meio do mandato presidencial, faz todo o sentido Obama reenergizar a base de seu partido desmoralizado, tentando aprovar a reforma da saúde. Faz igual sentido para Mitch McConnell e John Boehner, líderes republicanos no Senado e na Câmara, jogarem contra na televisão quando Obama tentar atraí-los hoje. 

O grupo final de eleitores são os independentes, que apreciam muito o bipartidarismo. “Os independentes são um grupo que adora ver as pessoas se unindo e se sentando na mesma mesa”, diz Blendon. A reunião de cúpula “bipartidária” de hoje é especialmente boa para os independentes, que podem se animar com a perspectiva de seis horas de programação.

Tradutor: Deborah Weinberg

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