Terremoto do Chile prejudica legado de Bachelet

Jude Webber

Em Buenos Aires (Argentina)

  • Ivan Alvarado/Reuters

    Prestes a deixar o cargo, a presidente do Chile, Michelle Bachelet, é saudada durante sua visita à Constitución, cidade também danificada pelos terremotos no último dia 27 de fevereiro. A cidade fica ao sul de Santiago e a presidente chilena tenta confortar as famílias que perderam parentes durante os tremores que abalaram várias cidades chilenas

    Prestes a deixar o cargo, a presidente do Chile, Michelle Bachelet, é saudada durante sua visita à Constitución, cidade também danificada pelos terremotos no último dia 27 de fevereiro. A cidade fica ao sul de Santiago e a presidente chilena tenta confortar as famílias que perderam parentes durante os tremores que abalaram várias cidades chilenas

Dúvidas relativas à tomada de decisões provavelmente impedirão um retorno de Bachelet à presidência 

Michelle Bachelet, a presidente do Chile que amanhã (11/03) passará o cargo ao próximo presidente, disse antes de assumir o mandato em 2006 que não se deveria permitir que os políticos “repetissem o prato”.

Embora ela tenha acabado desrespeitado a sua própria regra, tendo empossado indivíduos experientes e já testados em vez de recorrer a novos protagonistas, conforme prometeu, a aprovação popular dela era tão elevada que uma segunda candidatura à presidência em 2013 parecia provável.

Mas o terremoto de 27 de fevereiro mudou tudo. Embora Bachelet tenha transpirado a empatia, que é uma das suas características mais apreciadas, ao visitar as cidades devastadas, abraçar vítimas e enxugar as lágrimas em frente às câmeras de televisão, os alertas de um tsunami foram precários e ela deu a impressão de ter sido lenta em enviar auxílio à população e mobilizar as forças armadas para conter os saques.

O terremoto, que ocorreu no momento em que o Chile emergia da recessão e rumava para um crescimento do produto interno bruto de até 5,5% neste ano, deverá anular qualquer crescimento no primeiro semestre e provocar uma subida temporária da inflação, embora acredite-se que as medidas gigantescas de reconstrução venham a estimular a recuperação e a criação de empregos no final deste ano.

“A possibilidade de ela retornar evaporou-se”, afirma o analista político Eugenio Tironi. “Há certas coisas que uma pessoa pode consertar apenas sendo boa. Mas agora a capacidade dela de tomar decisões está sendo questionada”.

Na quinta-feira Bachelet transfere o cargo para Sebastián Piñera, um empresário bilionário. A transferência acabará com duas décadas de governo por uma coalizão de esquerda que assumiu o poder após os 17 anos da ditadura militar de Augusto Pinochet, sob a qual Bachelet foi torturada e fugiu para o exílio.

Mesmo antes de tomar posse, Piñera está sendo definido como o “presidente da reconstrução”. Ele terá que usar dezenas de milhões de dólares para a reconstrução de casas, hospitais, estradas, pontes, instalações portuárias e o principal aeroporto em uma nação do Pacífico que depende das exportações. Ele também precisará auxiliar a recuperação de indústrias fundamentais como a de vinhos, pescados e extração de madeira.

“Este é um fim dramático para a transição política”, afirma a analista política Marta Lagos. “Isso destrói a possibilidade de Bachelet deixar qualquer legado positivo. Eu não ouvi uma só palavra positiva favorável a ela”.

Esta médica e mãe solteira de 58 anos, que rompeu a estrutura socialmente conservadora da América Latina, descreve-se como “uma mulher socialista, separada, agnóstica – todos os pecados juntos”. Ela tornou-se a primeira titular do sexo feminino de um Ministério da Defesa na região, em 2002, e a seguir foi a primeira mulher presidente de uma nação importante da América Latina a chegar ao poder sem o auxílio de um marido poderoso.

Embora o seu índice de aprovação tenha disparado para mais de 80% antes do terremoto, os últimos quatro anos não foram fáceis para Bachelet.

A sua popularidade despencou quando o seu governo implementou apressadamente um sistema integrado de metrô e ônibus na capital, Santiago, fazendo com que milhares de moradores tivessem que enfrentar jornadas enormes para chegar ao trabalho. Ela conquistou respeito ao assumir a responsabilidade pelo fiasco, mas as cicatrizes permaneceram. Greves e protestos estudantis também irromperam, e analistas afirmam que a reforma educacional continua sendo um dos maiores projetos não concluídos do seu governo.

Veja o relato dos surfistas brasileiros:

O estilo pessoal de Bachelet também foi criticado. Embora o seu pragmatismo e honestidade tenham conquistado fãs, os críticos não perderam tempo em acusá-la de ser vacilante e ingênua quando ela criou conselhos para avaliar os principais problemas do país.

O seu legado inclui uma ampla reforma do sistema de aposentadoria e progressos na área de direitos das mulheres, bem como uma expansão de 500% da rede nacional de creches, que permite que muitas mães pobres voltem a trabalhar ou estudar.

Além disso, ela deixa este país, que é o maior produtor de cobre do mundo, com uma reserva de US$ 11 bilhões (oito bilhões de euros, 7,3 bilhões de libras esterlinas, R$ 19,6 bilhões), prudentemente poupadas a partir dos lucros obtidos com este minério, e uma economia que suportou bem a tempestade financeira global e que recentemente foi recompensada com o ingresso na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

Guillermo Holzmann, da Universidade do Chile, diz que a reputação internacional de Bachelet “continua absolutamente intacta”.

Porém, no campo doméstico, as suas realizações foram agora eclipsadas.

“Isso é muito triste”, afirma Rodrigo Alvarez, da Escola Latino-Americana de Ciências Sociais. “Ela não merecia acabar desta forma”.

 

Tradutor: UOL

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