Vulcão traz catarse para a Islândia após turbulência bancária

Andrew Ward

  • Reuters

    Lava e cinzas explodem fora da caldeira do vulcão islandês Eyjafjallajökull nesta sexta-feira (23)

    Lava e cinzas explodem fora da caldeira do vulcão islandês Eyjafjallajökull nesta sexta-feira (23)

No pé de uma garganta profunda onde montanhas cobertas de neve tombam no Atlântico, a cidade de Vik ocupa uma das localizações mais dramáticas –e perigosas– da Islândia. 

Sua praia de areia preta de basalto vulcânico, vindo do vulcão Katla, testemunha o risco. O Katla é um vizinho maior e mais poderoso do vulcão Eyjafjallajökull, cuja erupção na semana passada imobilizou o setor de aviação da Europa. 

Na condição de um dos vulcões mais ativos da Islândia, uma erupção do Katla já está atrasada, com base em tendências do passado. Alguns geofísicos temem que o Eyjafjallajökull possa ser o gatilho. Toda vez que o Eyjafjallajökull entrou em erupção nos últimos 1.000 anos, o Katla entrou em erupção em seguida. 

Para muitos islandeses, o redespertar das forças subterrâneas sob sua ilha marca um momento de catarse à medida que o país se conforma com a crise bancária de 2008, que deixou sua economia em ruínas. 

Raio-x da Islândia:

  • Nome oficial: República da Islândia

  • Capital: Reykjavík

  • População: 306.694

  • Tipo de governo: República Constitucional

  • Clima: Temperado; moderado pela Corrente do Atlântico Norte, inverno suave, ventoso, úmido, verão fresco

  • Relevo: Maioria de planaltos intercalados com picos de montanhas e campos gelados; litoral profundamente recortado por baías e fiordes

  • Perigos naturais: Terremotos e atividade vulcânica

  • Fonte: CIA Factbook

Após um período em que a Islândia transformou a si mesma no equivalente a um fundo hedge internacional gigante, a erupção vulcânica parece marcar um retorno a uma ordem mais natural para um país de 320 mil habitantes, situado sobre uma das falhas geológicas mais ativas do mundo. “Ela ajudou a restaurar um senso de solidariedade após a interminável autoanálise que ocorreu após a crise”, diz Egill Helgasson, um dos apresentadores de talk show mais conhecidos da Islândia. 

Para o restante do mundo, entretanto, a erupção e a ameaça de outra são um sério lembrete de que não são apenas crises causadas pelo homem que podem ameaçar a economia global. A perturbação custou US$ 1,7 bilhão apenas para o setor de aviação, segundo a Associação Internacional de Transporte Aéreo. 

Olafur Grimsson, o presidente da Islândia, disse nesta semana que “o momento da erupção do Katla está mais próximo”. Os governos europeus e as autoridades de aviação de todo o mundo devem começar a planejar, ele disse para a “BBC”. 

Ele tem sido criticado por instigar o medo, com o setor de turismo preocupado com a possibilidade dos turistas serem dissuadidos a vir por causa de seu alerta apocalíptico. 

Pall Einarsson, um especialista em vulcões da Universidade da Islândia, diz que, apesar do Eyjafjallajökull poder redespertar seu vizinho, não há ligação direta entre os dois e nenhuma indicação de que o Katla está despertando. 

Também há dúvida em relação à escala de uma erupção potencial, com o Katla capaz de tudo, desde uma “catastrófica” até uma relativamente benigna, diz Einarsson. 

Apesar das consequências de uma grande erupção poderem se espalhar muito além da Islândia, os 300 moradores de Vik provavelmente seriam os mais atingidos. 

Se magma começar a fluir por sob a geleira Myrdalsjökull, que cobre o vulcão, a enxurrada de gelo derretido ameaçaria a cidade de destruição. Ivar Pall Bjartmarsson, o chefe dos bombeiros em meio expediente da cidade, está indiferente em relação ao risco. “Nós convivemos com a ameaça durante toda nossa vida, de forma que não temos medo dela”, ele diz. 

A erupção do Eyjafjallajökull é relativamente pequena segundo os padrões da Islândia, mas provou ser perturbadora para o tráfego aéreo devido à composição fina de suas cinzas e de um forte vento ocidental. 

Uma torre de cinza e vapor continua sendo expelida pelo vulcão, mas sua intensidade diminuiu. 

Na sexta-feira, o aeroporto de Reykjavik fechou pela primeira vez desde a erupção, após uma mudança dos ventos, mas grande parte da Islândia permanece não afetada. Apenas um pequeno trecho de terras agrícolas costeiras, ao leste do Eyjafjallajökull, enfrenta danos de longo prazo. 

Não é a primeira vez que a fúria da Islândia é sentida além de suas costas. A erupção do Laki, nos anos 1780, causou perdas de safras agrícolas por toda a Europa. Os historiadores dizem que isso pode ter contribuído para criar as condições políticas que causaram a Revolução Francesa. “Nós nos tornamos peritos em exportar nossas catástrofes”, diz Helgason. 

Em Vik, Bjartmarsson diz que o mundo terá que aprender a conviver com vulcões, assim como sua cidade. 

Parte da vida

Os vulcões fazem parte da vida dos islandeses desde a chegada dos colonos vikings há mais de 1.000 anos. As erupções ocupam um status semelhante na consciência nacional quanto as guerras em outros países, com as crianças aprendendo histórias de terrível sofrimento e sobrevivência heróica diante da fúria da natureza. 

A maior entre elas é a erupção do Laki de 1783-1784, que supostamente matou um quarto da população devido à perda das safras agrícolas. Mais recentemente, a erupção do Eldfell em 1973, na ilha de Heimaey, é glorificada pela evacuação dramática de sua população de 5 mil habitantes por uma pequena frota de barcos de pesca.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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