Apesar de vazamento nos EUA, BP planeja iniciar prospecção em águas profundas na Líbia

Guy Dinmore e Eleonora de Sabata

Em Roma (Itália)

  • Peter Andrew Bosch/AP

    Fotografia aérea mostra trabalhos das equipes de limpeza da BP no golfo do México

    Fotografia aérea mostra trabalhos das equipes de limpeza da BP no golfo do México

A British Petroleum (BP) começará daqui semanas a perfurar em águas profundas, além da costa da Líbia, apesar das preocupações em torno do retrospecto ambiental e de segurança do grupo britânico após o desastre de vazamento de petróleo no Golfo do México.

Cresce o escrutínio da aquisição pela BP de direitos a um grande campo de petróleo e gás além da costa africana há três anos, um assunto que ofuscou a visita de David Cameron, o primeiro-ministro britânico, a Washington nesta semana.

A 1.700 metros abaixo do nível do mar no Golfo de Sirte, na Líbia, o poço exploratório será 200 metros mais profundo do que o poço Macondo no Golfo do México, que provocou o pior desastre de vazamento de petróleo em alto-mar dos Estados Unidos, quando a plataforma Deepwater Horizon explodiu em 20 de abril, matando 11 pessoas.

“A perfuração iniciará em semanas”, confirmou a BP.

Tony Hayward, o presidente-executivo da BP, assinou um acordo de exploração de US$ 900 milhões com a Líbia em 2007, o chamando de o maior acordo individual da BP. A empresa revelou desde então que fez lobby junto ao governo britânico naquele ano, em prol de um acordo de transferência de prisioneiros entre o Reino Unido e a Líbia.

Hayward está considerando um pedido para aparecer perante o comitê de relações exteriores do Senado americano na quinta-feira, para responder perguntas sobre a soltura de Abdel Basset al Megrahi, o responsável pelo atentado a bomba de Lockerbie, libertado no ano passado pelas autoridades escocesas por motivos humanitários.

A BP disse que “não esteve envolvida em qualquer discussão com o governo britânico ou com o governo escocês a respeito da soltura de Al Megrahi”.

O local onde a BP perfurará seu primeiro poço exploratório fica dentro da “Linha da Morte” proclamada por Muammar Gaddafi nos anos 80, quando reivindicou os direitos totais da Líbia sobre o Golfo de Sirte. É a área para a qual, em 1986, Ronald Reagan, o então presidente dos Estados Unidos, enviou forças navais para desafiar as reivindicações do líder líbio, afundando dois navios da Líbia e matando mais de 30 líbios.

Nenhum governo contestou os direitos minerais da Líbia na área, do tamanho da Bélgica, que a BP está explorando, mas ambientalistas estão consternados pela perfuração ter início antes da conclusão das investigações do desastre da empresa no Golfo do México.

A BP disse que procederá com “grande cautela”, acrescentando que fará uso das lições aprendidas com as investigações da Deepwater Horizon em todas as suas operações em alto-mar.

A imposição por Barack Obama de uma moratória na prospecção em águas profundas no Golfo do México aumentou a importância de nova exploração no Mediterrâneo.

A Diamond Offshore, uma perfuradora americana em águas profundas, está deslocando uma plataforma do Golfo do México para o Egito, enquanto a APX da Austrália começou a perfurar na semana passada, entre a Tunísia e a Itália. A Shell planeja começar a explorar em breve, além da costa oeste da Sicília.

A Itália acelerou seus procedimentos e concedeu 21 novas licenças de exploração. Novos limites impostos à prospecção próxima da costa, em resposta ao vazamento no Golfo do México, se aplicarão apenas a futuras operações e pouco afetam as áreas mais promissoras além da costa da Sicília.

Com governos sem dinheiro cortejando o fundo soberano alimentado pelo petróleo da Líbia, países como Itália, Grécia e Malta –todos dentro de um raio de 500 km do Golfo de Sirte– evitaram comentar os planos da Líbia.

Mas ambientalistas e políticos expressaram preocupações. Uma proposta de Günther Oettinger, o comissário europeu de energia, de uma moratória na prospecção em águas profundas nas águas da União Europeia, não obteve resposta dos países mediterrâneos.

“Você não para de voar por causa de um acidente aéreo”, disse Shokri Ghanem, o presidente da empresa estatal de petróleo da Líbia.

Antonio D’Alì, presidente da comissão ambiental do Senado italiano, disse estar “muito preocupado” com os planos da BP. Ele pediu por uma abordagem unida por parte dos governos, não decisões baseadas em interesses nacionais.

“O problema não é a BP ou a Líbia. O mar não tem fronteiras e quando acidentes acontecem, em águas nacionais ou internacionais, os efeitos são sentidos em todo o Mediterrâneo”, disse D’Ali.

“Considerando que ele é um dos mares mais poluídos de petróleo do mundo, o impacto de um grande vazamento de petróleo poderia ser irreversível.”

O Golfo de Sirte é área de reprodução do ameaçado atum-rabilho, enquanto as raras tartarugas-comuns fazem ninhos nas costas da Líbia. Mas um desastre poderia ter um impacto muito mais amplo.

Nadia Pinardi, da Rede de Oceanografia Operacional Mediterrânea, disse: “Grande parte do efeito seria sentido nas profundezas ao redor do golfo à medida que, com o tempo, o petróleo se transforma em bolas de alcatrão e afundam. Mas as correntes na área são muito complexas”.

As águas fluem principalmente para o leste, na direção do Egito, mas os ventos e remoinhos poderiam levar a mancha de óleo para o norte, para importantes áreas de pesca de anchova, atum e peixe-espada.

Ezio Amato, ex-presidente da unidade de resposta a poluição por petróleo da Organização Marítima Internacional, disse que o Mediterrâneo já sofreu o equivalente a um desastre da Deepwater Horizon por ano, decorrente de milhares de pequenos vazamentos.

Mais de 1 milhão de toneladas de petróleo são transportadas diariamente pelo mar, um quarto do tráfego de transporte de petróleo do mundo. Descargas são ilegais, mas uma corrente de petróleo e derivados de petróleo –estimada em 150 mil a 600 mil toneladas por ano– escapa dos navios, refinarias, portos e oleodutos para o mar.

Uma área rica em biodiversidade marinha, o Mediterrâneo é extremamente sensível à poluição. Quase um lago, suas águas levam até 90 anos para se misturarem ao Atlântico pelo Estreito de Gibraltar.

Os efeitos da poluição por petróleo são sentidos em toda a cadeia alimentar. Baleias e golfinhos apresentavam altas concentrações de compostos derivados de petróleo em sua gordura dois anos após a explosão do petroleiro Haven, além da costa da Itália em 1991, despejando 140 mil toneladas de petróleo. Peixes pegos próximos do naufrágio, uma década depois, apresentavam um número significativo de tumores no fígado.

O poço mais profundo no Mediterrâneo, a 2.400 metros, se encontra em águas egípcias. Seu Ministério do Petróleo está sob ataque por ter revelado um vazamento de uma plataforma, que poluiu 160 quilômetros da costa do Mar Vermelho no mês passado, apenas após a informação ter chegado à mídia.

Apesar da Líbia não ser conhecida por sua liberdade de imprensa, o retrospecto de transparência da BP tem sido atacado nos Estados Unidos. O deputado Ed Markey disse que não se pode confiar na BP e que ela “perdeu toda sua credibilidade”.

No caso de um desastre além da costa da Líbia, a BP disse contar com “planos de contingência detalhados e múltipla resposta preparada”.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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