Voos baratos atraem número crescente de brasileiros

Jonathan Wheatley e Jeremy Lemer

  • Eduardo Knapp/Folha Imagem

    Aviões na pista do aeroporto de Congonhas, em São Paulo

    Aviões na pista do aeroporto de Congonhas, em São Paulo

A indústria aérea do Brasil está enfrentando o problema de como lidar com uma poderosa classe de consumidores que nunca voou antes.

Essa nova classe de brasileiros colheu os frutos de uma década e meia de estabilidade econômica e, desde 2003, de crescimento econômico estável, interrompido brevemente pela crise mundial.

Nos últimos sete anos, mais de 30 milhões de pessoas entraram no setor da classe média, com rendas familiares entre R$ 1.100 e R$ 4.800 por mês.

As companhias aéreas precisam convencê-las a trocarem o ônibus por um meio de transporte que sempre foi visto como privilégio dos ricos.

Um consumidor que já se convenceu é José dos Santos, que comprou passagens de ida e volta para que ele, sua filha Tátia e seu neto Jonathan pudessem voar de São Paulo para Salvador para visitar parentes, uma viagem de 1.900 quilômetros por estrada.

Eles compraram suas passagens pela Voe Fácil, uma loja aberta em dezembro pela Gol, uma das duas maiores companhias aéreas do Brasil, no Largo 13, um movimentado bairro comercial voltado para a classe baixa e média em São Paulo. A loja – a primeira da Gol – é localizada estrategicamente na rua em frente a bilheterias de empresas de ônibus. Mesmo em uma manhã de quinta-feira, o movimento era grande.

Normalmente, eles iriam de ônibus. Mas o ônibus leva 36 horas para chegar, a uma tarifa de R$ 555 (ida e volta) – alem de no mínimo mais R$ 100 em alimentação e outras despesas, diz Tátia. Ao reservarem suas passagens com antecedência, eles pagaram R$ 360 por adulto e R$ 230 para o garoto Jonathan, de seis anos – e o voo levará somente duas horas.

Constantino de Oliveira Júnior, presidente da Gol, diz que a indústria aérea do Brasil vem crescendo até 3,5 vezes mais rápido do que o PIB no mesmo período. “É difícil ver um fim para esse ciclo”, disse ao “Financial Times” em recente visita a Nova York.

Mas nem sempre cortejar novos clientes é fácil. Para muitos brasileiros, viajar de avião ainda é muito intimidante. Como parte de uma iniciativa para conquistá-los, a equipe da Gol tem andado pelas ruas distribuindo panfletos que explicam as vantagens de se viajar de avião em vez de ônibus, e ensinando aos marinheiros de primeira viagem sobre o processo de compra e uso de uma passagem aérea.

Uma estratégia de marketing mais familiar é o plano de prestações. Na Gol, os passageiros podem pagar por suas passagens em até 36 parcelas mensais. Na TAM, a líder de mercado, eles podem distribuir o custo ao longo de 48 meses. A Gol cobra juros de 6% ao mês; na TAM, o risco de crédito é transferido a taxas similares para o banco com quem tem parceria.

Essas cobranças parecem derrubar a ideia de se voar a um baixo custo. Mas os consumidores não se abalam. Quando compram a crédito, eles costumam olhar somente o tamanho das prestações individuais, em vez do custo total.

Libano Barroso, presidente da TAM, que começou seu plano de prestações em dezembro, diz que esse tipo de venda ainda está para decolar; é muito mais importante o fato de para muitos as viagens aéreas deixaram de ser um luxo e agora são meramente um meio de transporte.

“Faz anos que digo aos porteiros do meu prédio que, quando você viaja mais de 1.000 quilômetros e compra com antecedência, sai tão barato quanto ou mais ir de avião”, ele diz. “Todos os que voaram pela primeira vez deixaram de usar o ônibus”.

Barroso diz que a TAM vem fazendo pesquisas entre as pessoas provenientes da parte mais pobre do Nordeste, que agora vivem no Sul, e que representam uma grande parte do novo mercado de baixo custo.

Enquanto isso, o mercado cresce. Na TAM, o número de passageiros aumentou 30% em janeiro em relação ao mesmo mês no ano passado, embora janeiro de 2009 tenha sido um mês fraco por causa da crise. Neste ano, Barroso espera um crescimento de 12 a 16%.

No entanto, para tarifas baratas os clientes normalmente precisam comprar com muita antecedência. Na TAM, uma passagem só de ida de São Paulo para Salvador pode custar entre R$ 241 e R$ 1.768, dependendo da flexibilidade necessária e da disponibilidade de assentos.

Mas mesmo de última hora os clientes podem dar sorte. No Largo 13, Jefferson Carlos da Silva, um segurança de 48 anos, acaba de comprar uma passagem de ida para o Recife por causa de uma emergência de família. Ele partirá daqui a dois dias, ao preço de R$ 392, mas acredita que fez um negócio melhor do que se tivesse pago R$ 323,50 para ir de ônibus.

“Comparado com dois dias na estrada? Isso é muito melhor”, diz.

Tradutor: Lana Lim

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