Fazendas brasileiras se profissionalizam e alavancam agronegócio do país

Jonathan Wheatley

Luiz Eduardo Magalhães (Brasil)

  • Paulo Whitaker/Reuters

    Plantação de soja em fazenda de Tangará da Serra (MT) recebe aplicação de agrotóxicos

    Plantação de soja em fazenda de Tangará da Serra (MT) recebe aplicação de agrotóxicos

Nos arredores do município de Luiz Eduardo Magalhães na Bahia, é fácil se sentir minúsculo em relação à paisagem.

Plantações de soja, milho e algodão se estendem até o horizonte debaixo de um imenso céu azul, com uma ou outra árvore, silo ou trecho de vegetação do cerrado para dar a sensação de escala.

Caminhões duplos carregados de soja correm pelas rodovias. Longe das estradas principais, é raro ver seres humanos, a não ser dentro das cabines das colheitadeiras ou, no final da tarde, quando o ar fica parado, nas cabines dos aviões de pulverização que voam absurdamente perto do solo.

Esta é a face da mudança no agronegócio brasileiro. Ao longo das duas últimas décadas, o país se transformou numa potência agrícola global. Hoje, é o maior exportador de vários alimentos, incluindo carne, frango, suco de laranja, café verde, açúcar, etanol, tabaco e soja em forma de grãos, óleo, e farelo para ração, além de ser o quarto maior exportador de milho e carne de porco.

Muitos fazendeiros dos arredores de Luiz Eduardo Magalhães vieram do sul do país, onde eles ou suas famílias cultivavam cerca de 40 ou 50 hectares de terra. Aqui, as propriedades costumam ter dezenas e até centenas de milhares de hectares.

Além do tamanho e da tecnologia, os recém-chegados trouxeram um bem que normalmente falta na fronteira agrícola do Brasil: a boa administração.

“O que você pode ver aqui é um novo modelo para o agronegócio no Brasil”, diz André Pessoa, coordenador do Rally da Safra, uma pesquisa anual sobre as regiões produtoras de grãos do Brasil. “Não é comum no Brasil encontrar fazendeiros prestando contas para investidores estrangeiros.”

Estes investidores, diz ele, querem ter 100% de garantia sobre a propriedade da terra. Eles querem ter certeza de que os fazendeiros estão obedecendo as leis ambientais e trabalhistas, que têm boas relações com a comunidade e que procuram se proteger das flutuações dos preços das safras e das taxas de câmbio. “Eles querem transparência e rigor em tudo”, diz ele.

“Isso não faz parte da vida cotidiana do fazendeiro tradicional brasileiro.”

Durante a ditadura militar de meados da década de 60 até meados da década de 80, boa parte da expansão da agricultura foi, no mínimo, desorganizada.

Seguindo a máxima militar do “ocupar para não perder”, os fazendeiros se estabeleceram em trechos da floresta amazônica, sem prestar muita atenção a detalhes como as escrituras das terras.

A pecuária com frequência abriu o caminho para a agricultura, especialmente nos Estados centrais como Mato Grosso até o sul da bacia amazônica. A terra ocupada pelos agricultores do sul antes era considerada inútil para a agricultura por causa de sua acidez alta. Mas o Brasil é abundante em cal; usando isso e outros aditivos, os agricultores transformaram o centro do Brasil numa fronteira agrícola altamente produtiva e em rápida expansão.

O Mato Grosso foi especialmente bem sucedido por causa de suas terras planas, relativamente baratas e das chuvas abundantes. Os fazendeiros lá costumam semear e colher três safras por ano, normalmente revezando a soja, o milho e o algodão.

Mas os fazendeiros do Mato Grosso dizem que enfrentam uma grande desvantagem: a logística. A soja normalmente viaja mais de dois mil quilômetros através de estradas mal pavimentadas até os portos do sudeste do Brasil, reduzindo a competitividade dos fazendeiros.

Mais ao leste de Luiz Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, as coisas são diferentes. As chuvas não são tão abundantes, embora sejam previsíveis.

Os fazendeiros ficam felizes com duas safras ao ano, normalmente revezando entre a soja, o milho e o algodão. Todo o milho produzido aqui é consumido localmente. “Esta é uma região relativamente pobre que está crescendo no ritmo da China”, diz Pessoa.

“Os salários estão subindo, assim como o consumo de alimentos.”

O oeste da Bahia também atraiu o interesse dos investidores estrangeiros. Um deles á a Agrifirma Brazil, um fundo britânico estabelecido em 2008 e apoiado por Lord Rothschild e Jim Slater, antigo especulador corporativo.

A companhia é dona de 42 mil hectares nos arredores de Luiz Eduardo Magalhães, dos quais 11 mil estão sendo cultivados. Seu modelo de negócios envolve levar novas normas de administração para as fazendas já em funcionamento que ela compra, e aplicar essas normas em novas áreas. “O modelo da Agrifirma consiste em cuidar dos três Ps: da produtividade, das pessoas e do planeta”, diz Rodrigo de Araújo Rodrigues, diretor de operações.

“Respeitar o meio ambiente e as pessoas, com um foco na produtividade e na lucratividade, proporciona uma administração muito melhor.”

Na prática, isso significa obedecer estritamente as leis ambientais e trabalhistas e aplicar as melhores práticas de administração no treinamento, métodos de cultivo e finanças. No mês passado, a Agrifirma concluiu uma venda de ações no valor de US$ 25 milhões, aumentando o valor total levantado nos últimos dois anos para US$ 179 milhões. Rodrigues não têm dúvidas de que a administração é uma parte essencial de seu apelo aos investidores.

David Cleary, chefe do programa para preservar o cerrado brasileiro do grupo ambientalista The Nature Conservancy, concorda.

“A Agrifirma é um exemplo clássico do tipo de ação que está mudando o cerrado”, diz ele. “Eles querem fazer a coisa certa e veem a coisa errada como algo arriscado e custoso.” Ele diz que o oeste da Bahia e algumas áreas nos Estados vizinhos de Tocantins, Maranhão e Piauí são um “filé mignon” para os novos investidores.

“São áreas remotas que costumavam ser administradas por fazendeiros das antigas conhecidos por não cumprirem as leis”, diz ele. “Agora eles estão sendo ultrapassados pela globalização e estão percebendo que se quiserem atrair investidores, precisam administrar seriamente.”

Vários outros fundos estão operando no oeste da Bahia ou procurando investir na região. Um deles é o Adecoagro, apoiado por George Soros. O Grupo Iowa e Global Ag Biodiesel, dois fundos apoiados por investidores norte-americanos e brasileiros, também estão envolvidos.

Eles não estão sozinhos na demanda por boa administração. Walter Horita tem 45 mil hectares junto com seus dois irmãos. Seu negócio é administrado como se fosse uma companhia.

“Os fazendeiros daqui querem administrar organizações mais profissionais”, diz ele.

A população de Luiz Eduardo Magalhães triplicou para mais de 50 mil pessoas na última década à medida que o agronegócio chegou à região. Outros municípios nos Estados vizinhos estão nos primeiros estágios de transformações semelhantes.

“Hoje, sem dúvida, a Bahia está numa posição melhor por causa da qualidade da terra e da logística”, diz Rodrigues da Agrifirma. “Mas achamos que outras regiões também têm a capacidae de aplicar o mesmo modelo.”

Tradutor: Eloise De Vylder

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