Wolf: A crise da zona do euro agora é um pesadelo para a Alemanha

Martin Wolf

  • Olivier Hoslet/EFE

    Os líderes da União Européia em reunião na sede do bloco econômico em Bruxelas, na Bélgica

    Os líderes da União Européia em reunião na sede do bloco econômico em Bruxelas, na Bélgica

Desde que a república federal foi fundada, a Alemanha tem dois objetivos estratégicos principais: moeda estável e integração europeia. Esses foram os dois imperativos aprendidos com as calamidades do início do século 20. O euro representa essas metas. Agora elas estão em conflito uma com a outra.

É a resposta certa resgatar os pecadores, fortalecendo assim a coesão da zona do euro, mas ameaçando a estabilidade monetária? Ou será deixar os pecadores darem o calote, fortalecendo assim a credibilidade monetária, mas enfraquecendo a coesão? A Alemanha podia evitar essas escolhas antes da moeda única: países não competitivos simplesmente desvalorizavam.

Infelizmente, o debate doméstico alemão presume, equivocadamente, que a resposta é todo membro se tornar como a Alemanha. Mas a Alemanha pode ser a Alemanha –uma economia com disciplina fiscal, demanda doméstica débil e enorme superávit de exportação– apenas porque os outros não são. Seu modelo econômico atual viola o princípio da universalidade do maior filósofo alemão, Immanuel Kant.

A ideia de que os países estão em dificuldade por causa de seu próprio desleixo é fácil de se chegar no caso da Grécia. Segundo o mais recente Panorama Econômico da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a dívida pública bruta foi de 115% do produto interno bruto no ano passado, o déficit do governo geral foi de 12,7% do PIB e o déficit em conta corrente foi de 11,1%.

Este, então, seria um caso clássico para intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI). Normalmente, este ofereceria um apoio temporário de liquidez em troca de uma desvalorização e rigor fiscal. Mas a Alemanha rejeita a ideia de que uma organização externa dite a política para um país que compartilha a mesma moeda que a Alemanha. Ela sugere, em vez disso, a criação de um Fundo Monetário Europeu para fornecer apoio de liquidez condicional. Sob a direção dos outros membros da zona do euro, o FME dedicaria uma política fiscal ao pecador.

Os membros do governo alemão também querem que penas sejam impostas. Entre as ideias estão: suspensão dos subsídios da União Europeia, os “fundos de coesão”, aos países que não cumpram a disciplina fiscal; suspensão dos direitos de votação em reuniões ministeriais; e até mesmo suspensão da zona do euro. Uma ideia menos controversa é aplicar multas já permitidas segundo o “pacto de estabilidade e crescimento” da UE.

Mas a criação do FME exigiria um novo tratado, assim como a exclusão das instituições da zona do euro (apesar de que um país não poderia ser impedido de usar o euro em si). Multar países em dificuldades fiscais já provou ser inviável no passado. Hoje, a maioria dos membros teria que ser multado. Vá sonhando!

Nós devemos notar uma dificuldade ainda maior. A noção de que a grande ameaça é a indisciplina fiscal é falsa.

A Grécia é um caso especial. Os excessos fiscais de hoje não são resultado de indisciplina fiscal, mas de indisciplina privada. Esta última, além disso, foi um elemento inerente no funcionamento da própria zona do euro. Foi como a economia da zona do euro se equilibrou, em um nível razoável de demanda geral, no período pré-crise.

Isso é melhor entendido a partir dos balancetes financeiros dos membros da zona do euro em 2006, antes a crise, e em 2009, no seu auge. O balanço entre renda e gastos nos setores privado, público e externo deve somar zero. Em 2006, Alemanha, Holanda e Áustria tiveram imensos superávits privados, em relação ao PIB, enquanto os setores privados de Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha tiveram déficits imensos. As posições fiscais pareciam sob controle em toda parte: Irlanda e Espanha até mesmo apresentavam superávits fiscais substanciais (apesar de ilusórios). Enquanto isso, os superávits privados da Alemanha e da Holanda foram compensados por uma saída imensa capital. No geral, nós vemos um desequilíbrio privado, mas a ilusão de estabilidade fiscal, com os países mais ou menos cumprindo os critérios do tratado para déficits fiscais.

Então veio a crise: os setores privados financeiramente em risco recuaram. Em 2009, os setores privados de quase todos os membros apresentam enormes superávits: agora eles todos são Alemanha! E quais são as compensações? A resposta: déficits fiscais. O quadro para a Irlanda e Espanha é dramático. A curto prazo, é impossível mudar rapidamente os balanços externos, particularmente quando a demanda doméstica nos países com superávit é tão fraca.

Agora a Alemanha insiste que todo país deve eliminar seu excesso de déficit fiscal o mais rápido possível. Mas isso só pode acontecer em caso de melhora do saldo em conta corrente ou em caso de deterioração no saldo privado. Para ser o segundo, é preciso haver uma retomada dos gastos privados, presumivelmente financiados por dívida. Para ser o primeiro, há duas opções: primeiro os saldos em conta corrente devem deteriorar em outras partes na zona do euro, acarretando em superávits privados menores em países como a Alemanha. Ou, segundo, o balanço geral na zona do euro deve passar ao superávit –uma política de “empobreça o vizinho”.

Na prática, o resultado mais provável dessa retração fiscal seria uma recessão em países com grandes déficits externos e fiscais. Dada a falta de competitividade dos países com déficits externos e a fraca demanda em toda parte na zona do euro, essas recessões poderiam se transformar em duradouras. A pergunta é se as populações suportariam isso. Em caso negativo, crises políticas surgiriam, com as consequências incertas inerentes.

Me permita colocar isso de forma direta: os superávits estrutural do setor privado e em conta corrente da Alemanha tornam virtualmente impossível para seus vizinhos eliminarem seus déficits fiscais, a menos que estes estejam dispostos a conviver com recessões duradouras. O problema poderia ser resolvido por uma zona do euro passando a superávits externos. Eu me pergunto como a zona do euro explicaria essa política aos seus parceiros globais. Também poderia ser resolvido por uma política monetária expansionista por parte do Banco Central Europeu, que estimulou com sucesso os gastos privados nos países com superávit e também elevou a inflação alemã bem acima da média da zona do euro.

A Alemanha está em uma armadilha criada por ela mesma. Ela quer que seus vizinhos sejam mais parecidos com ela. Eles não podem ser, porque sua demanda doméstica deficiente não pode ser universalizada. Como outro grande filósofo alemão, Hegel, poderia ter dito, a tese alemã exigia a antítese espanhola. Agora que a bolha do setor privado estourou, a síntese é um desastre fiscal na zona do euro. Ironicamente, a Alemanha precisa se tornar menos alemã para que a zona do euro possa se tornar mais alemã.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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