China enfrenta escassez de mão-de-obra

Tom Mitchell

Em Cantão (China)

  • Bobby Yip/Reuters

    Chineses olham oferta de trabalho; retomada de produção tem criado escassez de mão-de-obra

    Chineses olham oferta de trabalho; retomada de produção tem criado escassez de mão-de-obra

Os operários de fábrica migrantes demitidos durante a crise estão escassos, à medida que o otimismo retorna

Em um dia da semana passada, o comitê de boas-vindas enviado pela maior fabricante de fornos de micro-ondas do mundo aguardava em vão no lado de fora da maior estação de trem de Cantão, a capital da província de Guangdong, no sul da China.

Liu Tingting, uma executiva de recrutamento da Galanz, conversava com uma dúzia de colegas uniformizadas enquanto trabalhadores migrantes que deixavam a estação passavam por elas. Todos usavam faixas vermelhas e amarelas que diziam “A Galanz lhes dá as boas-vindas”. Mas havia poucos novos recrutas para os quais dar as boas-vindas.

“A crise financeira global diminuiu e as encomendas estão voltando, mas a escassez de mão-de-obra está relativamente severa”, disse Liu, reconhecendo que o esforço de sua equipe era incomum. “Nós não costumamos vir à estação de trem para procurar por trabalhadores.”

A China voltou oficialmente a trabalhar nesta semana, após o final do feriado de ano novo lunar, com os gerentes das fábricas mais otimistas do que nunca de que o pior da crise financeira global já ficou para trás. Há apenas um problema –os trabalhadores, que muitas fábricas foram rápidas em demitir no final de 2008 e início de 2009, não estão mais fazendo fila do lado de fora de seus portões.

“É uma situação meio assustadora, para falar a verdade”, disse Charles Hubbs, o proprietário americano da Fortunique, uma fabricante de produtos médicos com sede em Cantão. “Se recebermos um grande número de encomendas, onde conseguiremos os trabalhadores? Tempos interessantes nos aguardam.”

Após 14 meses de declínios em comparação ao ano anterior, o valor das exportações da China finalmente aumentou em dezembro. Segundo a Administração Geral da Alfândega, os números do comércio exterior da China para janeiro retornaram aos níveis de 2008. Então veio a confirmação no início deste mês de que a China ultrapassou a Alemanha como maior exportadora do mundo, o que reforçou a confiança de que as fábricas do país estão de volta.

Mas os trabalhadores das quais elas dependem não estão de volta, apesar de uma maior persuasão para que voltem. A Galanz busca 1.250 trabalhadores para uma série de vagas, pagando entre 1.700 yuans (R$ 455) por mês, para vagas para iniciantes, e 2.800 yuans (R$ 750) para técnicos mais capacitados.

“Nós não encontramos ninguém hoje”, reconheceu Liu, agarrando folhetos que cheiravam a desespero. Eles oferecem alimento complementar para o primeiro mês de trabalho, chás de ervas refrescantes nos dias quentes, quartos de dormitório gratuitos com banheiro e água quente, e instalações de lazer, biblioteca e computadores.

A ambivalência dos trabalhadores em relação a essas ofertas se deve em parte a melhores oportunidades mais próximas de casa. Em anos anteriores, Zhuang Benchao seria um recruta potencial para a Galanz. No ano passado, ele trabalhou em Huizhou, uma cidade fabril a leste de Cantão.

No início desta semana, ele podia ser encontrado esperando por uma entrevista do lado de fora dos portões de uma grande fábrica de brinquedos em sua cidade natal, Shaoguan, a maior cidade da região norte montanhosa e pobre de Guangdong, perto da divisa com a província de Hunan. “É melhor trabalhar mais próximo de casa”, disse Zhuang, 20 anos, que mora no centro da cidade de Shaoguan com seus pais. A convicção do jovem de que não há lugar como o lar é uma boa notícia para a Early Light, a fábrica de brinquedos de Hong Kong onde ele estava sendo entrevistado.

Em anos anteriores, a Early Light tinha que procurar trabalhadores em locais tão distantes quanto Xinjiang, no distante noroeste da China. Em julho passado, um distúrbio na fábrica de brinquedos, colocando trabalhadores de etnia han contra seus colegas muçulmanos uigures, deixou dois mortos e provocou um derramamento de sangue ainda pior na capital de Xinjiang, Urumqi, onde outras 200 pessoas morreram nos choques entre grupos das duas etnias.

Em Cantão, empresas como a Fortunique estão se adaptando ao ambiente de recursos humanos mais difícil recorrendo a trabalhadores temporários que, como diz Hubbs, “não estão à procura de uma carreira na fábrica”. Os temporários representam apenas pouco mais de 10% dos 400 funcionários da fábrica e fornecem “uma ajuda de curto prazo quando necessário”.

Na outra ponta do espectro de talento, o empreendedor americano começou recentemente a contratar universitários formados em engenharia para posições de supervisão, antes ocupadas por funcionários mais velhos com experiência nas linhas de montagem. “Nós queremos estudar a forma como fazemos as coisas e como podemos fazer as coisas com menos mãos”, disse Hubbs. “Nós achamos que podemos fazer isso com pessoas de nível superior, que chegam com uma nova abordagem.”

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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