Comerciantes de Teerã exploram a importância simbólica da greve contra imposto

Najmeh Bozorgmehr

Teerã (Irã)

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Nas ruas abobadadas do Bazar de Teerã, os mercadores iranianos estão ociosos ao lado de lojas fechadas. Eles estão realizando uma das maiores greves desde a Revolução Islâmica, em protesto contra a decisão do governo de aumentar o imposto sobre as vendas.

O bazar não conta com o mesmo poder que tinha em 1979, quando foi uma das principais forças por trás da queda do xá Mohammad Reza Pahlevi.

Mas ele ainda tem uma influência política e econômica significativa, o suficiente para fazer o governo recuar de decisões que não favorecem seus interesses.

“O fato é que não faz uma grande diferença para nós abrir ou fechar nossas lojas, porque a economia está estagnada”, disse um vendedor de tapetes.

Joalheiros, vendedores de tapetes e de tecidos –as principais figuras na política do bazar– fecharam as portas em protesto pelo que dizem ser um aumento de pelo menos 25% no imposto sobre as vendas. Os comerciantes de utensílios domésticos, roupas e acessórios, que têm menos influência, optaram por permanecer abertos.

A greve se espalhou de Teerã para a cidade de Tabriz, no nordeste. Essa tática funcionou no passado: há dois anos, o presidente Mahmoud Ahmadinejad recuou de um aumento proposto no imposto de valor agregado, após o fechamento dos bazares de Teerã e de outras grandes cidades.

“Nós temos que dar uma boa lição no governo desta vez, para ele não ousar aumentar o imposto da noite para o dia sem levar em consideração o fato de que nossas vendas continuam caindo”, disse outro vendedor de tapetes.

O sindicato dos comerciantes, que está negociando com o governo, afixou declarações nas ruas do bazar explicando que o imposto sobre as vendas subiu apenas 15%. Mas os comerciantes acusam o governo de manipular os números, apontando para um aumento anterior de pelo menos 10%, elevando o aumento total para 25%.

O governo foi forçado a tomar essa medida por causa da queda na receita. Ali Asgari, o chefe da Organização da Receita, disse que apenas 77% da receita tributária prevista no orçamento do ano passado foi atingida.

Ele acrescentou que o governo quer aumentar a parcela de sua renda oriunda dos impostos neste ano, para reduzir sua dependência da receita do petróleo, e a única forma de conseguir isso é aumentando o fardo sobre os comerciantes.

Os comerciantes do bazar não gostam de Ahmadinejad, cuja política econômica central tem sido transferir diretamente a receita do petróleo aos pobres, contornando os comerciantes.

Enquanto isso, os comerciantes tradicionais têm perdido terreno para poderes econômicos emergentes, como a Guarda Revolucionária, cujas empresas afiliadas foram autorizadas a assumir o controle de uma parcela cada vez maior da economia.

“Quando o governo estava abrindo fundos anti-imperialismo na Nicarágua e na Venezuela com nosso dinheiro do petróleo, ele deveria ter pensado em tempos ruins como estes, quando os preços do petróleo estão em queda e ele enfrenta déficit orçamentário”, disse um joalheiro. “Por que eu devo pagar por essas políticas?”

O que preocupa o regime é a importância simbólica da greve. A greve do bazar faz muitos iranianos recordarem de como os comerciantes ajudaram a derrubar o xá com protestos semelhantes.

Isso ocorre em um momento sensível, quando o Movimento Verde de oposição espera que os problemas econômicos do Irã cedo ou tarde causarão uma maior dissensão pública. Até esta greve, as autoridades tiveram sucesso em esmagar qualquer sinal aberto de descontentamento.

Alguns comerciantes esperam que o governo desista de suas exigências. “O regime deve enviar seus agentes de segurança para nos espancar ou anunciar que o imposto permanecerá como era para reabrirmos nossa lojas. Não há outro caminho”, disse um comerciante.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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