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Freakonomics: Trabalho por prazer

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

O cachecol de US$ 140 feito em casa No final do século 19, a fabricação de pianos era uma das maiores indústrias da cidade de Nova York. Toda família americana normal, ao que parecia, queria encher sua casa de música. O advento do piano mecânico ou pianola - uma máquina de fazer música que exigia talento zero - reforçou ainda mais a tendência. Na década de 1920 cerca de 300 mil pianos eram vendidos por ano nos EUA, cerca de dois terços deles pianolas. Mas duas novas tecnologias, o rádio e o fonógrafo, logo empurraram o piano para um profundo desfavor que continua até hoje. No ano passado os americanos compraram apenas 76.966 pianos. é uma redução de 75% em um período em que a população mais que duplicou. Por mais que as pessoas gostem de música, a maioria delas aparentemente não sente necessidade de fazê-la pessoalmente. Segundo estatísticas do Departamento do Censo, somente 7,3% dos americanos adultos tocaram um instrumento musical nos últimos 12 meses. Compare isso com os 17,5% de adultos que atualmente se dedicam ao que o Censo chama de "cozinhar por diversão". Ou considere que 41% das famílias têm jardins com flores, 25% cultivam legumes e 13% árvores frutíferas - embora apenas 1% dos americanos viva em fazendas hoje, contra 30% em 1920. Uma nota pessoal: um dos autores desta coluna tem uma irmã que dirige uma próspera loja de armarinho, enquanto o outro é casado com uma devota do tricô capaz de pagar US$ 40 de lã para fazer um único cachecol e depois passar dez horas tricotando. Mesmo que seu trabalho seja avaliado em apenas US$ 10 por hora, o cachecol custará pelo menos US$ 140 - ou aproximadamente US$ 100 a mais do que custaria um semelhante feito a máquina. Não é intrigante que tantos americanos de meia-idade gastem tanto tempo e dinheiro fazendo trabalhos manuais, quando não precisam? Assim como o rádio e o fonógrafo se mostraram substitutos poderosos para o piano, as forças da tecnologia e do capitalismo reduziram em muito o trabalho para nos alimentarmos e vestirmos. Então por que tanto tricô, jardinagem e "cozinha por diversão"? Por que algumas formas de trabalhos manuais sobrevivem como hobbies enquanto outras foram eliminadas? (Por exemplo, não podemos nos lembrar de alguém que, desde a invenção da máquina de lavar, pratique "lavagem por diversão"). Os economistas tentam há décadas medir quanto tempo de lazer as pessoas têm e como elas o gastam, mas houve muito pouco consenso. Isso ocorre em parte porque é difícil dizer o que constitui lazer e em parte porque as avaliações do lazer ao longo dos anos não foram muito coerentes. Os economistas geralmente separam nossas atividades diárias em três categorias: trabalho de mercado (que produz renda), produção doméstica (tarefas não-pagas) e puro lazer. Como, então, vamos classificar tricô, jardinagem e cozinha? Enquanto preparar refeições em casa certamente pode ser muito mais barato do que jantar fora, e, portanto, considerado produção doméstica, o que dizer do fator "cozinhar por diversão"? Numa tentativa de abordar essas áreas cinzentas, os economistas Valerie A. Ramey e Neville Francis classificaram certas atividades domésticas como trabalho e outras como lazer. Em seu recente estudo "Um século de trabalho e lazer", eles utilizaram uma pesquisa de uso do tempo de 1985 em que as pessoas classificavam seu apreço por várias atividades em uma escala de 0 a 10. Tricô, jardinagem e cozinha ficaram no meio da escala, com notas de 7,7, 7,1 e 6,6, respectivamente. Ficaram muito atrás das três atividades favoritas - sexo, esportes e pesca (que marcaram 9,3, 9,2 e 9,1) - mas firmemente à frente de pagar contas, limpar a casa e, sim, lavar roupa (5,2, 4,9 e 4,8). Mas é aí que a coisa complica. Ramey e Francis decidiram que qualquer coisa em 7,3 ou acima é lazer, enquanto qualquer coisa abaixo é produção doméstica. (Tricô, portanto, tem nota de lazer; jardinagem e cozinha, não.) Isso nos levou a calcular que passamos menos tempo fazendo trabalho de mercado hoje do que em 1900, mas mais tempo em produção doméstica. Os homens, ao que parece, contribuíram fortemente para essa mudança: em 1920 os homens empregados passavam apenas duas ou três horas por semana em produção doméstica, mas 11 horas em média em 1965 e 16 horas em 2004. Mas quantas dessas horas de produção doméstica são na verdade horas de lazer? Esta parece ser a verdadeira questão: o que torna certa atividade trabalho para uma pessoa e lazer para outra? Sem querer desrespeitar Ramey e Francis, que tal esta definição alternativa? Esteja você sendo pago ou não, trabalho é o que outra pessoa lhe manda fazer e lazer é quando você decide fazer. Se você é o tipo de pessoa que gosta de cortar o próprio gramado, apesar de poder pagar alguém para fazer isso, considere como reagiria se seu vizinho lhe oferecesse a tarifa vigente para cortar o gramado dele. As probabilidades são de que você não aceitaria essa oferta de emprego. E assim muitas pessoas que podem pagar para não fazer trabalhos manuais preferem fazer porque... bem, por quê? Um biólogo evolucionista poderia dizer que está embutido em nossos genes um impulso para nos alimentarmos, vestirmos e dominar o meio ambiente. Um economista, porém, poderia afirmar que reagimos a incentivos que vão muito além dos financeiros; e que, felizmente, temos a liberdade de escolher quais tarefas queremos fazer pessoalmente. é claro que essas opções podem dizer muito sobre quem somos e de onde viemos. Um de nós dois, por exemplo (o economista, que mora em Chicago), cresceu confortavelmente em uma cidade do centro-oeste e tem boas memórias das visitas à pequena fazenda de seus avós. Esse autor recentemente comprou uma estufa para plantas hidropônicas. Ela custou cerca de US$ 150 e até hoje produziu aproximadamente 14 tomates-cereja - que, quando você inclui os custos das sementes, a eletricidade e até um salário nominal pelo trabalho, situa o preço médio de cada tomate em aproximadamente US$ 20. O outro de nós (o jornalista, que mora em Nova York) cresceu em uma pequena fazenda e participava habitualmente de todo tipo de trabalho agrícola. Portanto, ele tem poucos resquícios de vontade de plantar sua própria comida - mas gosta de passar horas fazendo compras e preparando um jantar especial para parentes e amigos. Esses jantares, mesmo que o trabalho fosse avaliado em apenas US$ 10 por hora, são mais caros do que uma refeição comprada pronta. Talvez algum dia o de Nova York possa preparar uma refeição com alguns tomates do de Chicago. Acrescente US$ 32 para a remessa em um dia e poderá ser uma das refeições mais caras dos últimos tempos - e certamente valerá cada centavo. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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