Batalha entre empresas brasileiras pela Cimpor ganha dimensão global no setor de cimento

Ed Hammond e Jonathan Wheatley

  • Jose Manuel Ribeiro/Reuters

    Sacos de cimento em unidade da Cimpor (Cimentos de Portugal) em Souselas, no centro de Portugal

    Sacos de cimento em unidade da Cimpor (Cimentos de Portugal) em Souselas, no centro de Portugal

Enquanto o Brasil se recuperava de seus carnavais no mês passado, um grupo de banqueiros voou para São Paulo para acabar com um dos acordos mais complicados e longos da história da indústria da construção brasileira. 

A briga ainda não resolvida pelo controle da Cimpor, empresa nacional de cimento de Portugal, apontou para a importância crescente do Brasil na luta pelo controle do mercado internacional de cimento. 

No final do ano passado, a CSN, companhia metalúrgica brasileira, ofereceu 3,86 bilhões de euros pela empresa, e foi aí que a luta começou. 

A oferta foi rejeitada, e a Camargo Corrêa e a Votorantim, grandes nomes do cimento brasileiro, entraram na disputa. Agora elas parecem ter impedido as ambições da CSN. 

A demanda pelo cimento no mundo está polarizada, enquanto a atividade de construção nas economias desenvolvidas e emergentes continua a correr em direções opostas. Na Europa, lar de quatro de cinco empresas de cimento globais, a demanda deve cair 28% entre 2007 e 2010, antes de retomar o crescimento levemente em 2012. O consumo nos EUA deve cair 44% entre 2006 e 2010. 

Enquanto isso, uma classe média em rápida expansão em países em desenvolvimento gerou uma demanda por padrões de vida melhores. 

No Brasil, a venda de cimento cresceu de 45 milhões de toneladas em 2007 para 52 milhões de toneladas no ano passado e deve chegar a 55 milhões de toneladas em 2010, movida na maior parte por uma poderosa nova classe média que está reformando suas casas ou construindo novas. 

O Brasil, onde o gasto com infra-estrutura também está subindo, enfrenta a dupla tarefa de hospedar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 –e ambas vão aumentar a demanda por cimento. 

“Depois da China e da Índia, (o Brasil) é o mais importante mercado para as empresas de cimento, especialmente considerando a queda na construção na Europa e EUA”, disse Tobias Woerner, analista de construção da MF Global. 

Ainda assim, pessoas que conhecem o acordo dizem que talvez a Votorantim e a Camargo Corrêa estivessem mais motivadas a impedir o crescimento da CSN do que a conquistar parte do mercado. 

“Os banqueiros advertiram à CSN que ia ficar com o nariz sangrando se continuasse tentando fechar a compra da Cimpor, pois a última coisa que as empresas de cimento no Brasil querem é um novo agente bem capitalizado entrando no mercado”, disse uma pessoa inteirada da situação. 

De fato, a CSN já construiu uma fábrica de cimento ao lado de sua siderúrgica perto do Rio e deve continuar se expandindo. 

“O pior resultado para a Votorantim e a Camargo seria a CSN adquirir 100% da Cimpor, então elas vão se sentar nas reuniões de acionistas como o pior dos inimigos”. 

A CSN inicialmente ofereceu 5,75 euros por ação da Cimpor e, no mês passado, aumentou sua oferta para 6,18 euros. Mas isso foi menos que os 6,50 que a Camargo pagou para conquistar uma participação inicial de 28,6% da Cimpor. A proposta da CSN foi rejeitada pelo conselho da Cimpor, e nenhum dos acionistas aceitou a oferta. 

Também no mês passado, a Votorantim fez uma troca de ativos com o grupo de cimento Frances Lafarge, que detinha 17,3% da Cimpor, e fechou um acordo com o banco de poupança português Caixa Geral de Depósitos por outros 9,6% de participação. 

A Votorantim portanto está com 30,8% de participação e a Camargo com 32,5%. 

A CSN diz que não está mais interessada na Cimpor, mas pessoas do mercado dizem que não se deve descartar a possibilidade de outra oferta. 

Nem a Votorantim nem a Camargo Corrêa quiseram comentar. As empresas enfrentam duas possibilidades: fecharem um acordo em tempo para a reunião de acionistas em abril ou travarem uma batalha pelo controle. 

Pessoas informadas da situação rejeitam a hipótese que as empresas queriam apenas bloquear a CSN. As duas têm equipes dedicadas a análises de potenciais fusões e aquisições. 

As pessoas dizem que o mais interessante na Cimpor são suas atividades fora do Brasil do que o que tem no país. A Votorantim começou a expandir no exterior em 2001 e tem investimentos nos EUA, Canadá e quatro vizinhos do Brasil. A Camargo está presente na Argentina. Para as duas, as operações da Cimpor em 20 países, inclusive em grandes mercados emergentes como China, Índia, Turquia e África do Sul, têm forte apelo. 

Qualquer que seja o resultado final, é improvável que seja o final da busca por exposição neste mercado cada vez mais importante.

Tradutor: Deborah Weinberg

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