Wolf: como o debate na zona do euro afeta a economia mundial

Martin Wolf

  • THOMAS LOHNES/AFP

    Fachada da sede oficial da União Europeia localizada em Bruxelas, na Bélgica

    Fachada da sede oficial da União Europeia localizada em Bruxelas, na Bélgica

A Alemanha diz “nein”. Esta é a conclusão mais importante a ser extraída do debate sobre a política econômica da zona do euro. O que o governo alemão está dizendo é que a zona do euro deve se transformar em uma Grande Alemanha. Mas essa política teria implicações profundamente negativas para a economia mundial. 

A carta desta semana ao “FT” de Ulrich Wilhelm, o porta-voz do governo alemão, e o artigo da semana passada de meu amigo, Otmar Issing, ex-membro do conselho do Banco Central Europeu, são significativos não apenas pelo que dizem, mas também pelo que não dizem. 

O que eles dizem é que a Alemanha não correrá o risco de minar sua competitividade. O que eles não reconhecem é que a economia mundial tem um ajuste difícil à frente, para o qual a zona do euro e a Alemanha precisam contribuir. 

Em relação ao primeiro, Issing é bem claro: “Após anos de divergência entre o custo do trabalho por unidade e as perdas em competitividade em vários países, a ideia que está ganhando terreno é de que a economia com maior superávit, a Alemanha, deve ajudar por meio da elevação de salários em prol dos países deficitários e da comunidade como um todo”. Pelo contrário, ele insiste, os salários até mesmo na Alemanha ainda estão altos demais, dado o desemprego elevado. 

Eu considero difícil de discordar. Muitos países entraram na união monetária sem reconhecer as implicações para os mercados de trabalho. Em vez das reformas que o ingresso exigia, eles desfrutaram de uma grande festa. A festa acabou. Com os custos do trabalho por unidade na Alemanha estagnados e o euro ainda forte, os custos do trabalho nos países europeus periféricos deve cair acentuadamente. Esses países não têm alternativas dentro da união monetária na qual escolheram ingressar. 

Quanto ao segundo dos dois pontos, Wilhelm oferece um parágrafo perturbador: “A chave para corrigir os desequilíbrios na zona do euro e restaurar a estabilidade fiscal está na elevação da competitividade da Europa como um todo. Quanto mais países com déficits em conta corrente conseguirem aumentar sua competitividade, mais facilidade eles terão para diminuir seus déficits públicos e de comércio exterior. Uma política menos voltada para a estabilidade na Alemanha danificaria a zona do euro como um todo”. 

Eu considero impossível concordar. O que é fascinante a respeito desses comentários é que não há menção à demanda. Wilhelm está convidando todos a se juntarem a um mundo de soma zero de políticas “empobreça seu vizinho”, no qual todos os países tentam tirar participação de mercado dos demais. Em um tempo de fraqueza global, esta é uma recomendação autodestrutiva tanto para a zona do euro quanto para o mundo. 

Mais precisamente, o que a Alemanha quer ver é um corte forte nos déficits fiscais por toda a zona do euro. Com a contração do déficit fiscal e o enfraquecimento da produção, a saída para cada país seria uma queda relativa nos custos do trabalho por unidade e uma maior exportação líquida. Se bem-sucedida, essa política transferiria a fraqueza econômica de cada país para outros países da zona do euro ou, mais provável, para o mundo, via um maior superávit de exportações líquidas da zona do euro. 

Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o déficit fiscal do governo geral na zona do euro será próximo de 7% do produto interno bruto neste ano. Presuma que isso deva ser cortado rapidamente para 3%, enquanto os superávits financeiros do setor privado permanecem próximos de 7% do PIB, como agora está implicitamente previsto. Então a conta corrente na zona do euro precisaria melhorar em cerca de 4% do PIB. Isso seria cerca de US$ 600 bilhões, ou quase 1% do PIB mundial. 

Onde a Alemanha acha que ocorreria a compensação para os maiores déficits externos? Esta política certamente torna inviável o desafio de um ajuste pós-crise para os países com déficit, incluindo os Estados Unidos e o Reino Unido. Uma economia mundial aberta sobreviveria? 

Talvez eu seja pessimista demais a respeito das implicações do arrocho fiscal previsto para a demanda. Talvez em alguns países o aumento da credibilidade da posição fiscal estimule os gastos privados. Mas, no geral, a zona do euro provavelmente experimentaria uma fraqueza renovada da demanda em casa ou exportaria essa fraqueza para o exterior. 

Será que uma política monetária agressiva faria a diferença? O Banco Central Europeu tem sido bem-sucedido em sustentar um rápido crescimento do agregado monetário estreito durante a crise, mais do que, na verdade, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e o Banco da Inglaterra. Mas o crescimento do agregado amplo ruiu. Além disso, a política monetária agressiva fracassou em deter a queda acentuada do PIB nominal, que encolheu em 2% ao ano no quarto trimestre de 2009 dentro da zona do euro. 

Infelizmente, a política monetária parece estar pressionando em uma só direção. Ela deixou os bancos lucrativos e os banqueiros mais ricos, com um benefício modesto para a economia real. É improvável que isso mude tão cedo. 

Uma solução alternativa seria ajudar o mundo a absorver maiores superávits de exportação da zona do euro, Estados Unidos, Japão e Reino Unido. É verdade que nenhuma saída sustentável do atual atoleiro pode ser concebida sem um aumento dos fluxos líquidos de capital para os países emergentes. Também parece evidente que é para aí que os superávits de poupança do mundo irão. Mas levará tempo e muita reforma para que isso aconteça. 

Permita-me deixar claro o que estou dizendo e o que não estou dizendo sobre o papel da Alemanha na zona do euro e da zona do euro no mundo. 

Eu não estou dizendo que a Alemanha tem culpa por produzir produtos manufaturados de primeira qualidade. Isso é um feito admirável. Eu também não estou dizendo que a Alemanha deva tornar seus trabalhadores não competitivos ou aceitar uma maior inflação. 

Eu estou dizendo que os superávits da Alemanha só foram possíveis graças aos déficits dos outros países, e a estabilidade alemã graças à instabilidade dos outros países. Eu estou dizendo que parte das exportações líquidas da Alemanha foi ilusória, paga por tomada excessiva de empréstimos, frequentemente financiados pelos alemães. Eu estou dizendo que para que a periferia da Europa possa melhorar suas contas externas, ou a Alemanha deve compensar parte disso, ou a conta corrente da própria zona do euro deve se deslocar para um superávit, com os impactos adversos sobre uma economia mundial frágil. 

Resumindo, a política econômica envolve mais do que apenas competitividade. Quando o mundo está tentando sair de uma profunda recessão, a demanda também importa. Na condição de quarta maior economia do mundo e coração da zona do euro, a Alemanha tem um papel a exercer no reequilíbrio da demanda global. Eu entendo que seja um desafio difícil. Mas mesmo assim ele precisa ser encarado.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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