Para lutar contra o terrorismo, Europa faz vistas grossas a violações aos direitos humanos no norte da África

  • Frank Rumpenhorst/AP

    Homem atravessa uma ponte perto do edifício do Bundesbank, em Frankfurt, iluminado com o símbolo do euro

    Homem atravessa uma ponte perto do edifício do Bundesbank, em Frankfurt, iluminado com o símbolo do euro

As relações entre os governos do Norte da África e os seus vizinhos do outro lado do Mar Mediterrâneo – especialmente a França – são complicadas por um passado colonial, tensões quanto à questão da imigração e disputas territoriais.

Elas seriam ainda mais complicadas se não fossem os esforços bastante bem sucedidos por parte das autoridades argelinas, marroquinas e tunisianas no sentido de conter a ameaça representadas por militantes islamitas.

Mas o preço pago por esse sucesso tem sido o fortalecimento dos regimes autoritários no litoral sul do Mediterrâneo. A Europa parece ter aceitado a péssima situação dos direitos humanos na maior parte do Norte da África como sendo um preço necessário a ser pago pela estabilização naquela sua vizinhança.

Paris fez vistas grossas no ano passado para a falta de pluralismo, liberdade de expressão e eleições justas na Tunísia, que permitiram que o presidente Zine El-Abidine Ben Ali assegurasse para si um quinto mandato consecutivo. Ben Ali é um oponente feroz dos movimentos islamitas no seu país, sejam eles moderados ou extremistas.

Na vizinha Argélia, o Estado foi capaz de esmagar o movimento radical islamita que pegou em armas na década de noventa, depois que o exército cancelou uma eleição a fim de impedir uma vitória islamita.

Anistias sucessivas oferecidas pelo presidente Abdulaziz Bouteflika também contribuíram para reduzir as falanges dos militantes. Cerca de 200 mil pessoas foram mortas na violência política ocorrida na Argélia durante os anos noventa.

A Al-Qaeda no Maghreb Islâmico, ou AQMI, o grupo que atualmente atua no norte da África, é a mais recente reencarnação de uma organização militante oriunda da guerra civil da Argélia. Segundo os analistas, ela se redefiniu como um braço da Al Qaeda em 2007, como forma de sair da situação precária em que se encontrava.

Após vários grandes ataques contra alvos importantes, como o atentado contra o gabinete do primeiro-ministro e instalações da Organização das Nações Unidas (ONU) em Argel, as atividades da AQMI no norte da Argélia reduziram-se a emboscadas esporádicas contra soldados das forças armadas e policiais, bem como a extorsões e sequestros.

A capacidade do grupo de planejar grandes ataques parece ter se desfeito e a organização foi obrigada a transferir a maioria das suas atividades para o Deserto do Saara – destituído de fronteiras –, onde o controle exercido pelo Estado é fraco.

Na semana passada, a AQMI sequestrou um turista francês e o seu motorista argelino em uma área remota do deserto no norte de Níger. O grupo também mantém em cativeiro dois cidadãos espanhóis sequestrados na Mauritânia no ano passado.

Segundo Jean-Louis Bruguière, um ex-investigador de terrorismo da França e atualmente coordenador do programa conjunto dos Estados Unidos e da União Europeia para o combate ao financiamento ao terrorismo, a AQMI continua sendo a maior ameaça à França, que abriga uma grande comunidade argelina.

Membros argelinos da AQMI foram responsabilizados pelos atentados a bomba no metrô de Paris em 1995, um dos primeiros atos de terrorismo islamita cometidos na Europa.

Os atentados a bomba contra trens em Madri também foram atribuídos a terroristas norte-africanos, embora sem envolvimento direto com a Al Qaeda.

“Para a França, o Norte da África e o Deserto do Saara são regiões estrategicamente importantes”, diz Bruguière. “Para nós, a ameaça vem em grande parte dessas regiões”.

“Temos que ser bastante vigilantes devido às células terroristas 'adormecidas' que poderiam ser reativadas no nosso território, mas também nos nossos vizinhos: Bélgica, Alemanha, Itália e, é claro, Espanha”.

Os esforços europeus de contra-terrorismo são fortalecidos pela cooperação na área de inteligência com autoridades no norte da África.

O relacionamento é “bom e confiável”, afirma Bruguière. “E, felizmente, é um relacionamento bastante independente das relações políticas”.

Atualmente os especialistas dizem que a capacidade da AQMI de recrutar indivíduos na Argélia ou entre os admiradores da Al Qaeda na Europa continua limitada porque o grupo ficou desacreditado devido às suas atividades criminosas e ao seu fracasso em tornar-se parte da jihad global.

Jean-Pierre Filiu, professor do Instituto de Estudos Políticos em Paris, diz que medidas de segurança na Europa impediram que a AQMI exportasse a jihad, e que o grupo não foi capaz de unir os militantes norte-africanos em torno da sua bandeira para enviá-los para lutar no Iraque, já que a Al Qaeda naquele país havia já entrado em colapso.

Mas ele continua cauteloso. “Eu creio que a principal ameaça é a Internet”, diz Filiu. “Para a AQMI, lançar um ataque contra a França ou a Espanha é uma questão de vida ou morte. Eles não conseguem fazer tal coisa agora, de forma que atacam a Embaixada da França na Mauritânia ou sequestram turistas. Mas eles seriam extintos, como um grupo, se tudo o que fizessem se limitasse a extorquir pessoas na Argélia ou sequestrar turistas”.

Tradutor: UOL

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