Realismo por trás da decisão de ir embora

Richard Waters e David Gelles*

  • Jason Lee/Reuters

    Chineses protestam depois da decisão do Google de fechar seu portal em idioma chinês na frente da sede da empresa em Pequim

    Chineses protestam depois da decisão do Google de fechar seu portal em idioma chinês na frente da sede da empresa em Pequim

As consequências de mais longo prazo para seus negócios, contudo, podem ser menos palatáveis.

Como fica a situação
do Google na China?

Talvez pareça loucura uma das marcas mais famosas se dispor a ser rejeitada pelo país mais populoso do mundo.

Ainda assim, a decisão do Google de confrontar as autoridades chinesas por causa censura reflete uma visão realista sobre suas perspectivas de negócios limitadas no país no curto prazo e pode de fato ter benefícios em outras partes do mundo, de acordo com analistas e outros observadores.

O Google vai manter a estrutura da empresa no continente chinês intacta. Isso inclui duas subsidiárias e uma joint venture, que opera o Google.cn.

O Google vai manter sua equipe de pesquisa de 300 funcionários aproximadamente na China. Alguns dos 300 funcionários de vendas podem perder seu emprego, se a China bloquear o Google.hk.

De acordo com dados do governo chinês, o Google.cn compartilha uma licença de provedor de conteúdo de Internet com um portal de comércio local, Ganji. A licença precisa passar por sua revisão anual.

“As apostas estavam fortemente contra eles”, disse Gene Munster, analista da área de Internet da Piper Jaffrey. Mesmo antes de seu anúncio em janeiro de que ia abandonar a autocensura em seu serviço de busca chinês, o Google teve de aguentar uma série de ataques das autoridades alegando que a empresa não tinha protegido usuários locais da pornografia.

A mensagem não passou despercebida pela sede do Google na Califórnia: as autoridades chinesas não tinham a menor intenção de permitir que a empresa assumisse na China o domínio de mercado que tem em muitos outros países do mundo e preferiu manter a doméstica Baidu como a líder de buscas locais.

“Não estou certo de que tiveram escolha –parece que decidiram deixar a China porque estava se tornando insustentável continuar trabalhando lá”, disse David Rogers, diretor executivo do Centro de Liderança Global da Marcas da Universidade Columbia. “Se não saíssem neste ano, seria no ano que vem, ao verem mais força indo para a Baidu e maior espionagem corporativa.”

Com o mercado chinês de propaganda na internet é estimado em cerca de US$ 1 bilhão (ou R$ 2 bilhões) e a receita do Google no país estimada pela maior parte dos analistas em US$ 250 milhões a US$ 300 milhões, a partida terá pouco impacto imediato em uma empresa que teve como receita no ano passado de mais de US$ 23 bilhões.

Até 2014, contudo, o mercado chinês pode crescer para US$ 15 a US$ 20 bilhões por ano, e o Google poderia esperar –antes do anúncio desta semana- abocanhar US$ 5 ou US$ 6 bilhões destes, de acordo com Marianne Wolk, analista da Susquehanna Financial Group.

A questão se ainda tem uma chance realista de manter uma posição significativa de longo prazo no país deve se tornar mais clara nos próximos dias, quando as autoridades chinesas reagirem ao seu movimento de levar o serviço para longe do alcance dos censores.

Mesmo que a China não adote mais ações contra a empresa, a experiência anterior do Google de administrar um serviço de busca de fora da “Grande Muralha de Fogo” do país não foi animadora.

Entre 2002 e 2006, sua fatia do setor de busca chinês caiu de 24% para 13%, enquanto enfrentava bloqueios esporádicos e até viu parte de seu tráfico desviado para a Baidu. Estimativas sugerem que sua fatia voltou a 20% ou mais desde que instalou servidores no continente para reforçar o serviço Google.cn, mas pode sofrer uma repetição de sua experiência anterior. Outros ramos do Google na China também podem ser atingidos. Cerca de uma dúzia de outras empresas de internet distribuem seus resultados de busca e propaganda, mas algumas dessas vêm se retirando. Ontem, o Tom Online, um portal local, disse que ia deixar o Google, e o Tem Cent, serviço popular de jogos e comunicação, cortou seus laços com a empresa americana no ano passado para lançar seu próprio mecanismo de busca.

Por outro lado, ao se posicionar contra a censura, a empresa pode ter benefícios valiosos fora da China, apesar de serem difíceis de quantificar, de acordo com alguns observadores.

Quando se submeteu à autocensura na China, a empresa sofreu um golpe em sua fama em 2006 e, pela primeira vez, seu lema “não seja mau” foi sujeito a críticas. Agora, com seu movimento contra a censura poderá reforçar parte do idealismo tradicionalmente associado a sua marca e reconquistar a boa vontade de anunciantes e usuários. Um alto executivo de propaganda disse que era improvável que isso fizesse uma diferença mensurável para os anunciantes fora da China.

O posicionamento contra a censura pode ter um impacto mais significativo em suas relações com agências do governo. “Vai ajudar sua imagem aos olhos das agências reguladoras”, acrescentou Rogers. “Pode ser significativo, especialmente quando for mais alvo de fiscalização nos próximos anos.”

*Colaborou Tim Bradshaw

Tradutor: Deborah Weinberg

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