China tenta a acabar com a barreira idiomática dos chineses nativos

Kathrin Hille, em Kuybagh (China)

  • Eugene Hoshiko/AP

    Trabalhador passa diante de cartaz do congresso do Partido Comunista

    Trabalhador passa diante de cartaz do congresso do Partido Comunista

Todos os dias, a caminho da escola, Amargul passa em frente a um grande outdoor. Nele, está escrito: “O chinês é a nossa língua nacional. Aprender o chinês é necessário para tornar a nossa nação forte e o nosso povo rico”.

E ela de fato aprende chinês. No final do ano passado, a escola primária na qual esta garota uigur de 12 anos de idade foi educada na sua língua nativa, um idioma turcomano, foi fechada, e ela foi transferida para uma escola primária integrada chinesa. A mudança ocorrida aqui em Kuybagh, uma cidade-oásis na região mais pobre de Xinjiang, faz parte de uma ofensiva do governo cujo objetivo é atacar às raízes do conflito crônico nesta conturbada região do extremo oeste da china – por meio da educação. Segundo estatísticas oficiais, quase 200 pessoas, em sua maioria chineses da etnia han, foram mortas um ano atrás em manifestações ocorridas em Urumqi, a capital regional. O fato foi o pior episódio de violência étnica da história da República Popular da China.

Os indivíduos que foram presos após a manifestação eram, em sua maioria, migrantes uigures do sul de Xinjiang, uma região na qual o grupo étnico nativo ainda representa mais de 90% da população e que não usufruiu do crescimento de dois dígitos de Xinjiang baseado na extração de petróleo e gás. A economia local baseia-se na agricultura, e é difícil encontrar empregos. Aqueles que deslocam-se para as cidades perdem a corrida pelos empregos existentes para rivais mais bem qualificados vindos de outras regiões.

Os críticos reclamam há muito tempo de que o sistema educacional da região deixa os uigures em desvantagem. “As escolas chinesas de segundo grau são administradas por uns poucos milhares de chineses hans, enquanto que distritos com centenas de milhares de uigures possuem apenas uma escola secundária”, queixa-se Ilham Tohti, um economista da Universidade Minzu, em Pequim, e um dos mais aguerridos defensores dos direitos dos uigures.

Mas como a burocracia governamental de Xinjiang e a economia oficial da região são administradas totalmente no idioma chinês, as autoridades concluíram que os jovens uigures precisam aprender o dialeto chinês mandarim padrão, em vez de receberem uma educação mais profunda e melhor na sua língua nativa.

Xinjiang adotou o chinês como a língua prioritária do sistema escolar em 2001, mas a implementação da medida tem deixado a desejar, especialmente nas áreas mais ao sul.

Após as rebeliões do ano passado, a política de assimilação foi intensificada. Em setembro de 2009, todas as escolas secundárias em vilas e aldeias foram fechadas e aglutinadas em instituições maiores de nível municipal, segundo disseram ao “Financial Times” professores e outros profissionais de ensino do sul de Xinjiang. O novo sistema tem como objetivo expor os alunos bem mais cedo ao mandarim e fazer com que as escolas tenham mais influência dos que as famílias das crianças.

“Os alunos cujas casas são muito distantes permanecem agora na escola”, diz Yan Yongzhen, diretora da escola primária Kuybagh Han. “O objetivo disso é modificar os hábitos das crianças”.

Poskam, o condado do qual Kybagh faz parte, tem uma escola secundária chinesa e outra uigur. As escolas chinesas aqui foram criadas décadas atrás para educar os filhos dos funcionários de uma das refinarias mais antigas de Xinjiang. A escola primária Kuybagh Han foi criada com o mesmo objetivo.

Agora que as reservas do campo petrolífero Poskam estão se exaurindo, a população de etnia han da área está decrescendo, e as crianças uigures estão sendo transferidas para as escolas cujas aulas são em mandarim.

Mas a transição não é fácil. Os professores não são treinados para lidar com turmas de alunos bilíngues. Muitos desses professores são estudantes universitários, já que as escolas primárias nas áreas rurais são os últimos locais para onde os profissionais chineses qualificados desejam ir.

Yan Yongzhen reclama também da barreira idiomática. Yongzhen, que é nativa de Chongqing, na região central da China, não fala uigur, apesar de morar em Xinjiang há 13 ano. “Eu tentei um pouco, mas é muito difícil”, diz ela, com uma risada que denota embaraço.

Os professores uigures são altamente motivados para voltarem para a sua região para trabalhar, mas eles enfrentam um problema diferente.

Na faculdade de pedagogia em Hotan, uma cidade na extremidade sul do Deserto Taklamakan, a maioria dos estudantes vem de Hotan ou das cidades vizinhas. Eles só começaram a aprender mandarim no último ano do curso secundário.

As aulas e os textos na faculdade são todos em mandarim, mas os estudantes que se preparam para os exames finais estão visivelmente em dificuldades. “Nós temos que fazer um esforço enorme”, diz Buzainap, uma estudante de 21 anos de idade. Assim, os especialistas dizem que pode demorar anos para que o sistema escolar seja reconfigurado para o idioma mandarim.

Tradutor: UOL

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