Erros diplomáticos de Israel provocam alarme

Tobias Buck

Em Jerusalém (Israel)

  • Abir Sultan /EFE

    O Embaixador turco em Israel, Ahmet Oguz Celikkol (à dir.), e o vice-ministro das Relações Exteriores de Israel, Danny Ayalon, durante encontro; Ayalon foi criticado por fazer o turco se sentar em um sofá baixo, em uma aparente tentativa de humilhar o emissário diante da mídia

    O Embaixador turco em Israel, Ahmet Oguz Celikkol (à dir.), e o vice-ministro das Relações Exteriores de Israel, Danny Ayalon, durante encontro; Ayalon foi criticado por fazer o turco se sentar em um sofá baixo, em uma aparente tentativa de humilhar o emissário diante da mídia

À primeira vista, a morte violenta de um dirigente do Hamas em Dubai, no mês passado, pareceria ter pouco em comum com a altura dos sofás no Ministério das Relações Exteriores de Israel. Ou as recentes ameaças do ministro das Relações Exteriores de Israel contra o presidente da Síria. Ou a recusa rude de um alto funcionário israelense em receber um grupo de legisladores americanos na semana passada.

Mas há um tema que os liga: todos falam da capacidade de Israel de irritar seus vizinhos, antagonizar seus aliados e aprofundar o isolamento do país. Em um momento em que Israel já está diplomaticamente na defensiva por todo o mundo e cambaleando da reação negativa internacional contra a guerra na Faixa de Gaza no ano passado, é um hábito que está começando a alarmar muitas pessoas, inclusive dentro do próprio Israel.

Há, é claro, uma boa chance de que o assassinato de Mahmoud al Mabhouh nunca seja conclusivamente ligado ao serviço secreto de Israel. Mas a suposição predominante de que os assassinos foram de fato enviados pelo Mossad –utilizando passaportes britânicos, irlandeses, alemães e franceses para a viagem– já estremeceu os laços de Israel com esses países aliados europeus.

Israel não tem relacionamento oficial com Dubai que poderia estragar. Mas o emirado é um dos países árabes considerados “moderados” por Israel, e forma um bloco potencialmente importante na aliança contra o Irã. Em outras palavras, não é um campo de batalha ideal para a guerra secreta de Israel contra os militantes palestinos.

A aliança estratégica crucial de Israel com a Turquia, por sua vez, está abalada pelo recente caso “Sofagate”. Em uma ação que enfureceu tanto o governo quanto a opinião pública turca, o embaixador turco foi instruído pelo vice-ministro das Relações Exteriores de Israel a se sentar em um sofá baixo, em uma aparente tentativa de humilhar o emissário diante da mídia israelense. Danny Ayalon foi posteriormente forçado a pedir desculpas, mas há pouca dúvida de que o episódio causou um dano duradouro a uma das alianças mais importantes de Israel.

O incidente não foi um caso isolado. Sob Avigdor Lieberman, o ministro das Relações Exteriores e líder do partido de extrema direita Yisrael Beiteinu, Israel parece ter abraçado uma escola de diplomacia que gosta de fala rude e gestos provocadores. Em sua mais recente explosão, Lieberman alertou o presidente sírio de que ele e sua família seriam derrubados do poder caso ocorra outra guerra entre os dois países.

Isso ocorreu após outra decisão igualmente danosa na semana passada, desta vez por parte de Ayalon, de se recusar a se encontrar com uma delegação visitante de legisladores americanos. Isso ocorreu porque os legisladores –representando a maior e mais importante aliado de Israel– viajavam com um grupo de lobby judeu de esquerda, visto por alguns membros da direita de Israel como críticos demais da política israelense.

Alguns israelenses estão claramente desesperados com esta série de gols contras diplomáticos. É um desdobramento ainda mais enigmático dado que Israel está plenamente ciente dos riscos que corre com uma reação negativa internacional. Muitos israelenses estão convencidos de que seu país é vítima de uma campanha de “deslegitimização” comandada por grupos palestinos e ativistas anti-Israel de todo o mundo. Eles ficaram profundamente enfurecidos com os esforços, mais notadamente no Reino Unido, de processar políticos e soldados israelenses por supostos crimes de guerra. Eles temem pedidos de boicote. E rejeitam firmemente a onda de condenação internacional e protestos provocada pela guerra do ano passado na Faixa de Gaza.

Por trás de tudo isso há o medo de que Israel no final será tratado como um Estado pária, como a África do Sul da época do apartheid, com todas as consequências que poderiam resultar: nenhum cantor israelense no concurso anual da canção Eurovision, nenhuma laranja de Jaffa nos pratos europeus e nenhum apoio europeu e americano às políticas israelenses na ONU.

É um cenário que permanece fantasioso. O apoio a Israel é sólido nos Estados Unidos e entre a maioria dos governos europeus.

Mas Israel teme, acertadamente, que está perdendo a solidariedade de grande parte da opinião pública ocidental. O cultivo cuidadoso dos laços diplomáticos de Israel com seus aliados não é tema para manchetes dramáticas. Mas os laços servem mais aos interesses de longo prazo do Estado judeu do que um militante palestino morto em um quarto de hotel em Dubai.
 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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