Como criar um astro

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Se você examinar as certidões de nascimento de cada jogador de futebol na Copa do Mundo, você provavelmente encontrará uma peculiaridade digna de nota: há uma maior probabilidade dos jogadores de futebol de elite terem nascido nos primeiros meses do ano do que nos últimos.

Se você examinar as seleções das categorias de base européias que alimentam as fileiras profissionais e da Copa do Mundo, esta peculiaridade se torna ainda mais pronunciada.

Nas equipes inglesas recentes, por exemplo, metade dos melhores jogadores de futebol adolescentes nasceram em janeiro, fevereiro ou março, com a outra metade espalhada pelos nove meses restantes. Na Alemanha, 52 dos melhores jogadores jovens nasceram nos primeiros três meses do ano, com apenas quatro jogadores nascidos nos últimos três meses.

O que seria responsável por esta anomalia?

Aqui estão alguns palpites: a) certos signos astrológicos conferem talento superior ao futebol; b) bebês nascidos no inverno (no hemisfério Norte) tendem a ter maior capacidade pulmonar, o que aumenta a resistência para o futebol; c) pais fanáticos por futebol têm maior probabilidade de conceber crianças no inverno, no auge da temporada do esporte; d) nenhuma das anteriores.

Anders Ericsson, um professor de psicologia de 58 anos da Universidade Estadual da Flórida, disse acreditar fortemente em "nenhuma das anteriores".

Ele é o líder do que poderia ser chamado de Movimento de Performance Expoente, uma coalizão livre de estudiosos que tentam responder a uma pergunta importante e aparentemente primordial: quando alguém é muito bom em certa coisa, o que realmente o torna bom?

Ericsson, que cresceu na Suécia, estudou engenharia nuclear até perceber que teria mais oportunidade para realizar sua própria pesquisa se mudasse para psicologia. Sua primeira experiência, há quase 30 anos, envolvia memória: treinar uma pessoa a ouvir e então repetir uma série aleatória de números.

"Com o primeiro voluntário, após cerca de 20 horas de treinamento, sua capacidade subiu de sete números para 20", lembrou Ericsson. "Ele continuou melhorando e, após cerca de 200 horas de treinamento, ele ultrapassou 80 números."

Este sucesso, somado a uma pesquisa posterior mostrando que a memória em si não é determinada geneticamente, levou Ericsson a concluir que o ato de memorizar é mais um exercício cognitivo do que intuitivo.

Em outras palavras, sejam quais forem as diferenças inatas que duas pessoas possam exibir em suas capacidades de memorizar, tais diferenças são superadas por quão bem cada pessoa "codifica" a informação. E a melhor forma de aprender como codificar a informação de forma significativa, determinou Ericsson, era um processo conhecido como prática deliberada.

A prática deliberada envolve mais do que apenas a repetição de uma tarefa --tocar em uma escala de Dó menor 100 vezes, por exemplo, ou praticar saques de tênis até que seu ombro se desloque. Em vez disso, ela envolve o estabelecimento de metas específicas, a obtenção de retorno imediato e concentração tanto na técnica quanto no resultado.

Ericsson e seus colegas passaram assim a estudar especialistas em um várias áreas, incluindo futebol, golfe, cirurgia, música, jogo de palavras cruzadas, literatura, xadrez, desenvolvimento de software, mercado de ações e arremesso de dardos.

Eles reuniram todos os dados que puderam, não apenas estatísticas de performance e detalhes biográficos, mas também os resultados de suas próprias experiências em laboratório com pessoas com performance acima da média em suas áreas.

O trabalho deles, compilado no "Cambridge Handbook of Expertise and Expert Performance", um livro acadêmico com 900 páginas, faz uma afirmação surpreendente: a característica que normalmente chamamos de talento é altamente exagerada.

Ou, colocando de outra forma, os performers expoentes --seja em memória ou cirurgia, balé ou programação de computador-- quase sempre são desenvolvidos, não nascidos daquela forma.

E sim, a prática leva à perfeição. Isto pode parecer o tipo de clichê que os pais gostam de dizer aos seus filhos. Mas estes clichês em particular são verdadeiros.

A pesquisa de Ericsson sugere também um terceiro clichê: quando se trata de escolher um caminho na vida, você deve escolher o que ama --porque se você não amar o que faz, dificilmente se esforçará o suficiente para se tornar muito bom.

A maioria das pessoas naturalmente não gosta de fazer coisas nas quais não são "boas". Assim, elas freqüentemente desistem, dizendo a si mesmas que simplesmente não possuem talento para matemática, esqui ou violino. Mas o que realmente carecem é do desejo de serem boas e de se submeter à prática deliberada que as tornaria melhores.

"Eu acho que a alegação geral aqui", disse Ericsson sobre seu trabalho, "é que muitas pessoas acreditam que há alguns limites inerentes com os quais nasceram. Mas surpreendentemente há pouca evidência concreta de que alguém poderia atingir qualquer tipo de performance excepcional sem passar muito tempo a aperfeiçoando".

Isto não quer dizer que todas as pessoas têm potencial igual. Michael Jordan, mesmo se não tivesse passado horas incontáveis no ginásio, ainda seria um jogador de basquete melhor do que a maioria de nós. Mas sem aquelas horas no ginásio, ele nunca teria se tornado o jogador que foi.

As conclusões de Ericsson, se precisas, teriam aplicações mais amplas. Quanto mais cedo os estudantes forem ensinados a seguir suas áreas de interesses, melhor desenvolverão seu talento e obterão retorno significativo. Cidadãos idosos devem ser encorajados a adquirir novas habilidades, especialmente aquelas que exijam "talentos" que acreditavam não possuir.

E provavelmente valeria repensar grande parte do treinamento médico. Ericsson notou que a performance da maioria dos médicos piora quanto mais tempo passam longe da escola de medicina.

Mas os cirurgiões são uma exceção. Isto porque estão constantemente expostos a dois elementos chaves da prática deliberada: retorno imediato e estabelecimento de metas específicas.

O mesmo não vale para, digamos, médicos que fazem laudo de mamograma. Quando uma médica lê um mamograma, ela não sabe ao certo se há um câncer de mama ou não. Ela só poderá saber semanas depois, por uma biópsia, ou anos depois, quando nenhum câncer se desenvolver.

Sem retorno significativo, a habilidade do médico se deteriora com o tempo. Ericsson sugere um novo modo de treinamento.

"Imagine uma situação onde um médico possa diagnosticar mamogramas de casos antigos e obter imediatamente o retorno do diagnóstico correto para cada caso", ele disse. "Trabalhando em tal ambiente de aprendizado um médico poderia ver mais cânceres diferentes em um dia do que em dois anos de prática normal."

No mínimo, os insights de Ericsson e seus compatriotas da Performance Expoente podem explicar o enigma do motivo de tantos dos principais jogadores de futebol terem nascido no início do ano.

Como as categorias jovens são organizadas por faixa etária, as equipes inevitavelmente tem uma idade limite. Nos campeonatos jovens europeus, a data limite é 31 de dezembro.

Assim, quando um técnico está avaliando dois jogadores da mesma faixa etária, sendo que um nascido em janeiro e outro nascido em dezembro, o jogador nascido em janeiro provavelmente será maior, mais forte, mais maduro. Qual será o jogador que o técnico provavelmente escolherá?

Ele pode estar confundindo maturidade com habilidade, mas ainda assim está fazendo sua seleção. E assim que são escolhidos, estes jogadores nascidos em janeiro são aqueles que, ano após ano, recebem treinamento, prática deliberada e retorno --sem contar a auto-estima que acompanha-- que os transformará em jogadores de elite.

Isto pode ser uma má notícia para os pais torcedores de futebol cujo filho nasceu no mês errado. Mas continue praticando: uma criança concebida em um domingo no início de maio provavelmente nasceria em fevereiro, dando uma melhor chance de assistir a Copa do Mundo de 2030 no espaço reservado à família.

*Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt são os autores do livro "Freakonomics: A Rogue Economist Explores the Hidden Side of Everything", algo como "Economia do Absurdo: um Economista Desocupado Explora o Lado Oculto de Todas as Coisas". Os maiores talentos que possímos --seja em memória ou cirurgia, balé ou programação de computador-- quase sempre são desenvolvidos ao longo do tempo, não nascidos daquela forma George El Khouri Andolfato

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt são os autores de 'Freakonomics' e 'Superfreakonomics'. O livro mais recente deles é 'When to Rob a Bank... and 131 More Warped Suggestions and Well-Intended Rants'.

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