A Califórnia se recusa a murchar com o vinho

David Gelles

Em San Francisco (EUA)

  • Sherri R. Camp/Shutterstock

    Remessas de vinho da Califórnia caíram no ano passado pela primeira vez em 16 anos

    Remessas de vinho da Califórnia caíram no ano passado pela primeira vez em 16 anos

Os vinhedos da Califórnia estão nus, e os negociantes de vinho esperam a primavera e os brotos que anunciam a safra do ano que vem.

Ainda assim, enquanto os produtores podam fileira por fileira, há certa sobriedade no ar, como seu uma neblina grossa tivesse coberto o vale Napa, em geral tão exuberante.

As remessas de vinho da Califórnia caíram no ano passado pela primeira vez em 16 anos, uma contração que marcou o fim de um dos períodos mais robustos de crescimento da região. Foram 4 milhões de caixas a menos em um total de 236 milhões, de acordo com estimativas dos analistas. Isso representa uma queda de apenas 1,6% na produção da indústria US$ 19 bilhões (em torno de R$ 35 bilhões) de vinho da Califórnia, mas suficiente para alarmar os veteranos da indústria.

“Isso atrapalhou muitos mercados produtores de uvas e de vinho e vai continuar”, disse Jon Fredrikson, consultor da indústria. Os produtores de vinho, distribuidores e a economia local da Califórnia, todos sentiram o impacto.

Os hábitos dos consumidores mudaram drasticamente com a recessão. Com a crise econômica, parecia que as pessoas simplesmente tinham parado de beber.

“Atingimos um muro há um ano. Alguns produtores tiveram uma queda de 30% nas vendas”, disse Vic Motto, diretor executivo da Global Wine Partners, banco de investimento da indústria.

Contudo, havia mais em jogo do que apenas os efeitos da recessão. Uma combinação de fatores pôs fim ao salto de crescimento vinícola da Califórnia.

“A economia estava difícil, os consumidores evitaram o excesso e houve uma combinação de questões de safra e uma mudança marcada no comportamento do consumidor”, disse Benjamin Sharp, presidente da Captûre Wines, uma produtora iniciante do condado de Sonoma.

Parte do problema na Califórnia é seu vinho ser tão bom. Por causa da qualidade geralmente alta do produto da região, as garrafas têm um prêmio no preço, o que deixa o vinho mais exposto quando os consumidores decidem economizar durante uma recessão.

“Os vinhos mais caros foram os que mais sofreram”, disse Motto.

Os consumidores que compravam garrafas exclusivas da Califórnia agora têm opções mais baratas do Chile, Argentina e Austrália, para citar alguns. “Não é que você tenha que viver sem”, disse Fredrikson. “Mas em vez de gastar US$ 50 por uma garrafa, você pode gastar US$ 10 ou US$ 20 (cerca de R$18, R$36 e R$90, respectivamente).”

Essa troca por produtos mais baratos levou a um desgaste heterogêneo da indústria. Enquanto vinhos especiais com preços mais altos foram mais atingidos, muitos dos produtores maiores, que vendem os chamados “vinhos de supermercado”, tiveram anos maravilhosos.

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“Os maiores fabricantes se saíram relativamente bem, muitos deles batendo volumes recorde por causa desse rearranjo na demanda do consumidor”, disse Fredrikson.

Como a maior parte das vinícolas é privada, elas não divulgam números exatos e poucas quiseram discutir os problemas de uma comunidade restrita. Mas houve algumas luminosas exceções. A Captûre Wines, fundada por Sharp, sua mulher Tara e quatro outros sócios, teve sucesso surpreendente em seus primeiros anos no ramo.

Contudo, estreando seu primeiro lançamento no meio da recessão, a empresa foi forçada a entrar no mercado com um preço mais baixo do que planejado.

“Todo mundo foi impactado”, disse Sharp. “Tivemos que nos fazer muitas perguntas”.

A Captûre então decidiu reduzir o preço de seu primeiro lançamento, um Sauvignon Blanc de 2008, vendendo-o a US$ 32 (cerca de R$ 57), uma barganha para um vinho de butique.

Antes da recessão, a Captûre teria vendido a mesma garrafa por US$ 75-$100 (entre R$ 135 e R$ 180).

“Você tem que ter estômago, bolso e muita paixão”, disse Sharp.

A Capture, ainda assim, conseguiu vender 90 % de seu lote fazendo uma campanha agressiva de vendas diretas.

Em vez de depender dos distribuidores, que são altamente dependentes de vendas para a sofrida indústria de restaurantes, muitos produtores de vinho estão cultivando laços pessoais com seus clientes. “Aqueles que têm relacionamento direto com os consumidores se saíram melhor”, disse Motto.

Além de contabilizar as perdas do ano passado, a indústria de vinho enfrenta um futuro incerto.

“O ataque cardíaco financeiro que tivemos foi um problema de saúde severo para a economia e se aplica as várias categorias de produtos, inclusive o vinho”, disse Fredrikson.

Como, no futuro previsível, as garrafas da Califórnia vão continuar mais caras do que as de competidores estrangeiros, pode levar algum tempo antes de os consumidores começarem a gastar em vinhos caros novamente, o que significa mais um ano potencialmente difícil para o vale Napa.

Outros acreditam que a forte onda que levou a Califórnia para o topo da indústria mundial de vinho vai ajudá-la a se recuperar rapidamente.

“Uma série de mudanças culturais e demográficas levou o crescimento da indústria de vinho da Califórnia por 25 anos e ainda está movendo a indústria”, disse Motto.

Tradutor: Deborah Weinberg

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