Street View causa problemas para o Google na Alemanha

Gerrit Wiesmann e Tim Bradshaw

Nítida ou embaçada? Um novo jogo de palavras, que tornou-se popular devido a declarações públicas da elite política, está tomando conta da Alemanha. Guido Westerwelle, ministro das Relações Exteriores, tornou-se um membro inicial da facção de imagens embaçadas, enquanto que Angela Merkel, a chanceler do país, disse que optará pela nitidez.

Google Street View

  • Os carros do Street View do Google já rodaram centenas de milhares de quilômetros para que pessoas de 23 países pudessem ver as suas casas --e a da maioria das residências das outras pessoas-- na web.

    O serviço teve início em cinco cidades norte-americanas em 2007 e, em 2008, foi expandido para a Austrália e a Europa. Entre os locais interessantes que constam no banco de imagens estão o Palácio de Versalhes, Pompeia e Stonehenge.

    As primeiras imagens do Google revelavam identidades dos motoristas e dos pedestres que se encontravam nas ruas quando os carros da empresa passaram tirando as fotografias. Mas, depois de reclamações por parte de defensores do direito à privacidade, o Google tirou de foco as faces e os números das placas dos automóveis em 2008. E quem desejar pode também pedir ao Google que tire o foco da imagem das suas residências, embora o serviço alemão seja o primeiro a oferecer esta possibilidade antes mesmo de começar a funcionar.

Aquilo que faz lembrar sintomas de uma insolação coletiva são respostas a uma pergunta que muitos alemães vêm analisando nos últimos dez dias: o Google deveria mostrar residências no seu Street View ou será que a companhia norte-americana deveria obscurecer imagens para proteger as propriedades e a privacidade?

O Google, que se prepara para colocar na Internet imagens de 20 cidades neste ano, cedeu neste mês às pressões de políticos e da agência de proteção de dados em Hamburgo, cidade em que fica a base da empresa na Alemanha, ao conceder a proprietários e locatários de residências o direito de retirarem as imagens das suas moradias do serviço antes mesmo que este tenha início. Os cidadãos dos outros 23 países que participam do Street View só podem fazer isso depois que as imagens estão online – uma opção que é pouco divulgada.

O Google parece estar querendo retratar as preocupações alemãs como uma aberração. A empresa cita “antigas sensibilidades existentes na Alemanha em relação à privacidade” --uma referência a nazistas e comunistas que gostavam de sigilo.

O argumento não foi capaz de impressionar Peter Schaar, o protetor de dados alemão. “Talvez os alemães sejam um pouco mais sensíveis a essa questão do que os britânicos e os norte-americanos”, declarou Schaar. “Os norte-americanos são mais descuidados e não parecem realmente se importar com as coisas, a menos que algo saia errado. Mas na França ou na Espanha eu percebo uma discussão similar à alemã”.

Houve indignação em vários países quando o Google admitiu neste ano que os seus carros Street View, com equipamentos semelhantes a uma chaminé e um globo de câmeras de vigilância instalados no teto, coletaram fragmentos de informações de e-mails e navegadores da Web de redes wireless domésticas que não eram dotadas de senha.

As autoridades espanholas ainda estão investigando a questão – assim como agências públicas no Reino Unido, na Coreia do Sul e até mesmo em alguns Estados norte-americanos. Além disso, preocupações relativas às fotografias de rua provocaram o adiamento do lançamento do Street View na Áustria e na Grécia. No Japão, o Google teve que fazer novas fotos depois de receber reclamações de que as suas câmeras eram excessivamente altas, e autoridades suíças alegam que a companhia não se empenhou suficientemente em ocultar a identidade dos cidadãos cujas imagens foram capturadas pelas câmeras.

“Eu às vezes tenho a impressão de que, em certas áreas, o Google ainda age como aquela empresa de garagem incipiente que era dirigida pelo puro entusiasmo dos seus fundadores”, disse Schaar.

De acordo com o espírito inovador que norteia a companhia desde o lançamento do seu motor de busca em 1997, a filosofia do Google é primeiro lançar um produto e fazer perguntas depois. Isso foi o que aconteceu com o Street View, que é popular na maioria dos países --o tráfego no Google Maps geralmente aumenta em 20% quando se acrescenta a eles o recurso do Street View. No entanto, talvez a empresa tenha que reavaliar essa prática.

“Esta estratégia de inventar-e-lançar significa que a resposta do Google a problemas ainda é esporádica e episódica”, afirma Simon Davies, da Privacy International, um grupo britânico que defende a privacidade. “A companhia ainda não passou por uma mudança necessária dessa cultura, e isso demorará algum tempo”.

Mas os governos poderão acelerar esse processo. Berlim convidou o Google e os seus concorrentes para discutir regras sobre a coleta de dados públicos. Uma ideia é criar um registro central ao qual os proprietários de casas poderiam se conectar quando desejassem que as suas propriedades fossem exibidas – uma opção que não aplicar-se-ia a mídias ou a redes sociais mais antigas.

A Comissão Europeia está modificando as regras de proteção de dados que cobrem os 27 países membros da União Europeia. A comissão comprometeu-se a divulgar novas ideias neste outono do hemisfério norte e a redigir as diretrizes no ano que vem, o que deixou as autoridades alemãs com a certeza de que isso provocará uma harmonização das regras para o Street View e os seus rivais.

Mas, por ora, Berlim está concentrada no resultado do seu jogo de palavras nacional. O Ministério de Proteção do Consumidor apresentou a ideia de retirada de imagens nítidas de 200 mil casas até o prazo de 15 de outubro, que foi estabelecido pelo Google. O próprio Schaar decidiu verificar as imagens do Street View antes de tomar uma decisão – a facção das imagens embaçada ainda estará aceitando membros.
 

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