O regime do Irã contém a oposição, mas não consegue eliminá-la

Najmeh Bozorgmehrin

Em Teerã

  • Pietro Masturzo/Divulgação

    Foto mostra mulher protestando em um terraço
    de Teerã após as eleições presidenciais de 2009

O regime do Irã parece ter aprendido como conter protestos de rua

Ao condenar à morte alguns dos partidários da oposição, e aplicando medidas cruéis de segurança diante de qualquer manifestação, as autoridades impediram que seus críticos tomassem as ruas em grandes números, desde o festival de Ashura em dezembro.

O Movimento Verde de oposição se tornou especialista em usar ocasiões oficiais para manifestações. Mas nenhum protesto importante aconteceu durante o festival de terça-feira, antes do Ano Novo iraniano. A oposição não conseguiu organizar grandes comícios no 31º aniversário da Revolução Islâmica, no mês passado.

Em vez disso, os líderes do Movimento Verde mudaram de direção, pedindo publicamente a seus seguidores que parassem com as manifestações em massa, para evitar derramamento de sangue e para obter apoio de outros grupos sociais, em especial as pessoas de renda mais baixa.

Mir Hossein Mousavi, o líder da oposição que concorreu com Mahmoud Ahmadinejad na disputada eleição presidencial do ano passado, disse nesta semana que seus seguidores não deveriam protestar nas ruas.

Alguns de seus partidários radicais haviam pedido abertamente pelo fim da República Islâmica e criticaram o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei. Mas Mousavi tentou contê-los, dizendo que o Movimento Verde respeitaria a constituição existente e seguiria as regras islâmicas, enquanto tentava expandir seu apoio para além das classes médias urbanas, ao incluir professores e trabalhadores.

O sumiço da oposição das ruas veio depois de uma ação disciplinar do Estado em dezembro, que levou à morte de cerca de doze manifestantes e à execução de mais dois. Outros seis estão no corredor da morte.

Mas analistas iranianos e diplomatas ocidentais duvidam que o regime tenha suprimido o desafio da oposição. Um analista apontou que a segurança em cada festival oficial mostra o amplo descontentamento latente: "A própria presença em peso das forças armadas é suficiente para sugerir o quanto o regime está com medo”, disse. Um diplomata sênior ocidental em Teerã acrescenta: “O fato de que a oposição não pode se expressar em uma manifestação não significa que esteja derrotada. É cinza sob fogo”.

Alguns analistas concluem que o Movimento Verde, sem uma organização coerente, chegou a um impasse. Outros acreditam que ele poderia estar esperando por outra chance.

“O regime se sente muito mais seguro e estável desde a manifestação do mês passado [no aniversário da revolução]”, disse um ex-oficial, próximo aos conservadores. “Mas ele ainda tem que lidar com uma crise de legitimidade e continua sendo enormemente vulnerável a futuros protestos políticos, econômicos e sociais”.

Os pedidos para uma mudança de regime e para a queda do aiatolá Khamenei provavelmente acabaram beneficiando o governo. Reformistas admitem que o crescente radicalismo das manifestações ajudou Ahmadinejad a escorar apoio.

Agora, a oposição espera para ver como as pessoas de renda mais baixa reagirão ao plano do governo de cortar subsídios que seguram os preços dos produtos básicos. Isso colocaria em risco muitos empregos e elevaria a inflação, de cerca de 30% para cerca de 50%.

“A oposição está tentando fazer com que as pessoas voltem a concentrar seus ataques sobre o governo, para forçar o aiatolá Khamenei a tirar Ahmadinejad ou a aceitar reformas políticas”, disse o ex-oficial.

Akbar Hashemi Rafsanjani, o ex-presidente que usou sua influência para beneficiar reformistas durante a eleição, tenta mediar.

Recentemente ele deu a entender que o governo de Ahmadinejad poderia ser sacrificado para garantir a sobrevivência da República Islâmica.

Mas não há sinais de que o aiatolá Khamenei esteja disposto a considerar qualquer tipo de acordo com a oposição.

Tradutor: Lana Lim

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