Almoço com o FT: Ai Weiwei

David Pilling*

A perspectiva de um encontro no almoço com Ai Weiwei, o mais famoso e mais político artista da China, é, francamente, um tanto intimidante. Ai, um homem com uma presença física enorme, foi descrito por entrevistadores anteriores como taciturno, difícil e silencioso. Ele também é conhecido por quebrar coisas e, quando consegue ser persuadido a falar, por atacar as autoridades em Pequim com uma ferocidade raramente manifestada por exilados, muito menos por aqueles que ousam viver dentro da própria China. “Estudo de Perspectiva” (1995-2003), uma série de suas obras, parece capturar seu caráter. Ela mostra fotos de seu braço estendido diante de marcos famosos –a Cidade Proibida, a Torre Eiffel, a Casa Branca– com o dedo médio em riste em desafio.

Para as Olimpíadas de 2008 na China, Ai ajudou o escritório de arquitetura suíço Herzog & de Meuron a projetar o Ninho de Pássaro, um emaranhado de aço e concreto que se transformou no estádio nacional da China. Ele posteriormente atacou os Jogos como ferramenta de propaganda ou “sorriso falso”. Seus choques cada vez mais ferozes com as autoridades chinesas por causa da censura, direitos humanos e acobertamento da corrupção fizeram Pequim fechar seus blogs, revirar seus extratos bancários e invadir suas contas de e-mail (G-mail, é claro). Em Sichuan, em agosto passado, a polícia –irritada pela investigação de Ai das mortes das crianças no terremoto que devastou a província em 2008– invadiu seu quarto de hotel e o espancou. Um mês após o ataque, na Alemanha, ele foi levado às pressas ao hospital para uma cirurgia, depois que os médicos encontraram uma hemorragia em seu cérebro. Hoje, Ai se queixa de perda de memória, apesar de que, com sua ironia tipicamente cáustica, ele dizer que há poucas coisas de que vale a pena lembrar.

Nós nos encontramos em seu hotel em Hong Kong, uma cidade que ele está visitando para preparação de uma exposição em maio com Vito Acconci, um artista americano de instalações. Ai, 53 anos, não difere muito de um grande urso, com a grande barriga, cabelo espetado e barba espessa, um Hagrid chinês. Nós apertamos as mãos e, apesar de sua aparência de guerreiro, a primeira coisa que percebo é sua gentileza. Ele não visitava Hong Kong há cinco anos, então sugeri o local, o Zeffirino, um restaurante italiano próximo. Após certa confusão sobre sua localização –ele pacientemente subiu e desceu comigo por escadas rolantes e caminhou comigo por um corredor sem saída– nós finalmente o descobrimos no 31º andar do Regal Hotel.

Um garçom nos conduz por um carpete púrpura até uma mesa ao lado da janela, com uma vista esplêndida do porto de Hong Kong e dos finos prédios nas encostas. A primeira coisa que Ai faz é tirar fotos com seu celular –aparentemente de forma aleatória, da altura do peito– da paisagem, do arranjo da mesa e, de forma um tanto desconcertante, de mim. “Boa profissão”, ele diz enquanto estudamos o cardápio. “Você pode escrever e comer e beber vinho.” “A sua também não é”, eu digo.

A carreira artística de Ai teve início na obscuridade e no exílio em 1981, quando, ao fugir dos efeitos traumáticos da Revolução Cultural da China, ele chegou a Nova York. Ele viveu lá por 12 anos às margens da cena de arte e, apesar de ter feito amizade com artistas como Allen Ginsberg e trabalhado em suas próprias criações, ele basicamente apenas sobrevivia, ganhando seu sustento como operário de construção, fazendo faxina e trabalhando como babá. Nos anos 90 ele voltou para Pequim para passar o tempo ao lado de seu pai moribundo, Ai Qing, um poeta renomado e por algum tempo associado próximo de Mao Tsé-tung.

Por volta da época da morte de seu pai, em 1996, a carreira de Ai começou a florescer. Ele obteve notoriedade –e uma reputação como a resposta da China a Andy Warhol– por obras como a enervante “Deixando cair um vaso da dinastia Hang” (1995), um tríptico de fotos no qual ele é visto derrubando casualmente um vaso de 2 mil anos, que se despedaça no chão. Em Pequim, ele fundou a comunidade de artistas East Village e em Xangai, em 2000, ele foi co-curador de uma mostra chamada “Fuck Off” (o título chinês era mais brando, “Abordagem Não Cooperativa”) de 46 artistas de vanguarda. Ela incluía uma exposição na qual outro artista, Zhu Yu, era visto comendo o que parecia ser fetos humanos abortados. As autoridades prontamente fecharam a mostra.

Para nosso almoço ele, felizmente, se limitou à sopa de abóbora, risoto e costeleta de cordeiro antes do ponto, apesar dele ter hesitado em pedir o prato principal se eu fosse pedir apenas massa. Eu cedi e pedi sopa, lasanha e perca do mar. Nós pedimos uma taça de Barolo cada. Enquanto ele mergulhava o pão temperado com sal e azeite no molho de pimentão, eu perguntei a respeito do projeto no Para/Site Art Space de Hong Kong, onde ele e Acconci colaborarão. “Eu nunca imaginei que hoje estaria ativo na arte e teria a chance de conhecer Vito”, ele diz sobre sua jornada desde a obscuridade dos bicos em Nova York. “Eu era um jovem recém-chegado da China. Eu estava tentando fazer parte da história da arte, mas naquele momento era impossível.” Sobre a futura colaboração, ele diz: “Nenhum de nós tem qualquer nostalgia do passado, mas estamos prontos para pensar no presente. Isto é o que temos em comum”.

Assim que chega nossa sopa –de uma cor laranja vívida digna de ser espalhada em uma tela– eu pergunto a respeito de sua aversão à nostalgia. Seu pai educado em Paris foi denunciado durante o movimento antidireitista do final dos anos 50, quando Ai tinha apenas 1 ano, e enviado com sua família para um exílio interno na Manchúria e nos desertos de Xinjiang. Durante a Revolução Cultural, o pai de Ai passou anos limpando toaletes como parte da campanha contra os intelectuais burgueses. “É claro, eu tive que ajudar meu pai a queimar todos os livros e destruir todos os artefatos”, ele diz, fazendo uma pausa, com um pedaço de focaccia pairando sobre sua sopa. “Qualquer coisa relacionada à humanidade foi destruída”, ele acrescenta, acentuando a palavra “humanidade”, a qualidade que ele sente que mais falta na China moderna.

Em vez de chafurdar na nostalgia, ele quer saquear o passado e investir no futuro. Falando com entusiasmo sobre o potencial da Internet de conectar as pessoas e desencadear um espírito de investigação, ele diz: “Nós estamos em um novo mundo, e este novo mundo nos oferece a oportunidade de reconectar nosso conhecimento e começar de novo”. Mas, eu pergunto, sua experiência de infância durante a Revolução Cultural não o ensinou a apreciar a história, não borrifá-la de tinta ou cobri-la com um logo da Coca-Cola? (Como artista, ele fez ambas as coisas com vasos Ming.) “Nós estamos aprendendo com o passado”, ele diz enfaticamente. “É preciso conhecê-lo para destruí-lo. Você só consegue destruir algo sendo um especialista naquilo. Uma pessoa comum não consegue destruir uma ponte. Apenas um engenheiro estrutural pode fazer isso.”

Mas até mesmo eu posso quebrar um vaso, eu digo, em referência à sua obra de 1995. “Bem, você nunca quebrou”, ele responde. “As pessoas não conseguem simplesmente soltar suas mãos e deixar a gravidade fazer o trabalho. Eu nunca hesitei.”

Enquanto nossa sopa é removida e o risoto e a lasanha de espinafre tomam seu lugar, eu pergunto como ele descreveria sua arte. Ele chama a si mesmo de “meu próprio ready-made”, uma referência aos objetos encontrados de Marcel Duchamp. Eu entendo que ele quer dizer que seu próprio estilo de vida –seu desafio, suas campanhas– é para ser considerado sua arte. “Essa pergunta quase me deixa sem palavras”, ele responde após mastigar um pouco. “Porque me pergunto: o quanto sei a respeito, apesar de ter sido eu quem a fez? Que parte é consciente? Essa consciência é importante? E que parte surgiu apenas por causa do sentimento do público? Isso é importante?”

Há pouca distinção, ele diz, entre sua arte e sua atividade política. No ano passado, ele cobriu o muro exterior do museu de arte Haus der Kunst em Munique com 9 mil mochilas de criança para lamentar as vítimas do terremoto em Sichuan, muitas esmagadas por salas de aula mal construídas por empreiteiros corruptos. Usando a Internet, Ai mobilizou um exército de investigadores, que descobriram que a maioria das crianças morreu em apenas 20 escolas que ruíram, enquanto outras ficaram em pé. Ele arranjou as mochilas em caracteres chineses formando as palavras de uma mãe enlutada: “Ela viveu feliz por sete anos neste mundo”.

Procurar pelos nomes das vítimas do terremoto em Sichuan, ele diz, foi uma forma de “fazer muitas pessoas na China começarem a entender que tipo de momento e situação elas se encontram. Ele sugere um significado que é muito maior do que o esforço”. Então, em uma comparação ousada com a caligrafia chinesa, ele diz: “Este tipo de gesto é como uma pincelada em um papel em branco”.

Em outubro, ele provavelmente buscará reproduzir esses gestos quando responder a uma encomenda para preencher o Turbine Hall do Tate Modern, seguindo os passos da aranha gigante de Louise Bourgeois e dos escorregadores de Carsten Höller. Ele não está autorizado a dizer como será lá dentro, mas diz que é um sonho trabalhar em um projeto desses no Reino Unido.

Minha lasanha está boa e as pequenas porções –e a conversa intrigante– me deixam feliz por outro prato estar chegando. As costeletas de Ai chegam, cruzadas delicadamente umas sobre as outras e servidas com um molho verde. “Deseja provar uma?” ele diz gentilmente, apontando com seu garfo.

O fato da arte e do ativismo de Ai se misturarem dificulta para as autoridades lidarem com ele. Ele diz que o ataque a ele em Sichuan provavelmente foi resultado da confusão local, não de uma repressão de Pequim. Ele duvida que sua reputação internacional ou o nome de seu pai possam protegê-lo. “Eu não acho que alguém possa me proteger. Não há uma linha traçada”, ele diz, reconhecendo a possibilidade de que possa ficar tentado a pressionar as autoridades além de seu limite. “Você joga como um apostador”, ele diz. “Você pode ter uma sequência de sorte. Você pode pensar: ‘Esta é uma mesa vencedora’. E você pode fantasiar que pode vencer para sempre.”

Ao terminar suas costeletas, eu pergunto sobre a fé dele na Internet. O ativismo “digital” de seus anos do “dedo médio” deram lugar a uma atividade digital de outra espécie, à medida que ele posta freneticamente em blogs e no Twitter. Eu pergunto se a lição da China –onde os censores do Estado ergueram o que é descrito como o “Grande Firewall”, onde o Twitter e o Facebook estão bloqueados, e onde o Google se sentiu obrigado a partir– é a de que a Internet pode ser facilmente neutralizada. Isso não é uma distração como ponto de mobilização? “É verdade. Mas temos que educar toda uma geração de jovens”, ele diz. “Isso é mais importante do que apenas mudar a estrutura (política). Ela organiza e ensina às pessoas como lidar com este tipo de sociedade, a ser responsável, a antecipar.”

Ele está animado com o Twitter, que dá aos que sabem habilmente usá-lo uma brecha no Grande Firewall, “a primeira chance em 1.000 anos de exercer sua liberdade pessoal de expressão”. Também é um formato adequado à natureza comprimida da linguagem chinesa, onde cada ideograma representa um conceito. “Em chinês (em 140 caracteres) é possível seduzir uma garota ou escrever uma Constituição. É possível escrever um romance breve ou contar uma bela história”, ele diz. Um de seus tweets –ele tem 36.320 seguidores em @aiww– diz: “Nenhum esporte ao ar livre pode ser mais elegante do que atirar pedras na autocracia; nenhuma briga pode ser mais empolgante do que aquelas no ciberespaço”.

Ai pede chá, eu peço café. Uma coisa que me chamou a atenção visitando a China, eu digo, é o senso palpável de otimismo. Mas, escutando a Ai, você poderia concluir que há falta de esperança. A realidade é ligeiramente diferente, eu incito gentilmente. “Não é apenas ligeiramente diferente, é muito diferente”, ele reconhece. “A China é um país colorido e há muita liberdade.” Mas a falta de um Judiciário independente e as limitações do Estado à liberdade de expressão são falhas fatais, ele diz. “A China é como um corredor dando um sprint muito veloz, mas ele tem um problema cardíaco.”

Seu chá chega em um bule de prata. Enquanto ele o serve, eu retorno ao assunto do seu pai. Eu fiquei impressionado ao ler que o pai dele se orgulhava de seu trabalho de limpar toaletes. “Eram toaletes públicos quebrados, sujos e estragados”, lembra Ai. “Às vezes ele chegava em casa coberto de excremento. Ele não tinha roupas extras. Mas ele mantinha a calma e dizia: ‘Por 60 anos eu não sabia quem limpava meu toalete’. Isso era bastante convincente para nós.”

Nos anos 40, antes dele ser declarado um direitista, o pai de Ai era próximo de Mao, que escreveu cinco cartas pessoais para ele. Elas eram motivo de grande orgulho para a família. Depois que o pai de Ai caiu em desgraça junto aos comunistas e ocorreu a Revolução Cultural, a Guarda Vermelha confiscou as cartas. Mas seu pai as tinha memorizado. “Uma carta pedia a meu pai que marcasse um horário para conversar sobre cultura e literatura. Outra foi para o envio de um cavalo para buscar meu pai”, ele lembra. Eu posso sentir sua nostalgia. Se Ai tivesse essas cartas agora, ele consideraria destruí-las? Sua resposta me surpreende. “Eles eram figuras políticas, é verdade”, ele diz, “mas aquelas eram cartas pessoais e expressavam sentimentos entre aqueles dois homens”. Elas são pedaços da história que ele deixaria intactos.

*David Pilling é o editor do FT para a Ásia

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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