Judeus ultraortodoxos são maioria em bairro de Israel

  • Tsafrir Abayov/AP

    Judeu ultraortodoxo joga sacola no fogo durante preparação para a Páscoa judaica em Ashdod, em Israel

    Judeu ultraortodoxo joga sacola no fogo durante preparação para a Páscoa judaica em Ashdod, em Israel

Não muito longe da agitação comercial do centro de Jerusalém fica o bairro tranquilo de Mea Shearim. Lar de vários milhares de membros da comunidade ultraortodoxa de Israel, suas ruas e pátios oferecem uma viagem comovente de volta aos centros da vida judaica na Europa Oriental do século 19.

Desafiando o calor do Oriente Médio, os homens ainda usam os mantos pretos longos e chapéus de pele de seus antepassados. Praticantes rigorosos, eles tendem a evitar os locais de trabalho seculares, dedicando suas vidas aos estudos religiosos e orações. O iídiche continua sendo amplamente falado. Televisão, Internet, minissaias e música pop –tudo isso é mantido à distância por um código moral rigoroso que rejeita os valores e aparelhos da sociedade moderna.

A maioria dos visitantes perambula por essas ruas para explorar um estilo de vida
que a geração de fundadores do país esperava de forma confiante que desapareceria com o tempo. Mas de muitas formas o bairro oferece uma janela para o futuro. Longe de cederem à corrente predominante secular, os ultraortodoxos, ou haredim, formam o segmento que mais cresce da população. A comunidade não apenas preservou o seu modo de vida, mas também está em ascensão, tanto demográfica quanto politicamente – um processo que tem provocado desconforto entre muitos israelenses e alertas de um grupo de economistas e autores de políticas que cada vez se manifesta mais fortemente.

Eles apontam que Israel está enfrentando uma mudança demográfica drástica que terá um profundo impacto sobre sua capacidade de sustentar o crescimento econômico e manter as finanças públicas em equilíbrio, enfraquecendo sua capacidade de lidar com as ameaças de segurança na região.

O problema, resumindo, é que os dois grupos que mais crescem –os haredim e a minoria árabe de Israel– são também os mais pobres, menos produtivos e menos escolarizados. Ambos incluem um número desproporcionalmente grande de pessoas que não trabalham e dependem do bem-estar social. O problema é particularmente agudo entre os homens ultraortodoxos, 65% dos quais não participam da força de trabalho, e entre as mulheres palestinas israelenses, 76% das quais estão fora da força de trabalho.

Apesar de diferirem de inúmeras formas, não outra importante característica compartilhada pelas comunidades ultraortodoxa e palestina israelense: diferente da maioria dos judeus israelenses, a grande maioria deles não serve no exército. Isso aprofunda a divisão, não apenas ideológica, entre a corrente principal da sociedade e as duas minorias.

Entre os haredim, há um grupo de linhas-duras que rejeita abertamente o Estado de Israel, que eles consideram como um sendo uma abominação religiosa. A comunidade árabe, por sua vez, enfrenta cada vez mais a retórica hostil dos membros da extrema-direita do governo, que questionam sua lealdade. Um número crescente se sente alienado em uma nação que se define, acima de tudo, como judaica. Isto significa que ambas as minorias, por razões diferentes, demonstram menos entusiasmo por Israel do que o cidadão comum. Em outras palavras, a ascensão deles provavelmente afetará a política do país tanto quanto sua economia.

De acordo com o professor Sergio DellaPergola, da Universidade Hebraica de Jerusalém, a mulher ultraortodoxa comum não tem menos do que seis filhos, enquanto as mulheres palestinas israelenses tendem a criar entre três e quatro cada. A taxa de natalidade na comunidade árabe vem caindo, mas continua bem acima da média nacional. O crescimento da população haredi, no entanto, não mostra nenhum sinal de desaceleração.

A minoria árabe já representa 21% da população, com a estimativa de que os haredim representem de 8% a 10%. Mas seu percentual combinado certamente crescerá dramaticamente. Analistas dizem que a melhor maneira de ilustrar o seu potencial demográfico é olhar para a educação. De acordo com um estudo recente do Centro Taub para Estudos de Política Social, em Jerusalém, quase um entre dois alunos do ensino primário estuda em uma escola árabe israelense ou ultraortodoxa. O professor Dan Ben-David, diretor do Centro Taub, argumenta que a simples extrapolação desta tendência para o futuro mostra ser cheia de problemas, mas mesmo assim exibe resultados notáveis. O relatório do Centro Taub aponta: “Se as mudanças da última década continuarem, então, em 2040, o número de alunos ultraortodoxos e árabes israelenses representará 78% de todos os alunos nas escolas primárias de Israel”.

Mesmo se esse cenário nunca vier a acontecer, os economistas como o professor Ben-David argumentam que a mudança demográfica está começando a representar um “perigo existencial” ao Estado. Ele adverte que a proporção de israelenses que mais contribuem para o Estado em termos financeiros, econômico e militares está encolhendo. “Estas são as pessoas que defendem Israel. Estas são as pessoas que pagam impostos. Estas são as pessoas que são médicos e engenheiros. Quem vai fazer isso daqui 30 anos?”

Por ora, o crescimento econômico permanece forte. O setor de alta tecnologia é invejado por muitos países desenvolvidos, as instituições de pesquisa são admiradas e os israelenses
produzem um número impressionante de patentes e inovações. Além disso, nem todos os analistas estão convencidos de que existe uma profunda ameaça demográfica. O prof. DellaPergola argumenta, por exemplo, que “a sociedade israelense é muito mais flexível” do que muitos acreditam. Ambas as minorias, ele acrescenta, podem e no final serão integradas à corrente principal social e econômica.

Até agora, porém, há apenas evidência modesta disso. E o tempo está se esgotando, diz Yuval Steinitz, o ministro das Finanças: “A economia pode continuar crescendo ao longo dos próximos dois, três ou cinco anos se não lidarmos com a incorporação dos haredim e árabes (...) no mercado de trabalho”, ele disse em uma recente conferência. “Mas sem uma mudança agora, dentro de 10 anos a situação será uma catástrofe.”

Outros compartilham sua preocupação. O prof. Omer Moav, do Royal Holloway College de Londres e da Universidade Hebraica, diz: “Isso representa a mais grave ameaça para a existência do Estado de Israel a longo prazo. Mas não é uma ameaça atual como (a perspectiva de) uma bomba nuclear iraniana. É por isso que os políticos estão tão relutantes em fazer algo a respeito”.

Avishay Braverman, o ministro das Minorias, diz que o país está dividido em “duas populações”" –separadas por renda, educação e grau de integração na força de trabalho. “Se conseguíssemos fazer os árabes e ultraortodoxos trabalharem, então nosso potencial seria enorme. Eu acredito que pode ser feito, mas requer políticas diferentes e uma visão diferente. Mas se nós não mudarmos isso, nosso futuro econômico será problemático e o futuro do nosso país será problemático”, ele diz.

Um desafio demográfico diferente há muito preocupa os líderes do país. Segundo a maioria das previsões, o número de palestinos que vivem na Cisjordânia ocupada, na Faixa de Gaza - os dois territórios palestinos– e no próprio Israel ao longo da próxima década ultrapassará o número de judeus israelenses que vivem nessas áreas. Isto, por sua vez, deixa os políticos com uma escolha difícil: permitir a criação de um Estado palestino, o que exigiria a remoção de muitos, se não da maioria dos assentamentos judeus na Cisjordânia, ou aceitar o surgimento gradual de Estado bi-nacional com uma maioria árabe palestina.

A mudança no equilíbrio entre as populações que está ocorrendo entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo persuadiu até mesmo ex-falcões a aceitarem a necessidade de uma solução de dois Estados. Um avanço diplomático pode parecer improvável por ora – mas pelo menos os líderes israelenses sabem que há uma resposta óbvia para o desafio representado pelo rápido crescimento da população palestina em Gaza e na Cisjordânia. Uma solução clara para a mudança demográfica no interior de Israel, no entanto, ainda não foi encontrada.

Os autores de políticas só recentemente começaram a lidar com o questão de como integrar os haredim e os palestinos israelenses ao mercado de trabalho. O ministério de Braverman, por exemplo, prometeu neste ano investir 800 milhões de shekels (US$ 213 milhões) em projetos destinados a promover o emprego e a educação entre a população árabe.

Ele reconhece que o seu fraco desempenho econômico se deve em parte à discriminação, afirmando que “nós não fizemos nossa parte justa no governo”. Estudos mostram que realmente as comunidades árabes de Israel recebem bem menos recursos públicos do que as áreas predominantemente judaicas e enfrentam discriminação em muitas partes da economia, incluindo o setor público.

“A situação com os árabes israelenses é mais fácil de resolver. Os principais problemas com os árabes são a educação e a discriminação”, diz o prof. Ben-David, acrescentando que ambas as questões são –pelo menos em teoria– corrigíveis.

Integrar os haredim na economia, entretanto, é complicado por dois fatores que os analistas dizem ser muito mais difíceis de lidar. Um deles é a natureza da sociedade ultraortodoxa, que valoriza os estudos da Torá e a observância rígida dos deveres religiosos muito mais do que um emprego bem-remunerado e conforto material. Assim, a pobreza e a exclusão social sofrida pelos haredim em Israel são, até certo grau, um produto de sua escolha.

No entanto, nem todas as comunidades ultraortodoxas optaram por viver em relativa miséria. Como Braverman aponta, um percentual muito maior de judeus ultraortodoxos trabalha em lugares como Nova York e Londres do que em Israel.

A diferença entre os hábitos de trabalho das comunidades haredim israelenses e no exterior tem muitas causas, mas o sistema de bem-estar social é claramente um fator central. Muitas famílias ultraortodoxas em Israel há muito tempo conseguem se sustentar com a ajuda do governo. Elas se beneficiam, em particular, com um sistema relativamente generoso de apoio à criança e subsídios para estudantes religiosos.

Combinados com alguma renda do trabalho feminino e ocasionais doações de caridade, essas transferências asseguram um modo de vida extremamente modesto – mas eles podem e permitem que uma família sobreviva.

Os cidadãos seculares há muito olham para esses benefícios com desprezo e os políticos frequentemente prometem eliminá-los. Até o momento, entretanto, todas as tentativas para forçar os ultraortodoxos a ingressarem no mercado de trabalho fracassaram, em consequência do segundo fator que diferencia os haredim: a influência política.

É quase uma lei da política israelense que governos de coalizão acabem dependendo dos votos e de pelo menos um dos principais partidos ultraortodoxos, o Shas e o Judaísmo Unido da Torá. Os dois grupos fazem parte do atual governo e contam com 16 das 120 cadeiras do Knesset.

Como no passado, o apoio deles tem um preço: não apenas os legisladores e ministros haredim estão determinados a defender o regime de bem-estar social, mas eles também trabalham arduamente para manter as verbas públicas para as escolas ultraortodoxas, que se concentram fortemente no ensino religioso, em detrimento de matérias “seculares” como línguas e matemática.

Ao longo dos anos, seus esforços têm sido extremamente bem-sucedidos: os pagamentos do bem-estar social per capita mais que quintuplicaram desde 1970, superando em muito o crescimento do produto nacional. O investimento público em áreas como educação e infraestrutura, em comparação, tem ficado para trás nas últimas décadas, criando preocupação adicional com o crescimento futuro.

Os analistas concordam que as mudanças demográficas exigem uma política ousada e a maioria argumenta que a mudança é necessária o mais cedo possível. Como diz o prof. Ben-David: “Há um ponto sem retorno e quando nós o atravessarmos, não será mais possível mudar as coisas democraticamente – talvez nem mesmo seja possível mudá-las”.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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