Wolf: o elefante indiano avança em meio à crise econômica

Martin Wolf

  • Ritu Raj Konwar/AP

    Funcionário observa um elefante no Parque Nacional Kaziranga, na Índia. Sagrado entre os indianos, o elefante é símbolo da prosperidade econômica em curso no país

Crise? Que crise? Os autores de políticas da Índia não estão fazendo essa pergunta complacente? Mas a Índia passou por uma “boa crise”. Agora a tarefa é retirar o apoio excepcional dado à economia e realizar as reformas necessárias para um crescimento rápido, sustentável e inclusivo. 

Quando Pranab Mukherjee, o ministro das Finanças, apresentou seu orçamento na semana passada, ele notou que há um ano a Índia enfrentava um duplo desafio: a crise global e um período de fracas monções. Agora, “eu posso dizer com confiança que suportamos bem essas crises”. Como colocou o Levantamento Econômico do governo indiano: “Uma série de pacotes de estímulo foram implantados na segunda metade de 2008 e 2009, no orçamento interino de 2009-2010 e, de novo, três meses depois, no orçamento final de 2009-2010. No segundo trimestre, a economia exibiu sinais de recuperação; e agora, próximo do fim do ano, a Índia parece estar voltando rapidamente aos anos animados que precederam 2008”. No ano financeiro de 2008-2009, o produto interno bruto da Índia cresceu 6,7%. Neste ano a previsão é de que crescerá 7,2%. Se a economia indiana teve sucesso em sobreviver a este teste com tão poucos danos, até mesmo analistas cautelosos devem estar mais otimistas a respeito do futuro.  

O estímulo tem seus custos. O déficit fiscal do governo central expandiu de 2,6% do PIB em 2007-2008 para um número provisório de 5,9% em 2008-2009. A estimativa para este ano é de 6,5%. Se forem incluídos os Estados, o déficit saltou de 4% do PIB, em 2007-2008, para 8,5% em 2008-2009, e com uma previsão de 9,7% neste ano. O PIB nominal da Índia cresceu a uma taxa média de 14% entre 2004-2005 e 2009-2010. Isso torna déficits de 10% do PIB bastante sustentáveis. Quem me dera o Reino Unido estivesse em situação igual. 

Todavia, a continuidade desses déficits é indesejada. Primeiro, grande parte dos gastos –particularmente em subsídios aos fertilizantes, alimentos e petróleo– é mal direcionada. Segundo, a poupança do setor público caiu de 5% do PIB em 2007-2008 para 1,4% em 2008-2009. Isso precisa ser revertido. 

Antes da crise, a taxa de poupança bruta tinha atingido 36% do PIB. Dada a atração pelo país de capital estrangeiro de longo prazo, isso permitiria uma taxa de investimento de quase 40% do PIB. Uma taxa tão alta de investimento poderia resultar em um crescimento de 10%. Pode ser possível conseguir ainda mais: como o produto per capital da Índia (em paridade de poder aquisitivo) é aproximadamente 15 vezes menor do que o americano, o potencial de rápido crescimento é imenso. 

O tamanho do otimismo se tornou evidente durante uma semana passada na Índia no mês passado. Um dos destaques foi uma conferência sobre um livro de ensaios em homenagem a Montek Singh Ahluwalia, vice-presidente da comissão de planejamento e, atrás de Manmohan Singh, o autor de política econômica mais influente da Índia das últimas duas décadas (e um amigo meu há 39 anos).* 

Eu fiquei impressionado com o tom otimista do ensaio sobre “desempenho macroeconômico e políticas, 2000-2008”, de Shankar Acharya, um ex-conselheiro econômico chefe do governo indiano. O dr. Acharya é o mais moderado dos analistas competentes da economia indiana. De fato, o livro passa uma forte sensação da confiança da elite tecnocrata no desempenho e perspectivas da Índia. Confiança semelhante é palpável entre a elite empresarial. Esta confiança torna esta Índia radicalmente diferente daquela que conheci quando fui um alto economista para a Índia no Banco Mundial, em meados dos anos 70. O surgimento de um consenso na elite sobre para onde o país está seguindo é claro para qualquer visitante comum. Quando entrei no Ministério do Comércio, bastião dos oponentes da abertura dos mercados nos anos 70, me chamou a atenção um cartaz descrevendo a Índia como “a maior democracia de livre mercado do mundo”. 

  • Jorge Araujo Folha Imagem

    Imagens da cidade de Nova Delhi, capital indiana que é símbolo da nova economia que nasce no país

Outra característica é a crença de que o pragmatismo das políticas da Índia, particularmente em relação às finanças globais e à balança de pagamentos, provou ser correto. Aqueles encarregados de um vasto país, com tantas pessoas vulneráveis, têm o direito de serem cautelosos em tornar sua economia refém das tendências sociopatas do setor financeiro. Este foi o tema de um ensaio de Rakesh Mohan, um ex-vice-presidente do Reserve Bank of India (o banco central indiano). 

Mas cautela não pode ser inércia. A lista do dr. Acharya de reformas necessárias inclui acertadamente “infraestrutura, agricultura, leis trabalhistas, setor bancário, energia, educação e varejo”. Felizmente, um país tão grande quanto a Índia pode sustentar um rápido crescimento mesmo se o ambiente externo permanecer menos amistoso do que antes. Mas isso tornaria a remoção dos obstáculos internos ao crescimento ainda mais urgente. 

O ambiente externo também importa, pelo menos em três aspectos. Primeiro, a Índia seguiu o exemplo da China ao se tornar bem mais aberta ao comércio. De fato, a relação entre o comércio de mercadorias e serviços não-fabris e o PIB da Índia em 2008 equivalia ao da China em 2003. Segundo, a Índia depende do acesso a matérias-primas estrangeiras, particularmente energia. Logo, choques nos preços da energia seriam muito desestabilizadores. Finalmente, a Índia precisa de paz. 

A Índia e a China são ambas civilizações ancestrais. Mas o Estado ancestral da China tem uma legitimidade poderosa. O Estado indiano é jovem. A política é uma negociação permanente. A democracia não é, como alguns argumentam, um obstáculo para o progresso da Índia, mas uma condição necessária para sua existência como um Estado. Apesar de todas as suas frustrações e fracassos, o sistema político é viável. 

Como argumenta um capítulo do Levantamento Econômico sobre as “Microfundações do Crescimento”, mesmo os “custos burocráticos imperdoavelmente altos da Índia são como um recurso valioso enterrado no solo”. Tanto poderia ser obtido se o Estado saísse do caminho. Eu tenho pouca dificuldade em imaginar que a Índia possa sustentar um crescimento próximo de 10% ao ano por um longo prazo. Segundo suposições conservadoras, a economia da Índia seria maior do que a do Reino Unido, em preços de mercado, em uma década e maior do que a do Japão em duas. Eu argumento em um capítulo sobre “a Índia no Mundo” que a Índia está seguindo a China como uma “superpotência prematura”, um país com baixos padrões de vida, mas com uma economia imensa. 

Exausto pelo fardo de suas pretensões, o Reino Unido deveria em breve oferecer seu assento no Conselho de Segurança da ONU à sua antiga colônia. Sua condição seria a de que a França fizesse o mesmo em favor da União Europeia. Independente de tal estadismo esclarecido acontecer ou não (provavelmente não), nós estamos caminhando para uma era de superpotências continentais. A Ásia será lar de não apenas uma, mas duas delas. 

*Shankar Acharya e Rakesh Mohan, “India’s Economy”, Oxford University Press, Nova Déli, 2010.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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