Freakonomics.com: Sobre o Brasil, Bin Laden e fumar em preto e branco

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Voando para o Brasil

Eu tenho um vôo marcado para São Paulo, Brasil, em setembro, para uma palestra, e depois para o Rio de Janeiro para a Bienal do Livro. Eu nunca estive no Brasil e aguardava ansiosamente pela viagem - isto é, até o espetacular acidente aéreo no Aeroporto Internacional de Congonhas em São Paulo, na semana passada, que matou todos os 187 passageiros.

Agora eu não estou mais.

Como alguém que voa bastante, tudo em que posso pensar é nas famílias das pessoas que morreram, que agora precisam enfrentar o fato de que pais e mães, filhos e filhas, amigos e vizinhos não voltarão para casa. O pesar deles provavelmente será intensificado pela própria investigação do acidente. Eu considerei seriamente cancelar minha viagem. Então comecei a argumentar comigo mesmo.

O racionalista em mim diz:

- As chances de um acidente aéreo fatal ainda são extraordinariamente baixas, apesar de maiores em alguns lugares. No início deste ano, a Associação Internacional do Transporte Aéreo divulgou um relatório notando que há um acidente aéreo por 1,5 milhão de vôos. É um percentual bem baixo, se você me perguntar.

- Provavelmente nunca houve um momento mais seguro para voar no Brasil do que após um acidente fatal, já que agora a segurança será a consideração mais importante.

- Eu estou certo que o problemático aeroporto de Congonhas de São Paulo nem mesmo é o aeroporto para o qual voarei. Meu palpite é que pousarei no Aeroporto Internacional de São Paulo.

Mas então o ser humano em mim diz: enquanto o avião estiver se preparando para pousar em São Paulo, será impossível não pensar no recente acidente. Também será impossível impedir meu coração de bater mais rápido ou de pensar na minha esposa, filhos e sei lá mais o quê.

O que você faria? Como persuadir a si mesmo a não ficar assustado em um caso como este? Ou ficar assustado é uma resposta saudável?

Stephen J. Dubner

Por US$ 25 milhões, sem chance. Mas por US$ 50 milhões... vou pensar a respeito

Pelo menos para mim, não há muitas perguntas que me levariam a responder: "Por US$ 25 milhões, sem chance. Mas por US$ 50 milhões... vou pensar a respeito".

Eu sei que US$ 25 milhões é tanto dinheiro que é difícil pensar no que faria com ele. Certamente seria bom ter os primeiros US$ 25 milhões. Eu não sei ao certo por que eu precisaria dos US$ 25 milhões adicionais.

O Senado americano espera que haja pessoas no Afeganistão ou Paquistão que não entendam desta forma.

Frustrado pelo fracasso da recompensa de US$ 25 milhões pela captura de Osama Bin Laden, o Senado aprovou no início deste mês por 87 votos contra 1 aumentar a recompensa por ele para US$ 50 milhões.

Em um certo grau, é preciso aplaudir esta medida.

Para um camponês paquistanês, US$ 50 milhões é uma quantia de dinheiro quase inimaginável. Para o governo americano, que está gastando US$ 10 bilhões por mês no Iraque, US$ 50 milhões é quase nada.

Se uma das principais metas da guerra no Iraque era se livrar de Saddam Hussein, pense em quão mais barato teria sido oferecer uma recompensa de, digamos, US$ 100 bilhões para qualquer um que o removesse do cargo por quaisquer meios que considerasse necessário. O próprio Saddam poderia ter aceitado graciosamente a oferta e trocado as dificuldades de governar um país pela pensão agradável de US$ 100 bilhões e uma mansão francesa bem mobiliada.

Por outro lado, se não consigo dizer a diferença entre US$ 25 milhões e US$ 50 milhões, eu não consigo imaginar que tal aumento fará um paquistanês pensar em colaborar com o governo americano. Muito mais importante, porém mais difícil, seria encontrar uma forma de tornar crível que o governo americano de fato pagará a recompensa.

Eu estou certo que há muitos critérios na decisão de para quem e quanto será pago de tal recompensa. Por exemplo, se eu fizer algumas análises estatísticas que de certa forma estreitem seu paradeiro para cerca de 1.000 metros, e se então os fuzileiros navais cercassem a área e o encontrassem, eu receberia o dinheiro?

Eu não estou certo de que eles o pagariam para mim. Eu tenho certeza que o camponês paquistanês que tem alguma informação sobre Bin Laden provavelmente compartilha minhas dúvidas.

Steven D. Levitt

O preço de fumar em preto e branco

No mês passado no "New York Times", Anthony Ramirez noticiou o declínio acentuado do fumo em Nova York. Segundo um estudo que entrevistou 10 mil moradores da cidade, apenas 17,5% da população adulta atualmente fuma, em comparação a 21,6% em 2002.

O que causou tamanha queda?

O artigo oferece três causas potenciais: as propagandas antitabagismo na TV, a proibição do fumo em restaurantes e o pesado aumento de impostos sobre os cigarros. Eu aposto meu dinheiro no aumento de impostos.

Segundo o artigo, o preço médio de um maço de cigarros em Nova York atualmente é de US$ 6,85 (cerca de R$ 12,75). Grande parte da pesquisa recente sobre o assunto mostra que aumentos de impostos de fato têm um efeito mais forte sobre o consumo de cigarros, especialmente entre os jovens. Apesar do artigo do "Times" não tratar do fumo entre menores, ele mostra uma queda acentuada na faixa etária entre 18 e 24 anos: de 23,8% em 2002 para 15,5% em 2006.

Também é interessante notar que os brancos em Nova York continuam fumando mais que os negros. Aqui estão os números:

-Brancos em 2002: 23,9%. Brancos em 2006: 19,8%.

-Negros em 2002: 20,8%. Negros em 2006: 17,7%.

Pode ser que o custo dos cigarros, e os recentes impostos em particular, afetem mais os negros do que os brancos, já que a renda per capita dos negros é significativamente mais baixa que a dos brancos.

O único aspecto negativo que vejo para a queda acentuada do fumo em Nova York (a menos que você seja um grande acionista das empresas de tabaco) é que tal queda pode estar contribuindo para as pessoas ficarem mais gordas. Mas não se preocupe, pois o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, já está cuidando disto.

Stephen J. Dubner George El Khouri Andolfato

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt são os autores de 'Freakonomics' e 'Superfreakonomics'. O livro mais recente deles é 'When to Rob a Bank... and 131 More Warped Suggestions and Well-Intended Rants'.

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