Berlusconi se defende das acusações de censura contra-atacando

Guy Dinmore

Em Roma

  • Alessandro Bianchi/Reuters

Silvio Berlusconi, primeiro-ministro italiano e magnata do setor de mídia, partiu para a ofensiva na terça-feira (16/03) contra alegações de que ele tentou censurar a RAI, a rede de teledifusão estatal, e denunciou os magistrados que investigam o caso, e que teriam grampeado as suas ligações telefônicas.

“O primeiro-ministro tem o direito de falar ao telefone com qualquer um sem ser grampeado”, declarou Berlusconi em uma entrevista de rádio na noite passada, acusando os procuradores da cidade litorânea de Trani de “violações flagrantes da lei”.

Neste momento em que as tensões crescem perto das eleições regionais de 28 e 29 de março, Berlusconi conclamou os seus apoiadores a comparecerem a um comício em Roma no sábado, e pediu que estes, na ocasião, “defendam a democracia” contra um “jogo perigoso” que está sendo feito pela esquerda com os seus aliados da mídia e o judiciário.

A mídia local anunciou que os advogados de Berlusconi foram informados ontem pelos promotores em Trani de que o primeiro-ministro está formalmente sob investigação por suspeita de abuso do cargo.

Esta controvérsia é a mais recente dentre várias que ameaçam prejudicar a campanha eleitoral de Berlusconi. Faz apenas um mês que o seu partido, O Povo da Liberdade, parecia estar destinado a vencer em várias das 11 regiões controladas pelos seus rivais de centro-esquerda, mas as últimas pesquisas indicam que ele poderá ganhar em apenas uma ou duas delas.

A resposta dura do governo à forma desastrada como o partido registrou os seus candidatos em duas regiões importantes gerou divisões internas e resultou em perda de apoio público.

No início deste mês, Berlusconi atacou aquilo que classificou como “um Estado policial” criado pelo uso generalizado de grampos telefônicos pelo judiciário e pela publicação ilegal do conteúdo das interceptações na mídia.

Naquela ocasião ele era alvo de uma outra investigação devido a alegações de corrupção envolvendo dois assessores próximos e a concessão de contratos de construção estatais. Mas desta vez Berlusconi se vê no centro da tempestade depois que o jornal de esquerda “Il Fatto Quotidiano” anunciou na última sexta-feira que ele estava sob investigação em Trani por tentar censurar a rede italiana estatal de teledifusão.

Trechos das 18 supostas conversas telefônicas publicados na mídia parecem mostrar o primeiro-ministro repreendendo Augusto Minzolini, o diretor do Canal Um da RAI, e Giancarlo Innocenzi, chefe da Agcom, a agência reguladora das comunicações da Itália.

Berlusconi estaria furioso com dois programas de entrevistas políticas apresentados por críticos bem conhecidos, e especialmente com programas que estariam sendo planejados sobre o julgamento de David Mills, o seu ex-advogado, que é acusado de receber propinas para prestar falso testemunho, bem como com alegações feitas contra ele em um tribunal por um pistoleiro da Máfia que cumpre pena de prisão.

Berlusconi não negou na noite passada que as supostas conversas tenham ocorrido. Ele chamou o caso de uma “iniciativa grotesca” e afirmou que tem o dever legítimo de levantar dúvidas quanto à cobertura televisiva feita “por toda parte”.

Os seus aliados frisam que as transmissões continuaram assim mesmo.

Enquanto os críticos usaram a controvérsia para expor a influência de Berlusconi sobre a televisão por meio do seu controle da Mediaset, a principal teledifusora privada da Itália, e as suas nomeações políticas para cargos na RAI, os ministros do governo preferiram se focar naquilo que chamam de grampeamentos ilegais das conversas do primeiro-ministro e nos vazamentos das supostas transcrições dessas conversas.

Os promotores de Trani teriam descoberto as conversas de Berlusconi quando investigavam um outro caso que não tinha relação com o primeiro-ministro.

Tradutor: UOL

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