Freakonomics.com: A soma (e o sumô) de todos os medos

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

As crianças estão dando o alarme do aquecimento global?

Os americanos podem estar menos preocupados com o aquecimento global do que as populações de muitos outros países, mas é incrível como ultimamente o assunto se tornou onipresente.

Uma reportagem recente da Reuters notou que "13% dos americanos nunca tinham ouvido falar em aquecimento global, apesar de seu país ser a principal fonte mundial de gases do efeito estufa". E a mídia fervilha todos os dias com matérias sobre o aquecimento global, sob diversos ângulos: ambiental, econômico, político... Pode escolher.

Como isso aconteceu? Como um assunto tão abrangente, complexo e polêmico agora está se tornando rapidamente uma preocupação tão urgente?

Uma teoria surgiu em minha mente outro dia, quando eu examinava uma lista da Kagan Research dos lançamentos de cinema mais rentáveis do mundo em 2006.

Em primeiro lugar na lista estava a seqüência da animação "A Era do Gelo: o Derretimento", um filme infantil apocalíptico que faturou pouco mais de US$ 1 bilhão nas bilheterias. Outra animação infantil, "Happy Feet", que apresenta pingüins que cantam e dançam, também fez enorme sucesso, com faturamento mundial de mais de US$ 350 milhões até então. "Happy Feet" não é exatamente sobre o aquecimento global, mas sobre a ação desastrosa da humanidade contra a natureza.

Para avaliar realmente o alcance desses filmes infantis, considere que "Uma Verdade Inconveniente", de Al Gore, uma pungente advertência global, faturou US$ 24 milhões, segundo o "New York Times". E apesar de ser um dos documentários de maior faturamento de todos os tempos, sua receita é uma gota no balde comparada à dos grandes sucessos de animação. Todos sabemos como as crianças podem ser influentes. Editores de jornais, produtores de TV e até políticos têm filhos. E quando as crianças começam a se obcecar por alguma coisa é impressionante a rapidez com que os pais as acompanham.

Basta examinar a educação antifumo nos EUA. Meus filhos estão tão completamente doutrinados contra o tabaco que quando vêem alguém num filme antigo fumando um cigarro olham para mim horrorizados. É como se tivessem visto alguém cortar a garganta de um cachorrinho.
De maneira semelhante, me pergunto se foram as crianças que realmente ficaram assustadas com o aquecimento global - e começaram a "pegar no pé" de seus pais.

Não estou dizendo que o aquecimento global não tenha virado matéria de primeira página por uma série de outros motivos; mas me pergunto se sua recente proeminência teria ocorrido através de um canal que ninguém esperava.

Stephen J. Dubner

Se você não pode ser paga por um rim, que tal por um óvulo?

Já escrevemos aqui sobre o desconforto (ou pior) que as pessoas sentem quando se trata de pagar a doadores de órgãos, embora isso provavelmente fosse uma enorme bênção para os que sofrem nas listas de espera de doação de órgãos.

Recentemente, a CNN.com relatou uma proposta defendida por um médico da Universidade de Newcastle, na Grã-Bretanha, para reduzir pela metade o custo dos tratamentos de fertilidade se as mulheres doassem a metade dos óvulos resultantes para a pesquisa de células-tronco.
Uma das coisas que os adversários dos mercados de órgãos se queixam é de que se você vender um rim você fica com apenas um. Com os óvulos, porém, não há esse problema. Você pode vender plasma, por que não óvulos?

Eu adoro o seguinte trecho da reportagem: "A especialista em ética Laurie Zoloth, da Universidade Northwestern, acredita que pagar uma taxa poderia levar à exploração de algumas mulheres. As mulheres que dão óvulos para clínicas de fertilidade fazem isso pelo dinheiro, ela disse, e como sociedade 'não queremos... que os corpos dos pobres sejam usados conforme as necessidades dos ricos'. 'Você não vê muitas professoras ou executivas vendendo óvulos para secretárias ou faxineiras', ela disse em um e-mail."

Na última vez em que verifiquei você também não via muitas professoras ou executivas limpando as casas de outras pessoas, ou anotando ditados!
Existe algum motivo pelo qual é certo as mulheres pobres usarem seus corpos para limpar as casas de outras em troca de dinheiro, mas não é certo receberem um pagamento muito maior usando seus corpos para fornecer óvulos?

Nesse caso, a linha de argumento ética me parece ainda mais ridícula do que de costume.

Steven D. Levitt

Os mongóis atacam novamente

Quando meu colega economista Mark Duggan, atualmente no Instituto Brookings, e eu escrevemos uma análise estatística sobre compra de resultados na luta de sumô, cinco anos atrás, passei muito tempo vasculhando traduções de reportagens da mídia japonesa sobre suspeitas desses incidentes.

Quase todas as acusações anteriores de compra de resultados tinham algo em comum: sempre havia um lutador de sumô estrangeiro no centro do suposto incidente. Os mongóis eram o alvo favorito até então. Mas de certo modo, quando analisamos os dados, os lutadores japoneses pareciam ser tão corruptos quanto os estrangeiros.

É engraçado como a coisa funciona. Quando o livro "Freakonomics", que apresenta nossa pesquisa sobre o sumô, foi publicado no Japão, eu esperava uma enxurrada de pedidos da mídia japonesa para discutir nossas alegações sobre a luta. Apesar de o livro ter vendido bem no Japão (devido em grande parte aos esforços incansáveis de nosso fantástico tradutor japonês), até onde posso me lembrar nenhum canal da mídia japonesa nos contatou para falar sobre os resultados das lutas.

Agora eu li que Yokozuna Asashoryu, um grande campeão de sumô, teria pago a outros lutadores para perder lutas. Fiel à forma, porém, o episódio inclui uma alegação de que o lutador mongol Kyokutenzan talvez tenha atuado como intermediário para Asashoryu.

Não posso deixar de imaginar se nosso livro teria sido o catalisador que levou a associação japonesa de sumô a examinar a questão. ... Pensando bem, talvez não.

Steven D. Levitt Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt são os autores de 'Freakonomics' e 'Superfreakonomics'. O livro mais recente deles é 'When to Rob a Bank... and 131 More Warped Suggestions and Well-Intended Rants'.

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