EUA enfrentam o desafio de lidar com imigração ilegal em meio a crescimento do voto latino

Anna Fifield e Matthew Garrahan

  • John Moore/AFP

    Manifestantes do Arizona (EUA) acendem vela durante protesto contra a lei de repressão à imigração aprovada no Estado

    Manifestantes do Arizona (EUA) acendem vela durante protesto contra a lei de repressão à imigração aprovada no Estado

Brandon Hernandez é um típico adolescente americano. Trajando casaco de moletom e tênis, o estudante está diante da Central High School em Phoenix com um amigo, flertando em vão com um grupo de garotas de passagem.

As aulas do dia terminaram e Brandon, que nasceu no Arizona de pais latinos, deveria estar aguardando ansiosamente pelo fim de semana. Mas o jovem de 14 anos está preocupado: a nova lei de imigração do Estado poderá torná-lo um alvo da polícia à procura de imigrantes ilegais, ele diz.

Impacto do censo

Cerca de US$ 400 bilhões estão em jogo dependendo do censo americano deste ano. Este é o valor que será alocado ao longo da próxima década com base nos dados do período dos últimos 10 anos. Há também uma dimensão política: os dados do censo ajudarão a determinar a distribuição das 435 cadeiras do Congresso.

Cerca de 120 milhões de formulários foram enviados para cidadãos e não-cidadãos, com perguntas sobre gênero, etnia e propriedade de imóvel. Perto de 30% da população não enviará o formulário respondido, deixando aos funcionários do censo a tarefa de montar uma campanha de porta em porta.

O presidente receberá os números finais em dezembro; os dados de redistribuição dos distritos eleitorais serão enviados aos Estados até março de 2011.

“Eles não querem latinos aqui”, ele diz sobre os republicanos no Legislativo estadual, que votaram a favor das medidas, que permitirão que policiais parem e detenham pessoas caso haja “suspeita” de estarem ilegalmente nos Estados Unidos. “Nós somos americanos e este país foi construído pela imigração. Mas agora terei que ficar atento o tempo todo.”

A lei do Arizona, aprovada no mês passado, visa coibir a imigração ilegal no Estado. Mas ela tem atraído críticas por todo o país, por causa da preocupação de que possa levar a discriminação racial –visando pessoas apenas devido à sua aparência.

Nem o Arizona é o único. Apesar de sua lei ser a mais dura, Legislativos estaduais por todos os Estados Unidos têm aprovado milhares de leis relacionadas à imigração ao longo da última década.

A imigração é uma questão que afeta quase todos os aspectos da sociedade americana –desde a segurança nacional até impostos, atendimento de saúde e educação. Quase ninguém está feliz com o status quo, desde os produtores rurais em busca de mão-de-obra até os desempregados disputando vagas de trabalho. Mas também é uma das questões mais emocionais e divisoras do país, e uma reforma abrangente tem driblado presidentes –de ambos os partidos– há décadas.

Apesar de tão polarizadora, nenhum partido político pode ignorar o assunto. Na condições de maior minoria étnica do país no momento, a população latina se tornará uma força eleitoral cada vez mais poderosa.

Barack Obama, quando fez campanha à presidência há dois anos, prometeu criar uma rota para que os imigrantes ilegais pudessem obter a cidadania, reprimindo ao mesmo tempo os empregadores que contratam trabalhadores sem documentos. Mas para raiva de muitos dos milhões de latinos que votaram em Obama, seus primeiros 15 meses no poder não produziram quase nenhuma atenção à reforma da imigração.

Até agora. O furor em torno da lei dura do Arizona colocou a reforma da imigração em primeiro plano, injetando novo impulso ao esforço de reforma. Esse impulso ganhou força no fim de semana, em grandes manifestações realizadas em 70 cidades por todo o país, de Phoenix a San Francisco e Nova York. Cerca de 60 mil manifestantes compareceram somente em Los Angeles. Inchadas por cidadãos ultrajados com a lei do Arizona, as multidões do Primeiro de Maio foram as maiores desde 2006, quando centenas de milhares de manifestantes pressionaram o presidente George W. Bush a tratar da reforma da imigração. Seus esforço fracassaram no Congresso.

Por todo o país, manifestantes carregaram cartazes com slogans como “Meu rosto parece ilegal?” e “Não Matem o Sonho Americano”. Em Washington, Luis Gutiérrez, um deputado democrata da Câmara pelo Estado de Illinois, estava entre as 35 pessoas presas diante da Casa Branca por se recusarem a se mover.

Obama, que chamou a lei do Arizona de “equivocada”, reconheceu que os americanos estão frustrados com a fronteira porosa e com o fato do governo federal estar “abdicando de suas responsabilidades” há muito tempo. Mas ele não se ilude com suas chances de aprovar um pacote abrangente de reforma, apesar dos líderes democratas no Senado estarem apresentando um nova proposta.

“É uma questão de vontade política”, disse o presidente aos repórteres na semana passada. “Nós passamos por um ano muito difícil e tenho trabalhado arduamente com o Congresso. De forma que sei que pode não haver apetite no momento para tratar de outro assunto controverso.”

Boicotes e ações na Justiça testam nova lei dura

A aprovação pelo Arizona da lei anti-imigração mais dura do país já foi sentida amplamente por todo o Estado, em meio aos crescentes pedidos para boicote de negócios ali.

Um grupo, Unidos en Arizona, pediu aos dirigentes da primeira divisão do beisebol que transfiram o cobiçado jogo All-Star para outro Estado e também pediu pelo boicote à equipe dos Arizona Diamondbacks. O Birô de Convenções e Visitantes de Scottsdale, nos arredores de Phoenix, informou vários cancelamentos de conferências desde a aprovação da lei no mês passado, com a vizinha Califórnia liderando o esforço de boicote.

Antonio Villaraigosa, o prefeito de Los Angeles, chamou a lei de antipatriótica e inconstitucional. “Nenhuma pessoa deve ser tratada de forma diferente aos olhos da lei”, ele disse, apontando a posição adotada por sua cidade, nos anos 80, contra a África do Sul da época do apartheid.

A lei do Arizona, que permite que os policiais detenham pessoas que considerem suspeitas de serem imigrantes ilegais, só entrará em vigor em julho. A Coalizão Nacional do Clero e Líderes Cristãos Latinos está preparando uma contestação legal da lei e outros farão o mesmo. Os oponentes da legislação alegam que ela provocará discriminação racial e molestamento de latinos que são cidadãos americanos ou estão no país legalmente.

Os defensores da lei negam esta acusação: J.D. Hayworth, o ex-apresentador de rádio que está disputando com o senador John McCain a cadeira republicana no Senado, alegou em uma entrevista para o rádio que o Arizona está sofrendo com o afluxo de imigrantes ilegais da China.

O Arizona tem o hábito de ir contra a corrente. Quando o restante dos Estados Unidos adotou o aniversário de Martin Luther King como feriado nacional em 1991, o Arizona se recusou. Ele acabou cedendo e aprovando o feriado dois anos depois que os outros Estado.

De fato, o assunto não poderia ter despontado em um pior momento para os políticos em Washington. O Capitólio ainda não se recuperou do debate amargo em torno da reforma da saúde, que agravou dramaticamente as divisões partidárias e continua lançando uma sombra sobre questões urgentes, como a reforma da regulamentação do setor financeiro.

E há as eleições de novembro, quando um terço das cadeiras do Senado e todas as 435 cadeiras da Câmara dos Deputados estão em disputa. Apesar da maioria dos analistas achar que os democratas provavelmente manterão suas maiorias, eles deverão perder cadeiras em ambas as casas do Congresso. Os democratas estão ávidos por reforçar seu apoio entre os latinos. Mas apoiar a reforma da imigração será difícil para aqueles dentre eles que enfrentam batalhas pela reeleição em áreas conservadoras, onde muitos eleitores já estão descontentes com o que consideram mudanças onerosas no atendimento de saúde.

Também é uma decisão difícil para os republicanos. Eles também desejam conquistar mais votos latinos, mas precisam atender sua base conservadora, uma consideração que os levou a lutar pela repressão agressiva aos imigrantes ilegais. Esta é uma mudança de ênfase para um partido que se considerava como promotor do crescimento e da mão-de-obra barata. Certamente é uma mudança em relação à posição de Bush, que recebia de braços abertos qualquer um que chegasse aos Estados Unidos, resumida em sua frase: “Raios, se eles atravessarem o Big Bend (vindos do México), nós os queremos”.

Ninguém reflete melhor atualmente a influência conservadora no Partido Republicano do que John McCain, o senador do Arizona que já foi um defensor da reforma da imigração, mas que agora, diante de uma disputa apertada nas eleições primárias, está apoiando a nova lei do Arizona.

Nas últimas duas décadas, os Estados Unidos estão despejando mais e mais recursos para manter a lei na fronteira. Mas não tem sido suficiente. Dezenas de milhares a centenas de milhares de imigrantes ilegais ainda chegam anualmente aos Estados Unidos, em busca de um salário no país mais rico do mundo. É esse fluxo contínuo que tem levado Estados como o Arizona a tratar do assunto com suas próprias mãos.

Duncan Hunter, um congressista republicano pela Califórnia, foi mais além e pediu para que os filhos nascidos nos Estados Unidos dos imigrantes ilegais também sejam deportados. “Nós não estamos sendo malvados”, ele disse para uma multidão de simpatizantes no mês passado. “Nós estamos dizendo que é necessário mais do que apenas atravessar a fronteira para se tornar um cidadão americano.”

A crescente colcha de retalhos de leis estaduais preocupa os defensores da imigração. “Todo mundo está justificadamente frustrado. As pessoas querem uma solução para esse problema e, quando não há solução, elas criam suas próprias, soluções equivocadas como no Arizona”, disse Andres Ramirez, da Rede Nova Democracia liberal. “Nós já tivemos aprovação de medidas menores e de pacotes para controle da fronteira, mas nada disso resolveu o problema”, ele diz. “Nós precisamos de uma reforma abrangente.”

Mas Mark Krikorian, do Centro para Estudos da Imigração, um grupo de Washington que defende maiores restrições à imigração, diz que não há “nenhuma chance” de um projeto de lei desses chegar à mesa do presidente neste ano. “É diferente de 2007, quando tínhamos um presidente republicano e um Congresso democrata, dando cobertura política para os republicanos votarem pela reforma da imigração”, disse Krikorian, se referindo aos esforços de Bush de reformar as leis. “Neste momento é muito difícil para um republicano encontrar essa cobertura.”

Além das considerações políticas, a taxa de desemprego que se mantém elevada é outro obstáculo para o progresso. “Eu não acredito que o momento é o certo, com o desemprego por volta de 10%, para tratar de uma pacote abrangente de imigração”, disse John Cornyn, um senador republicano do Texas, que também tem um problema significativo com os ilegais que atravessam a fronteira sul.

Muito se fala sobre quantos recursos os imigrantes ilegais, que não pagam impostos, drenam da sociedade. Mas um recente estudo de Raul Hinojosa-Ojeda, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, concluiu que uma reforma abrangente da imigração, que inclua um programa de legalização para os imigrantes ilegais e estabeleça uma estrutura para um futuro fluxo de imigrantes, poderia ter um grande impacto positivo na economia americana.

Ele calculou que isso poderia acrescentar 0,84% ao produto interno bruto, traduzindo em um acumulado de US$ 1,5 trilhão ao longo de uma década. Disso, US$ 1,2 trilhão seria na forma de aumento do consumo.

“Fora a questão dos direitos humanos, há um argumento econômico convincente para uma reforma abrangente da imigração”, disse Water Ewing, do Centro de Política de Imigração, um centro de estudos pró-imigração, citando o estudo. “Qual é a alternativa? Vamos deter todo mundo e deportá-los?”

A reforma da imigração pode ser um campo minado político, mas não agir poderia ter graves consequências para os legisladores que esperam ter uma carreira além do próximo mandato. O percentual latino da população subiu de 12% em 2000 para atuais 15%. Em 2050, a expectativa é que alcance 29%, segundo as projeções oficiais. Quando se trata de eleições, os latinos formam um poderoso bloco indefinido. O apoio deles aos republicanos inchou no governo Bush, que conquistou 44% do voto latino em 2004, mas eles apoiaram Obama em peso em 2008, lhe dando 67% de votos.

“É importante tratar da imigração neste ano por causa do voto crucial dos latinos nas próximas eleições”, disse Darrell West, um especialista em imigração da Instituição Brookings, um centro de estudos. “O poder político desse segmento exige que os políticos busquem uma legislação abrangente.”

Os republicanos já aprenderam do modo difícil no passado a lição de alienar minorias. A repressão liderada pelos republicanos aos imigrantes irlandeses e italianos nos anos 20 lhes custou os votos dos católicos romanos por mais de uma geração.

Há um precedente mais recente: a lei anti-imigração apresentada por Pete Wilson, o então governador republicano da Califórnia, em 1994. “Ela ajudou a voltar os latinos contra os republicanos”, disse Maria Teresa Kumar, diretora executiva da Voto Latino, que faz campanha pelos direitos dos imigrantes e promove o registro de eleitores. “Sempre que alguém mencionava os republicanos, eles diziam: ‘O partido que não gosta de nós’.”

De fato, o crescimento da população latina terá um grande impacto no Congresso de 2012. Após a conclusão do censo deste ano, a redistribuição dos distritos eleitorais para refletir as mudanças populacionais provavelmente farão com que Nevada, Utah, Carolina do Sul, Flórida e Geórgia ganhem mais uma cadeira na Câmara dos Deputados, enquanto o Arizona ganhará duas e o Texas quatro.

Nevada, por exemplo, atualmente tem três cadeiras na Câmara e dois senadores, dando ao Estado cinco votos no colégio eleitoral que determina quem ganha a presidência. Após o censo, ele terá seis.

Os Estados que não experimentaram esse crescimento na população latina –incluindo Nova York, Illinois, Iowa, Louisiana e Massachusetts– deverão perder uma cadeira na Câmara cada. “Isso mudará o mapa eleitoral e terá um impacto nas estratégias e forma como os candidatos verão os Estados-chave”, disse Ramirez.

Isso significa que o eleitor latino terá um enorme impacto sobre as abordagens políticas de todos os partidos ao término deste ano. “Como eles são novos no processo político, os latinos estão disponíveis para serem conquistados”, disse Kumar, da Voto Latino. “Há uma oportunidade aqui para ambos os partidos trabalharem ativamente na introdução de uma reforma da imigração –a menos que não queiram ganhar futuras eleições.”

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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