Wolf: China e Alemanha se unem para enfraquecer a economia mundial

Martin Wolf

  • 23.10.2008 - Jason Lee /Reuters

    O primeiro-ministro, Wen Jiabao (centro), e a chanceler alemã, Angela Merkel, em Pequim

    O primeiro-ministro, Wen Jiabao (centro), e a chanceler alemã, Angela Merkel, em Pequim

A “Chermany” falou na semana passada e o mundo ouviu. O que ela disse foi coerente? Não. O que ela disse foi hipócrita? Muito. O que ela disse foi perigoso? Sim. Posições mais sábias prevalecerão? Eu duvido.

Você já deve ter ouvido sobre a Chimérica –um neologismo inventado por Niall Ferguson, o historiador de Harvard, e Moritz Schularick, da Universidade Livre de Berlim, para descrever a suposta fusão entre as economias chinesa e americana. Você também pode ter ouvido falar da Chíndia, inventada por Jairam Ramesh, um político indiano, para descrever o novo gigante asiático composto. Me permita introduzir a “Chermany” (algo como Chinemanha), uma composição das duas maiores exportadoras líquidas do mundo: a China, com um superávit em conta corrente previsto de US$ 291 bilhões (R$ 515 bilhões) neste ano, e a Alemanha, com uma previsão de superávit de US$ 187 bilhões (R$ 330 bilhões).

A China e a Alemanha são, é claro, muito diferentes uma da outra. Mas apesar de todas as suas diferenças, esses países compartilham algumas características: eles são os maiores exportadores de manufaturados, com a China atualmente à frente da Alemanha; eles possuem superávits imensos de poupança acima do investimento; e possuem superávits comerciais imensos.

Ambos os países também acreditam que seus clientes devem continuar comprando, mas deixem de tomar empréstimos de forma irresponsável. Como seus superávits resultam nos déficits dos outros, esta posição é incoerente. Os países com superávit precisam financiar aqueles com déficit. Se a dívida se torna grande demais, os devedores darão calote. Se isso acontecer, as exaltadas “poupanças” dos países com superávit provarão ser ilusórias: as finanças do vendedor se tornam, após o fato, subsídios abertos à exportação.

Eu estou começando a me perguntar se a economia aberta global sobreviverá à crise. A zona do euro já pode estar em perigo. As intervenções da semana passada por Wen Jiabao, o primeiro-ministro da China, e por Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças da Alemanha, ilustram perfeitamente esses riscos.

A base do argumento de Schäuble não envolveu o debate sobre um Fundo Monetário Europeu, que não poderia, mesmo se aceito e implantado, alterar as pressões criadas pelos imensos desequilíbrios macroeconômicos dentro da zona do euro.Suas ideias centrais são: combinar ajuda de emergência para os países com déficits fiscais excessivos com penalidades severas; suspensão dos direitos de votação dos membros que se comportam mal dentro da zona do euro; e permitir a saída de um membro da união monetária, apesar de permanecer dentro da União Europeia. De repente, a zona do euro não é irreversível: assim disse a Alemanha.

Três pontos podem ser extraídos desta mudança de posição do país mais poderoso da Europa: primeiro, ela terá um impacto altamente deflacionário; segundo, é inviável; e, terceiro, ela poderia abrir o caminho para a saída da Alemanha da zona do euro.

Eu expliquei o primeiro ponto na semana passada. Se as coisas ocorrerem como deseja a Alemanha, a segunda maior economia do mundo exerceria um papel negativo na busca por uma saída da recessão global na demanda agregada. A zona do euro não exportaria a demanda que o mundo atualmente precisa. Ela exportaria, sim, excesso de oferta.

Imagine que os países mais fracos da zona do euro fossem forçados a reduzir acentuadamente seus déficits fiscais. Isso certamente enfraqueceria toda a economia da zona do euro. Mas o resultado também seria uma deterioração fiscal na Alemanha e na França. Imagine então a Alemanha tendo que adotar a mesma política desagradável. Ela instruiria a França a fazer o mesmo? Afinal, a França já tem um déficit do governo geral previsto pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em próximo de 9% do produto interno bruto neste ano. Schäuble imagina que a França possa ser multada? Certamente não. Logo, não são as finanças públicas gregas que ameaçam a estabilidade da zona do euro. Elas são uma bagatela. A ameaça são as finanças públicos dos países grandes. Como a Alemanha não pode forçar esses países a se comportarem e não tem chance de expulsar nenhum membro que desaprove da zona do euro, ela mesma teria que sair. Essa é a lógica das ideias de Schäuble. Isto também deve ser óbvio para ele.

A Alemanha está em uma união monetária supostamente irrevogável com alguns de seus principais consumidores. Ela agora deseja que eles deflacionem seu caminho para a prosperidade em um mundo de demanda agregada cronicamente fraca. Wen tem a mesma ideia. Mas a economia que ele deseja que busque esta meta é a americana. Pode sonhar.

Falando no final do Congresso Nacional Popular, Wen declarou: “O que eu não entendo é desvalorizar sua própria moeda e tentar pressionar outros para que a valorizem, visando aumentar as exportações. No meu entender, isso é protecionismo”. Ele também insistiu estar preocupado com a segurança dos investimentos em dólar da China.

Eu me pergunto o que o primeiro-ministro Wen quis dizer com isso, além de dizer aos Estados Unidos para que deixem a política cambial da China em paz? Se o desejo americano de um dólar mais fraco é “protecionismo”, o que dizer da determinação da China em manter sua moeda desvalorizada, haja o que houver? Não há nada evidentemente “protecionista” em pedir a um país com um superávit imenso em conta corrente para reduzi-lo, em um momento de demanda global fraca. Se eu entendi a posição declarada da China corretamente, ela deseja que os Estados Unidos se deflacionem para terem competitividade por meio de contração fiscal e monetária e, presumivelmente, com queda dos preços domésticos. Isso seria temerário para os Estados Unidos. Mas também seria temerário para a China e para o restante do mundo. E também não vai acontecer. A China certamente sabe disso.

Por trás de tudo isso há uma divisão fundamental. Os países com superávit insistem em continuar como antes. Mas eles se recusam a aceitar que sua dependência em superávits de exportação atingirá eles mesmos, assim que seus consumidores quebrarem. De fato, isso é exatamente o que está acontecendo. Por sua vez, os países com imensos déficits externos no passado podem cortar os imensos déficits fiscais, que resultaram da desalavancagem pós-bolha de seus setores privados, apenas por meio de um grande aumento em suas exportações líquidas. Se os países com superávit não compensarem essa mudança, por meio de uma expansão da demanda agregada, o mundo será inevitavelmente pego em uma batalha “empobreça seu vizinho”: todo mundo buscando desesperadamente empurrar seu excesso de oferta aos seus parceiros comerciais. Esse foi um fator importante na catástrofe dos anos 30.

Nesta batalha, os países com superávit dificilmente vencerão. Uma perturbação na zona do euro seria muito ruim para o setor manufatureiro alemão. Os Estados Unidos recorrerem ao protecionismo seria muito ruim para a China. Aqueles que os deuses desejam destruir, eles primeiro os enlouquecem. Não é tarde demais para a busca de soluções cooperativas. Ambos os lados precisam se ajustar. Esqueçam todo o moralismo hipócrita. Que tal experimentar um pouco de simples bom senso.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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