A ascensão de um novo centro na China

  • Reuters

    Operário trabalha em uma fábrica de aço e ferro de Hefei, na China

    Operário trabalha em uma fábrica de aço e ferro de Hefei, na China

À medida que a indústria se desloca da costa urbanizada da China para o interior do país, atraída pela melhora da infraestrutura e pela mão-de-obra mais barata, ela fornece um estímulo para uma economia que enfrenta ventos contrários vindos de outros lugares, como escreve Geoff Dyer.

Quase todas as cidades chinesas têm um parque industrial ou dois, mas poucos têm um nome tão atraente quanto a zona industrial Big Peach Flower (grande flor de pessegueiro), em Hefei. E menos ainda estão crescendo tão rapidamente. A Gree, a maior fabricante de aparelhos de ar condicionado do país, abriu uma fábrica há menos de dois anos, que já emprega 10 mil pessoas. Ao lado, a Midea, outra fabricante de aparelhos de ar condicionado, também tem uma grande fábrica.

O que é mais notável a respeito dessas novas fábricas é a sua localização. Hefei é a capital da província de Anhui, um interior rural atrasado a 400 quilômetros de Xangai, cujo principal papel no boom das últimas três décadas foi fornecer mão-de-obra para as
cidades industriais na costa sul e costa leste. Mas agora o mundo industrial moderno da região costeira está vindo para o interior, para Anhui.

Este deslocamento para o interior poderá ser vital para as perspectivas econômicas da China nos próximos anos. Em um momento de incerteza a respeito da capacidade do país de manter o crescimento elevado, o desenvolvimento acelerado do centro do país está
fornecendo um estímulo importante.

Após uma recuperação impressionante da crise global, a China está se deparando com novos ventos contrários. O governo está reduzindo seu imenso estímulo monetário, levando a uma desaceleração no crescimento. Enquanto isso, não se pode mais contar com um aumento da demanda dos consumidores americanos e europeus para alimentar a exportação. O aumento da demanda doméstica agora é mais importante do que nunca, dados os crescentes sinais de que a recuperação no restante do mundo está balançando. Mas são muitas as dúvidas a respeito de onde viria qualquer novo crescimento.

Para responder a essa pergunta, ajuda pensar em termos de geografia econômica. O país pode ser dividido aproximadamente em três zonas. Há o cinturão costeiro industrializado e próspero de Pequim, no norte, passando por Xangai, no leste, até Guangdong, no sul. Então, até o extremo oeste, há uma vasta extensão que tem recebido fortes investimentos públicos, mas continua relativamente pobre e subdesenvolvida, apesar de alguns poucos bolsões de prosperidade.

É a terceira região – o centro – que está fornecendo o novo estímulo à economia. Em províncias como Anhui, Hunan e Jiangxi, cidades antes fora de moda estão entrando em uma fase de “decolagem industrial”. Uma combinação de aumento dos custos e salários
na costa, melhor infraestrutura ferroviária e rodoviária, assim como gastos de estímulo, está incentivando as empresas chinesas a se juntaram a uma corrida que começou de modo muito tímido há uma década. Hefei é um dos exemplos mais marcantes.

”Este é um processo cujo tempo chegou”, diz Paul Cavey, da Macquarie Securities. “A possibilidade de que a região central da China possa pegar o bastão de desenvolvimento das províncias maduras do leste é claramente uma boa notícia para o crescimento nacional.”

O boom em Anhui e em outras partes do centro é o resultado de uma combinação de um puxão pelo governo e de um empurrão do mercado. Os gastos públicos em infraestrutura de transporte transformou o senso de distância em locais que costumavam parecer muito mais isolados da costa.

Anhui, por exemplo, será uma das maiores beneficiadas pelo investimento pesado em ferrovias de alta velocidade, incluindo a linha norte-sul, que ligará Xangai e Pequim, e a linha leste-oeste, de Xangai a Chengdu. A viagem de trem de Hefei até Xangai costumava levar oito horas. Ela agora pode ser feita em três horas e meia.

Ha Jiming, um economista da China International Capital Corporation, aponta que o investimento do Japão na rede ferroviária de alta velocidade Shinkansen, nos anos 60 e 70, ajudou a redesenhar o mapa econômico do país, reduzindo a domínio de Tóquio e Osaka, e permitindo que locais como Nagoya e Fukuoka despontassem como centros industriais. As novas linhas de transporte ferroviário contribuirão para que o “centro da China alcance as áreas mais desenvolvidas”, ele diz. “Isso está criando um ciclo virtuoso. O deslocamento de empresas cria novas oportunidades de emprego e isso também encorajará um aumento do consumo.”

Mas não são apenas os planejadores do governo que estão abrindo as cidades na zona central –são também as forças de mercado. A zona costeira sul, em particular, foi atingida nos últimos meses por uma onda de greves de trabalhadores pedindo salários mais altos, e muitas empresas começaram a questionar da competitividade de produzir na região. Um punhado decidiu que a resposta é se mudar para o Vietnã, por exemplo, ou Bangladesh. Muitas, porém, optaram por se mudar para o interior.

Há uma década, Anhui praticamente não recebia nenhum investimento direto de outras províncias. A partir de 2006, porém, o montante quase dobrou a cada ano e, de acordo com o governo provincial, chegou 464 bilhões de yuans (US$ 69 bilhões) no ano passado – uma soma imensa para uma província pobre, relativamente pequena. Juntamente com uma melhor logística, a mão-de-obra mais barata está entre os principais atrativos. O salário mínimo mensal em Xangai é de 1.120 yuans; em Anhui, é de 720 yuans.

A Gree é um exemplo do aumento do investimento. Fundada no início dos anos 90 em Zhuhai, uma cidade do sul próxima de Hong Kong, ela se tornou uma das maiores fabricantes do mundo de aparelhos de ar condicionado. Ela iniciou a produção em Hefei há apenas 18 meses, mas a sua fábrica já cobre 730 mil metros quadrados –18 vezes o tamanho de um grande estádio de futebol– e produz 6 milhões de unidades por ano.

Em uma escala menor, a Andier Electrical Equipment tem um fábrica que emprega 100 pessoas na cidade de Shenzhen, produzindo tubos de alumínio e canos de aço. Neste ano ela abriu uma fábrica de tamanho semelhante em Hefei. Wang Gang, o gerente geral, diz que ela tomou essa decisão porque os custos de produção são 10% menores do que nas regiões costeiras e porque muitos dos seus clientes também estão transferindo sua produção para Anhui e outras partes do centro.

A mudança no fluxo de investimentos está mudando a dinâmica da migração. Anhui é famosa por exportar seus jovens para as regiões costeiras, para trabalharem em canteiros de obras e fábricas. Até um quinto de sua população de 67 milhões está trabalhando em outras
partes do país. No Ano Novo, centenas de milhares lotam os trens para voltar para a província.

Isso está começando a mudar, à medida que empregos estão sendo criados localmente. Liu Erlin, um jovem de 21 anos natural de Anhui, encontrou seu primeiro emprego em uma fábrica na costa sul. Mas ele voltou no ano passado e agora trabalha no controle de qualidade da fábrica da Gree em Hefei. "Agora é muito mais fácil para mim voltar para minha família”, ele diz.

He Deqiu, que dirige uma agência de empregos online em Hefei chamada goodjobs.cn, diz que o número de vagas locais anunciadas no site tem aumentado de 30% a 40% ao ano nos
últimos anos. “Você pode ver muito claramente que a economia está se desenvolvendo das áreas costeiras para China central”, ele diz. “Há muita gente que voltou para trabalhar localmente, especialmente do sul da China.”

Se o fluxo de investimento e o retorno de migrantes for sustentado, isso transformará outros aspectos da economia local. Os trabalhadores com empregos estáveis precisarão de casas, alimentando os investimentos no setor imobiliário. Eles também procurarão por melhores lugares para gastar, impulsionando o crescimento do consumo. O HSBC, que atende a
clientes de alta renda, abriu uma filial em Hefei – um sinal de que há uma crescente classe gerencial. Tesco, Wal-Mart e Carrefour abriram supermercados para a nova classe média.

Mas também há sinais de que o crescimento no centro pode vir a encalhar. Como tantas outras cidades em crescimento, Hefei tem a sua cota de projetos de vaidade. Um distrito de governo foi construído a 16 quilômetros do centro, incluindo uma prefeitura com duas torres de 30 andares curvadas que dão para um lago artificial chamado Lago do Cisne. O aeroporto planejado é projetado na forma de um peixe.

A febre imobiliária que tomou muitas áreas urbanas no ano passado atingiu Hefei. Grandes outdoors anunciam complexos residenciais com nomes como Toscana e Lakeside Times Square. Ao sul do centro da cidade, cerca de 50 prédios de apartamentos estão em construção, criando um vasto novo bairro. Segundo Li Xinhua, da imobiliária local
AHhouse, os preços em Hefei subiram 50% no ano passado –impulsionados principalmente pela compra de apartamentos por moradores locais, mas também por investidores de outras
províncias. “Houve algumas compras com finalidade especulativa, com certeza”, diz Li.

No entanto, como em outras áreas urbanas, o mercado imobiliário em Hefei está parado desde que o governo nacional anunciou, em abril, uma série de medidas para tentar conter a especulação. Observadores locais estão otimistas de que um grande crash será evitado
–os preços vão cair cerca de 10%, eles dizem, antes de retomar sua trajetória ascendente. Mas ninguém sabe ao certo se o governo pode preparar um pouso suave.

De modo mais amplo, o risco diante de Hefei e de outras partes da região central é o fato de seu crescimento recente ser dependente demais de investimento público, o que inevitavelmente diminuirá à medida que Pequim retirar alguns dos estímulos do ano passado.

De fato, de acordo com números do governo provincial, o investimento representou mais de 90% do produto interno bruto de Anhui em 2009 –o que parece indicar um grande
risco de bolha de investimento. Estas estatísticas devem ser levadas em consideração com certa reserva, uma vez que os governos locais rotineiramente depreciam o setor de serviços e declaram de forma exagerada seus projetos de investimento. No entanto, eles sugerem que lugares como Anhui estão vulneráveis a uma desaceleração nos gastos públicos.

Há pela frente dois riscos em particular. Como muitos governos locais, Anhui tem tomado muitos empréstimos nos últimos dois anos por meio das empresas de investimento que controla. No entanto, o órgão regulador bancário estimou na semana passada que quase um quarto dos empréstimos para as empresas do governo local foram de “alto risco”. Se uma parte azedar no próximos anos, o fluxo de investimento para as províncias provavelmente encolherá. Um aumento da inflação poderia causar o mesmo efeito, já que provavelmente levaria a um aumento das taxas de juros e a uma redução dos empréstimos. Taxas de juros elevadas também exerceriam pressão sobre as finanças de muitos projetos de investimentos em andamento.

O boom no centro, portanto, não é um sem riscos. O crescimento da indústria no interior pode oferecer uma compensação bem-vinda para a economia nacional à medida que diminuem os estímulos. Mas, apesar de seu rápido florescimento, as economias de cidades como Hefei e sua zona industrial Big Peach Flower permanecem frágeis.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos