Crise expõe problemas em países do antigo bloco comunista

Chris Bryant, em Budapeste (Hungria) Vanessa Houlder, em Londres (Reino Unido)*

  • Hoang Dinh Nam/AFP

    Crianças formam um grande sinal comunista durante o ensaio para uma parada de Da Nang

    Crianças formam um grande sinal comunista durante o ensaio para uma parada de Da Nang

Países da Europa Oriental terão que implementar grandes mudanças culturais caso queiram equilibrar os seus orçamentos
 

Enquanto se protege do frio em uma estação ferroviária central de Budapeste, Mihaly Bayer, 76, um técnico de tubulações aposentado, não pode reclamar da espera pelo seu trem. Assim como todos os pensionistas húngaros, ele viaja de graça pela rede de transporte público, o que lhe permite fazer o trajeto de 170 quilômetros a partir da sua cidade, Pécs, para homenagear o pai em um memorial de guerra na capital.

Levando um pouco de pão em uma maleta de couro, já que não tem como pagar refeições nos caros restaurantes de Budapeste, Bayer está longe de ser rico.

Entretanto, uma pensão de 76 mil forintes (285 euros ou R$ 691), acesso gratuito ao serviço de saúde e consumo de gás subsidiado proporcionam a ele um padrão de vida que seria invejado pelos pensionistas de alguns países mais ricos do que a Hungria.

Porém, assim como muitos húngaros, Bayer está começando a compreender a gravidade da crise econômica e o que ela poderá significar para o generoso sistema social que lhe dá suporte desde que ele se aposentou, com uma lesão na coluna, aos 56 anos de idade. “Nós enfrentamos problemas econômicos graves, e esses problemas persistirão”, afirma o aposentado. “Se mentirmos quanto a isso, nós ficaremos novamente em apuros”.

A Hungria, um país que se defronta com uma dívida pública quase inadministrável, começou a tentar conter os enormes gastos públicos em 2006. O sucesso húngaro em reduzir o déficit orçamentário de 9,2% em 2006 para os projetados 3,9% no ano passado atraiu, portanto, o interesse de outras capitais europeias.

Essa façanha é ainda mais notável porque, até recentemente, a reforma estrutural dos programas de pensão e de previdência social do país pareciam impossíveis.

Os húngaros que cresceram sob o comunismo não gostaram da ideia de abandonar uma estrutura na qual o Estado fosse o provedor da população, e tornaram-se adeptos de um sistema complicado, mas generoso, de subsídios e pagamentos de benefícios sociais. Mas em outubro de 2008 o país foi a obrigado a recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para a obtenção de um crédito de 20 bilhões de euros (R$ 48,4 bilhões). “A crise afetou a Hungria. Foi como se alguém de repente ligasse os faróis e você enxergasse as rachaduras na parede”, disse recentemente o primeiro-ministro Gordon Bajnai.

Depois que o governo tecnocrata de Bajnai assumiu o poder em abril do ano passado, a Hungria acabou com o chamado 13º salário e, a partir de 2012, a idade mínima para a aposentadoria aumentará de 62 para 65 anos. As pensões foram indexadas à inflação, com aumentos que dependerão de um forte crescimento econômico. O Estado acabou também com os pagamentos de auxílios à infância aos pais que ficam em casa com os filhos, aboliu uma taxa de juros subsidiada aos compradores de residências e tornou mais rígidos os critérios para a obtenção de outros benefícios.

Um fato importante foi que essas medidas foram implementadas no sentido de incentivar os húngaros a reintegrarem-se à força de trabalho.
Muitos dos três milhões de pensionistas se aposentaram bem antes da atual idade mínima de 62 anos, frequentemente por alegarem incapacitação física. A idade média efetiva de aposentadoria na Hungria de 2002 a 2007 foi de 59,7 anos, sendo uma das mais baixas registradas pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

“Não se trata apenas de uma questão de disponibilidade de empregos, mas também de disposição para trabalhar... Se o indivíduo ganha um salário mínimo ou quase isso e os seus benefícios sociais são mais ou menos equivalentes, por que ele ele iria trabalhar?”, questiona Gyorgy Barcza, economista do Banco K&K.

Mas há quem argumente que a Hungria precisa de uma transformação cultural e fiscal. “Há muita coisa mais que precisa ser feita para motivar as pessoas a saírem de casa e trabalhar, em vez de viverem do auxílio social. Ainda prevalece a mentalidade de que o governo proverá e o Estado ajudará o indivíduo”, diz Laszlo Balassy, diretor-administrativo do Citibank Europe na Hungria.

O partido oposicionista Fidesz deverá conquistar o poder na eleição geral do mês que vem, e ele advertiu que o déficit fiscal deste ano poderá expandir-se para 7%, devido à maneira como se faz a contabilidade das entidades estatais. Nas próximas semanas, portanto, os temores de eleitores como Bayer deverão se constituir em uma das maiores preocupações dos políticos.

“Eu espero que o futuro seja melhor, porque no momento as coisas estão difíceis”, disse ele antes de fazer um cumprimento com o chapéu e partir a bordo do seu trem.

Romênia implementará reformas
Seguindo a tendência de outros países do leste europeu, a Romênia também implementará reformas duras para cumprir com as suas obrigações para com os credores internacionais, mas o país não deseja elevar os impostos sobre as empresas, disse o primeiro-ministro romeno.

Emic Boc disse ao “Financial Times” que as demissões no setor público, a contenção dos aumentos salariais e as reformas do sistema de pensões são essenciais para ajudar a reduzir o déficit fiscal e modernizar o ex-Estado comunista neste momento em que o país luta para restaurar o crescimento econômico.

“Eu sem que nem todas essas medidas são populares. Mas nós não estamos aqui para tomarmos medidas populares, e sim para implementarmos medidas necessárias que sejam boas para a Romênia”, declarou Boc.

Vinte anos após a queda do comunismo, os 22 milhões de habitantes da Romênia foram expostos no ano passado à fúria total da crise capitalista. Um período notável de crescimento econômico e investimentos estrangeiros acabou abruptamente quando a entrada de capital cessou e o país, que é um dos Estados mais pobres da União Europeia, mergulhou em uma profunda recessão.

A Romênia foi obrigada a recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para receber um auxílio de 20 bilhões de euros (R$ 48,4 bilhões), em um processo que acabou expondo os vários anos de gastos públicos generosos e de corrupção generalizada.

Os investidores assustaram-se novamente em outubro, quando o governo anterior de Boc entrou em colapso. Mas a reeleição de Traian Basescu, o presidente, em dezembro de 2009, a formação de um novo governo e a aprovação do orçamento de 2010 persuadiram o FMI e a União Europeia no mês passado a desbloquear 3,3 bilhões de euros (US$ 4,5 bilhões, três bilhões de libras esterlinas, R$ 8 bilhões) em empréstimos ao país. Citando reformas orçamentárias de sucesso, nesta semana o Standard & Poor's elevou a classificação de crédito da Romênia de “negativa” para “estável”.

Mesmo assim, alguns preocupações persistem. Boc necessita dos independentes para contar com uma pequena maioria parlamentar, o que poderia prejudicar a sua capacidade de implementar mais políticas de austeridade, caso os parlamentares oposicionistas e os sindicalistas se opusessem a essas medidas.

“Neste momento nós não contamos com uma forte maioria no parlamento.. mas temos uma maioria”, insistiu ele. “O que poderia acontecer conosco que fosse pior do que o que aquilo pelo qual passamos em 2009?”.

O governo prometeu reduzir o déficit orçamentário neste ano de 7,2% para 5,9%, com a demissão de 100 mil funcionários públicos, o congelamento de salários e a abolição de milhares de “pensões privilegiadas”. Uma lei de responsabilidade fiscal está seguindo para o parlamento.

“Respeitar o acordo com o FMI é uma das maiores prioridades da Romênia”, afirmou Boc. “Se a Romênia abandonasse essas reformas, isso seria um desastre. Precisamos de um Estado normal, com gastos normais, e implementaremos as reduções que forem necessárias”.
No entanto, ele se opõe à elevação de impostos para aumentar as receitas do governo, e descreve o imposto fixo de 16% como um incentivo para os investimentos estrangeiros que ajudará a criar empregos.

Os impostos romenos estão entre os mais baixos da União Europeia, e alguns economistas questionam se os esforços para combater a evasão fiscal serão suficientes, neste momento em que o desemprego crescente pressiona ainda mais o orçamento.
Em uma outra entrevista, Mugur Isarescu, o diretor do banco central romeno, afirmou que está preocupado em não permitir que o leu (a moeda romena) fique muito valorizado, já que isto desencorajaria uma recuperação baseada nas exportações. “Nós não precisamos de uma recuperação espetacular”, advertiu ele, referindo-se às projeções de que a economia crescerá 1,3% neste ano.

Previsão sobre os Investimentos Estrangeiros Diretos
Um boom de cinco anos, durante o qual os investimentos estrangeiros diretos (IED) quintuplicaram, chegando a US$ 155 bilhões (R$ 274,7 bilhões) em 2008, foi interrompido pela recessão e pela contração do crédito, disse o grupo de serviços profissionais PwC. Os fluxos de capital sofreram uma redução de mais de 50% , chegando a US$ 77 bilhões (R$ 136,4 bilhões) em 2009, quando os investimentos em imóveis, materiais de construção e autopeças despencaram, apesar do aumento dos investimentos na energia alternativa, produtos químicos e componentes eletrônicos.

Grandes disparidades em termos de IED de diferentes países emergiram no ano passado. A Eslováquia experimentou um aumento de fluxos de capital de 55%, como resultado de um único investimento imobiliário de US$ 2,3 bilhões (R$ 4,1 bilhões). A Letônia e a Lituânia experimentaram os maiores declínios, de cerca de 70%, quando os investimentos em imóveis secaram.

A PwC previu que os IED na região ultrapassarão o seu apogeu atingido em 2008 até 2013. Os fluxos de capital para a Europa Central e Oriental “aumentaram notavelmente” após meados da década de noventa, quando a República Tcheca, a Polônia e a Hungria tornaram-se destinos importantes para o investimento estrangeiro.

Kester Eddy contribuiu para esta matéria.

Tradutor: UOL

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