Brasil rejeita proposta americana de sanções contra o Irã

Daniel Dombey e Jonathan Wheatley

Em Brasília e São Paulo (Brasil)

  • Pablo Martinez Monsivais/AP

    A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, durante encontro com o presidente Lula e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, em Brasília

O Brasil desferiu um duro golpe nas esperanças de Washington de obter consenso internacional para a aplicação de sanções contra o Irã, na quarta-feira (03/03), quando o presidente brasileiro declarou a sua oposição a tais medidas horas antes de se reunir com Hillary Clinton, a secretária de Estado dos Estados Unidos.

Em uma indicação da crescente auto-confiança do Brasil no cenário internacional – e dos esforços do país no sentido de adotar uma rota independente de Washington –, Luiz Inácio Lula da Silva declarou o seu apoio ao programa nuclear do Irã, contanto que tal programa permaneça com um caráter estritamente pacífico.

Os Estados Unidos e os seus aliados dizem que o Irã está buscando capacitação para produzir armas nucleares, e a agência de fiscalização nuclear da Organização das Nações Unidas (ONU) sugeriu recentemente que Teerã poderia estar trabalhando na criação de uma ogiva para mísseis.

  • Pablo Martinez Monsivais/AFP

    A secretária dos EUA, Hillary Clinton, é recebida pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim em Brasília. Em entrevista coletiva concedida no Palácio do Itamaraty, em Brasília, na tarde desta quarta-feira (3) Hillary Clinton, afirmou que o governo brasileiro ainda acredita numa resposta positiva às tentativas de diálogo com o Irã em prol da não produção de armas nucleares

Mas, apesar da condenação enérgica do programa iraniano por parte da União Europeia e da Rússia nos últimos dias e da visita de Hillary Clinton ao Brasil, na qual a secretária concentrar-se-á na questão do Irã, Lula manteve a sua posição quanto ao assunto.

“Não é prudente empurrar o Irã contra a parede”, afirmou o presidente brasileiro, ressaltando a sua oposição às iniciativas norte-americanas para a imposição de sanções, uma medida que talvez seja a principal prioridade de Washington no momento. “O que é prudente é estabelecer negociações”.

Ele acrescentou que manteria uma “discussão franca” sobre a questão com Mahmoud Ahmadinejad, o presidente iraniano, quando visitar Teerã em maio.

No final de semana, durante uma visita a El Salvador, Lula deixou claro que o Brasil não está disposto a ceder às pressões norte-americanas: “Eu visitarei o Irã e não terei que prestar contas a ninguém... Cada país exerce a democracia conforme bem entender. Os Estados Unidos fazem isso à sua maneira e todos concordam com a forma como o governo deles se comporta”.

Os comentários de Lula constituem-se em uma advertência aos Estados Unidos antes da reunião com Hillary Clinton, embora algumas autoridades afirmem que os norte-americanos terão uma chance maior de obter o apoio do líder brasileiro quando este se reunir com Barack Obama, o presidente dos Estados Unidos, em Washington, no mês que vem.

Na manhã da quarta-feira, Hillary Clinton afirmou que os Estados Unidos enxergam o Brasil “assumindo maior responsabilidade e liderança com o passar do tempo”.

Os Estados Unidos estão tentando obter consenso para a aplicação de sanções contra o Irã no âmbito do Conselho de Segurança da ONU – onde o Brasil atualmente ocupa uma cadeira –, mas Washington está enfrentando a resistência de vários membros, incluindo a China, a Turquia e o Líbano. Embora Washington necessite de apenas nove dos 15 votos para obter uma resolução – contanto que a China não vete a medida –, os norte-americanos estão buscando um sinal de apoio internacional forte, a fim de aumentar o isolamento do Irã.

Isso é extremamente importante para a estratégia dos Estados Unidos, já que qualquer sanção aprovada pela ONU poderá ser relativamente limitada e focada na Guarda Revolucionária iraniana e nas instituições financeiras do Irã. A Rússia já anunciou a sua oposição a sanções “incapacitantes”.

O Brasil está assumindo uma linha independente à medida que o país se estabelece como um líder regional. Já os Estados Unidos estão tentando aprofundar os seus vínculos com a América Latina, depois de tensões devido à sua política em relação a um golpe ocorrido no ano passado em Honduras.

Mas, em uma indicação de alguns dos obstáculos com os quais Washington irá se defrontar, os países da região organizaram na semana passada uma reunião que excluiu os Estados Unidos e o Canadá. Embora Hillary Clinton afirme que é hora de “virar a página” a respeito do golpe de Honduras, muitos governos ainda dizem que os Estados Unidos não se opuseram aos líderes golpistas com vigor suficiente.

Eric Farnsworth, vice-presidente do Conselho das Américas em Washington e ex-funcionário do Departamento de Estado, diz que a resistência do Brasil às pressões dos Estados Unidos expõe os limites da capacidade de Washington de persuadir outros países na região a alinharem-se com os seus objetivos políticos.

“Antigamente a situação era diferente”, diz ele. “Muita gente em Washington está se perguntando se o Brasil é um parceiro de verdade dos Estados Unidos ou um rival emergente. Na minha opinião, ele é um pouco das duas coisas. A grande questão é saber como administrar esta situação. Este é um desafio com o qual nós nunca antes nos defrontamos”.

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