Análise: Dubai volta às raízes

Roula Khalaf e Simeon Kerr

  • Ahmed Jadallah/Reuters

    Dubai inaugura o edifício mais alto do mundo, apesar da crise

    Dubai inaugura o edifício mais alto do mundo, apesar da crise

“A Velha Dubai” evoca a região agitada em torno de Creek, onde começou a tradição comercial do emirado do Golfo, com barcos viajando para comerciar com portos orientais e mercadores barganhando nos bazares.

Mas logo após a crise financeira global ter atingido duramente esta cidade-estado, a velha Dubai passou a representar algo mais profundo – uma nostalgia pelo retorno às raízes, ao comércio básico que transformou o pacato vilarejo pesqueiro numa vibrante cidade portuária.

Localizada estrategicamente entre a África, Oriente Médio e Ásia, Dubai prosperou longamente como um centro comercial. Muitos moradores agora relembram a Dubai que conheceram antes que a cidade se tornasse obcecada com o mercado imobiliário. O desenvolvimento frenético de blocos de apartamentos, shoppings e centros comerciais ofuscou o mundo inteiro – antes de o mercado imobiliário entrar em colapso e, junto com o impacto da turbulência global, deixar o emirado com mais de US$ 110 bilhões em dívida.

O Aeroporto Internacional Al Maktoum parece ser um exemplo de tudo isso. Ele abriu na semana passada com apenas uma pista e um terminal de carga. Um deserto varrido pelo vento se estende em torno do complexo de 140 quilômetros quadrados, salpicado de camelos e indústrias. Semelhante aos empreendimentos portuários dos anos 70, o aeroporto parece uma ambição impossível: dentro de 20 anos ele planeja acrescentar mais quatro pistas e quatro terminais para receber mais passageiros do que os aeroportos de Londres e Atlanta juntos.

Os céticos só precisam olhar para o litoral deserto de Dubai, onde grupos de prédios construídos pela metade parecem monumentos constrangedores da crença equivocada de que o boom imobiliário duraria para sempre. Mesmo assim o aeroporto é um exemplo significativo de Dubai estar voltando para as suas raízes econômicas mais sólidas: o comércio, a aviação, o turismo e a logística – seus motores econômicos antes de começar o romance fracassado com o setor imobiliário em 2003.

Na era da “nova Dubai”, companhias ligadas ao Estado emprestaram muito dinheiro de banqueiros gananciosos, com pouca fiscalização e até mesmo coordenação, à medida que despejavam bilhões de dólares em projetos extravagantes. Foi a desorganização das finanças da cidade-estado que levou a Dubai World, conglomerado apoiado pelo governo que criou as ilhas artificiais em forma de palmeira, ao um pedido urgente de congelamento de US$ 26 bilhões em dívidas em novembro passado.

A atitude preocupou os mercados financeiros e destruiu a reputação de Dubai. Ela afetou o orgulho de um emirado que preza sua autonomia, obrigando-o a recorrer a Abu Dhabi, a capital rica em petróleo dos Emirados Árabes Unidos, para uma ajuda financeira de US$ 10 bilhões – que veio logo aós um empréstimo de US$ 10 bilhões ao banco central.

A queda de Dubai foi tão espetacular quanto sua ascensão. Seu crescimento econômico de dois dígitos foi um símbolo da extravagância do boom do crédito mundial. Dubai era um lugar exuberante capaz de atrair celebridades e se tornar o destino favorito de banqueiros dispostos a lucrar com o boom do petróleo do Oriente Médio. Uma rara história de sucesso árabe, Dubai também oferecia um paraíso onde homens e mulheres jovens e desiludidos com o conflito político podiam encontrar uma vida mais tranquila e próspera.

É claro, Dubai ainda pretende chamar atenção. Mas Ahmad al-Tayer, novo chefe do Centro Financeiro Internacional de Dubai, diz que a filosofia agora “é voltar para nossos negócios essenciais (…) que fazem de Dubai um centro de comércio, re-exportação e serviços”.

O governo está centralizando a tomada de decisões e retomando o poder que estava nas mãos dos vastos impérios empresariais apoiados pelo Estado que passaram a dominar a economia. Novas equipes estão sendo formadas; a autoridade do departamento de auditoria do governo foi fortalecida. Um tecnocrata durão, Mohammed al-Shaibani, chefe do tribunal de decisões, é considerado o poder dominante na cidade, encarregado de arrumar a bagunça financeira.

As antigas famílias que ajudaram o emirado a se tornar um centro comercial regional, mas que foram fechadas pelas empresas ligadas ao Estado no final dos anos 90, também estão retornando.

Uma leva de auxiliares mais jovens nos quais o xeique-governante Mohammed bin Rashid al-Maktoum confiava está agora sendo marginalizada. Alguns caíram de forma dramática e humilhante, o que chocou o emirado. Investigações sobre supostas situações de abuso de poder no passado – consideradas necessárias e justas pelo governo, mas denunciadas como uma caça às bruxas pelos críticos – afetaram dezenas de ex-executivos; alguns foram obrigados a devolverem seus bônus e outros foram presos ou impedidos de deixar o país.

“Quando as coisas vão mal você consolida o poder e tudo se torna muito controlado”, diz um líder empresarial. “A crise expôs o jovem grupo [encarregado] e as facas simplesmente apareceram.”

A velha guarda de Dubai que está de volta está tomando o lugar. Para sua vantagem, os negócios tradicionais estão crescendo novamente à medida que a economia se recupera. O comércio subiu 14% nos primeiros quatro meses de 2010 em relação ao mesmo período do ano passado. A Emirates Airlines, companhia aérea de Dubai, anunciou em março que seus lucros quadruplicaram; a ocupação nos hotéis está novamente acima dos 80%, embora os preços tenham caído.

“No dia-a-dia, as coisas estão de volta ao normal: os shoppings e restaurantes estão movimentados, e as reclamações do ano passado desapareceram”, diz um banqueiro. “Dubai continuará sendo um centro comercial, mas o setor imobiliário e a dívida são problemas grandes que não serão resolvidos tão cedo.”

A Dubai World está chegando a um acordo final com seus credores, um acordo que foi bem recebido. As companhias do governo com uma base financeira sólida ainda são capazes de se financiar. Quando a Autoridade de Água e Eletricidade de Dubai quis levantar US$ 1 bilhão em títulos de cinco anos em abril, ela recebeu ofertas no valor de mais de US$ 11 bilhões. A Emirates Airlines disse no mês passado que iria gastar US$ 11,5 bilhões para comprar 32 aeronaves A380 da Airbus, em um dos maiores acordos da aviação civil de todos os tempos, e espera pagar sua compra com o crescimento de sua renda.

Mas durante os próximos três anos, as companhias apoiadas pelo Estado de Dubai terão de pagar dívidas anuais de US$ 15 bilhões a US$ 20 bilhões. Os analistas dizem que a capacidade limitada de financiar sugere novas restruturações das dívidas, prejudicando os credores nacionais e internacionais.

O governo está relutante em vender títulos antes de uma recuperação mais sólida. O mercado imobiliário deve ficar em depressão por vários anos, e já caiu 50% desde 2008. A ajuda de Abu Dhabi será caso a caso e não chegará como um cheque em branco.

O governo deve voltar sua atenção para a Dubai Holding, um conglomerado do governante do país, que tem cerca de US$ 12 bilhões em dívidas. Suas companhias de investimento, dizem os analistas, podem receber apoio do governo e já estão conversando com os bancos para renegociar a dívida.

As pressões do débito pesarão sobre os bancos do emirado, asfixiando novos empréstimos. Os empréstimos nos Emirados Árabes Unidos cresceram 0,5% nos primeiros quatro meses deste ano e a liquidez ainda é escassa. “As pessoa perderam dinheiro no mercado imobiliário e nos mercados de ações e os bancos não estão emprestando, então quem irá apoiar o crescimento da economia?”, pergunta o chefe de um banco de investimentos.

Mas apesar do golpe que a cidade sofreu, seu centro financeiro não passou por um êxodo de instituições estrangeiras. A moderação dos custos de aluguel e escritórios, o estilo de vida mais liberal e o regime livre de impostos ainda podem atrair novas instituições. Além disso, diferente do resto do mundo, Dubai não teve que lidar com o aumento do desemprego. Com a população nacional do emirado representando no máximo 10% dos mais de 1,5 milhões de habitantes de Dubai, os expatriados arcaram com o maior peso da perda de empregos e tiveram de deixar o país. Fazer parte de uma federação rica em petróleo também ajuda – principalmente no setor bancário, uma vez que o banco central dos Emirados Árabes Unidos deve apoiar as instituições domésticas com problemas.

Num relatório recente, o Citigroup disse que há “motivos fortes” para o otimismo em relação a Dubai. Farouk Soussa, economista do grupo, diz que depois de ter feito investimentos iniciais pesados e concluído projetos grandes de infraestrutura, a necessidade de capital ficará limitada nos próximos anos. Embora a dívida vá arrastar o crescimento, a economia real ficará protegida “porque é impulsionada principalmente por fatores externos – pessoas que chegam porque é um bom lugar para se estabelecer – e pelo excesso de infraestrutura.”

Pode ser o caso. Mas as empresas ainda precisam ter garantias de um plano a longo prazo para lidar com a pilha de dívidas sem uma abordagem mais agressiva para vender ou listar títulos. Embora impostos escondidos como o dos pedágios tenham aumentado, as autoridades temem que qualquer atitude em direção a uma cobrança formal – Dubai não tem imposto sobre renda ou vendas – espante os investidores e expatriados. Os empresários também se perguntam se a falta de transparência que levou Dubai à crise está de fato sendo combatida.

No DIFC, al-Tayer diz que há um novo foco na governança corporativa. Não há muitas dúvidas de que o governo está mais no controle das finanças de Dubai, implementando controles para evitar conflitos de interesse e abusos. Abu Dhabi também está observando mais de perto os livros de caixa de seu vizinho, e seus oficiais estão trabalhando no departamento financeiro de Dubai.

Pessoas que estão a par das investigações afirmam que elas não são transparentes e podem ser contraproducentes. Elas dizem que as investigações fazem parte de uma consolidação do poder que espalhou o temor nas empresas apoiadas pelo governo e paralisou a tomada de decisões. Alguns veem as investigações como uma manobra para afastar as críticas contra o xeique Mohammed, que encorajou seus subordinados a construírem mais rápido e projetos maiores. Outros dizem que o governante está desiludido com sua equipe, e nunca tinha imaginado que a liberdade concedida a seus funcionários seria tão mal usada. “Eles desapontaram o xeique: ele os havia chamado de leões de Dubai, que governariam o emirado depois que ele se fosse”, diz um analista político.

Quaisquer que sejam os motivos da campanha, as empresas parecem ansiosas para que ela termine. “É bom encontrar os responsáveis e é preciso enviar essa mensagem”, diz um analista financeiro. “A questão é onde é que isso termina? Se toda vez que você faz um investimento há alguém investigando, você não fará mais.” Um ex-funcionário diz que a fase pela qual Dubai está passando é dolorosa. “Mas é uma fase. O governante está deixando isso acontecer para depois ir em frente.”


Sete emirados, uma federação

Dubai é uma das sete cidades-estado dos Emirados Árabes Unidos. Mais de 90% da riqueza de petróleo da federação estão concentrada em Abu Dhabi, capital dos EAU e o emirado que fornece a maior fatia do orçamento federal. O vizinho Dubai costumava ser tradicionalmente o centro de negócios e comércio da federação. Com suas reservas de petróleo diminuindo, Dubai foi obrigado a diversificar sua base econômica para dar continuidade a suas ambições. Mais recentemente Abu Dhabi também adotou uma abordagem similar, esperando criar novas fontes de renda à medida que se preparar para o dia em que seu petróleo também acabar.


Restruturação corporativa

“O sol nunca se põe na Dubai World.” No seu auge, o grupo de logística e empreendimentos imobiliários fez alguns avanços com um slogan publicitário que expressava a autoconfiança e as ambições globais do conglomerado que era o símbolo mais visível do emirado que crescia mais rápido no Golfo, escreveu Simeon Kerr.

Mas em 25 de novembro de 2009, parecia que as luzes estavam prestes a se apagar.

Depois de meses de garantias de que a Dubai World conseguiria pagar suas dívidas, o governo de Dubai enviou uma nota de emergência que afirmada que o grupo pediria o congelamento de uma dívida de cerca de US$ 26 bilhões.

Duas semanas depois, a vizinha Abu Dhabi ofereceu US$ 10 bilhões em ajuda, pagando US$ 4 bilhões em sukuk – títulos islâmicos – da dívida da Nakheel, a unidade de desenvolvimento imobiliário da DW, uma vez que a capital dos EAU estava preocupada com o impacto da inadimplência. O restante foi para um fundo para apoiar a recapitalização do grupo apoiada pelo governo.

Sete meses mais tarde, a estatal Dw está perto de fechar uma acordo para renegociar US$ 23,5 bilhões em dívidas. Ela acredita que pode atingir um marco de dois terços da dívida trazendo para seu quadro outros dez bancos, permitindo engajar qualquer credor recalcitrante através de um tribunal especial no emirado.

Isso colocaria um limite para seus problemas de solvência. Mas outras entidades apoiadas pelo Estado estão sob observação – principalmente os US$ 12 bilhões em dívidas da Dubai Holding, um conglomerado que pertence ao xeique Mohammad bin Rashid al-Maktoum. Enquanto isso, o governo está tentando levantar dinheiro para cobrir sua própria pilha de dívidas de US$ 110 bilhões. Ele planeja injetar US$ 9,5 bilhões na DW, incluindo US$ 8 bilhões para a Nakheel para começar alguns projetos, enquanto posterga outros. Empreiteiros da Nakheel estão perto de concordar em uma proposta que pagaria 40% de bilhões de dólares em notas não pagas, e o restante seria coberto por um sukuk que pagaria 10% ao ano.

O investimento da DW no Las Vegas' City Centre e MGM foi talvez o maior desafio à medida que a crise financeira varreu bilhões do preço das ações da MGM. Bancos que estavam rolando empréstimos pararam. Mas a complexidade de desenrolar uma miríade de companhias que estão sob o guarda-chuva da DW aumentou com o fato de a severidade do problema ter sido ofuscada.

A DW está agora sob controle do governo central e está sendo restruturada por Aiden Birkett, parceiro da contabilidade Deloitte. Um novo comitê executivo foi apontado, junto com um conselho mais forte. O grupo tentará levantar dinheiro através da venda de bens – como o navio de cruzeiro QEII atualmente ancorado no Porto Rashid em Dubai – para pagar os bancos dentro de cinco a oito anos. “Cinco anos é muito tempo”, diz um oficial.

Para uma companhia que já serviu como símbolo da entrada de Dubai no cenário mundial, a venda forçada de bens de luxo pode doer – mas o foco na economia doméstica é inevitável agora.

Tradutor: Eloise De Vylder

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