Freakonomics: A questão da cirurgia de estômago

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Deborah Kattler Kupetz é uma empresária de Los Angeles e mãe de três filhos que tenta controlar o seu peso. Foi por isso que ela recentemente comprou dois modelos realistas de plástico de gordura corporal humana de uma companhia de produtos médicos, uma ampola de 450 gramas e uma outra de 2,7 quilos, e colocou-as à vista na sua cozinha.

Ao fazer tal coisa, Kattler Kupetz não parece ter muita coisa em comum com Han Xin, o lendário general que viveu mais de 2.000 anos atrás. Mas ela tem.

Ao rumar para uma batalha, Han posicionava os seus soldados com as costas voltadas para um rio, de maneira que eles não pudessem recuar. Sem nenhuma outra opção, a não ser atacar de frente o inimigo, era exatamente isso o que faziam os soldados de Han.

Isso é o que os economistas chamam de dispositivo de compromisso - um artifício com o qual a pessoa fica presa a uma determinada linha de ação que, em situação normal, poderia não escolher, mas que produz um resultado desejado. Embora não tão severa quanto a estratégia de Han, a compra das ampolas de gordura por parte de Kattler Kupetz constitui-se também em um dispositivo de compromisso: durante toda refeição, as ampolas a obrigam a visualizar a aparência de alguns quilos extras de gordura.

É difícil imaginar alguém que utilize tão avidamente os dispositivos de compromisso como o norte-americano obeso. Talvez você tenha alguma vez feito uma inscrição de um ano em uma academia de ginástica ou comprado um suprimento de três meses de alimentos saudáveis que são entregues na sua porta. Talvez tenha participado com amigos de uma dieta grupal ou até mesmo lacrado a geladeira com fita adesiva. A popular nova pílula da perda de peso, a Alli, que bloqueia parcialmente a absorção de gordura pelo corpo, é um dispositivo de compromisso com conseqüências reais: uma pessoa que tomar a Alli e depois ingerir muitos alimentos gordurosos poderá passar por uma crise de diarréia gordurosa.

Então, como estão funcionando esses dispositivos de compromisso? Não muito bem.

Segundo o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos, um em cada três adultos norte-americanos é obeso. E é por isso que tanta gente começou a adotar um dispositivo de compromisso bem mais drástico, algo que o próprio Han Xin provavelmente aplaudiria: a cirurgia. Neste ano, mais de 200 mil operação para perda de peso, ou bariátricas, foram realizadas nos Estados Unidos, o que representa um aumento de quase dez vezes em apenas uma década. Os tipos mais notáveis são a ponte gástrica e a faixa gástrica laparoscópica ajustável (ou "Lap-Band"), embora existam alguns outros. Cada um desses tipos funciona de forma um pouco diferente, mas o objetivo geral é reduzir a capacidade do estômago e, conseqüentemente, diminuir o apetite. Se tudo correr bem, a cirurgia bariátrica gera uma substancial perda de peso, especialmente nos indivíduos que sofrem de obesidade mórbida.

Marc Bessler, diretor do Centro de Cirurgia de Obesidade do Centro Médico de Nova York-Presbiteriano da Universidade Columbia, é um inovador neste campo, realizando pessoalmente 200 operações bariátricas por ano. Como o seu pai sofria de obesidade mórbida, Bessler se dedica ao seu trabalho com um afinco especial.

"Durante todo o período em que eu crescia, ele era tão gordo que não conseguia jogar bola conosco", conta Bessler. "Ele morreu aos 54 anos de idade de câncer do cólon. A doença pode ter sido descoberta tardiamente devido à sua obesidade".

Bessler reconhece que a cirurgia bariátrica tem uma história complicada. "No passado, ela matou pessoas, e não funcionou", afirma o médico. "No final da década de 1950, e no início da de 1960, ainda que ela fosse efetiva para reduzir o peso, havia uma grande quantidade de complicações e mortalidade. A seguir, no final dos anos 70 e início dos 80, a qualidade das cirurgias melhorou muito, mas elas não funcionavam de fato muito bem. O peso acabava retornando".

Inovações tecnológicas, especialmente o uso de procedimentos laparoscópicos, resultaram em ganhos consideráveis em termos de segurança e eficácia. Embora a operação ainda seja perigosa em algumas circunstâncias - um estudo revelou que durante as primeiras 19 cirurgias bariátricas realizadas por um médico, os pacientes correm um risco de morte cinco vezes maior do que no caso dos pacientes operados posteriormente pelo mesmo cirurgião -, o índice médio de mortalidade é atualmente de cerca de 1%.

Mas, mesmo se a cirurgia bariátrica não matar o paciente, ainda há coisas com as quais se preocupar.

A operação muitas vezes causa complicações - tanto fisiológicas quanto psicológicas. Uma fração significante de pacientes pós-bariátricos adquire novos vícios como jogo, fumo, compulsão por comprar produtos ou alcoolismo, assim que deixam de ser viciadas em comer. Em certos casos, algumas pessoas também aprendem a burlar a cirurgia, ingerindo calorias em forma líquida (por exemplo, ingerindo xarope de chocolate diretamente da lata) ou simplesmente bebendo e comendo ao mesmo tempo. A cirurgia é também muito mais cara do que até mesmo a mais sofisticada dieta. Uma cirurgia do tipo Lap-Band custa cerca de US$ 20 mil, e uma ponte gástrica aproximadamente US$ 30 mil.

Mas Bessler e outros defensores da cirurgia bariátrica argumentam que os prós superam os contras, especialmente nos casos de pessoas que sofrem de obesidade mórbida, cuja qualidade de vida realmente deixa a desejar. Embora perguntar a um cirurgião bariátrico se a cirurgia bariátrica é uma boa idéia seja algo semelhante a indagar a um barbeiro se você precisa de um corte de cabelo, os dados parecem confirmar as suas alegações: não só a maioria dos pacientes perde uma quantidade significativa de peso, mas os outros problemas de saúde que acompanham a obesidade são com freqüência aliviados.

Uma análise recente revelou que 77% dos pacientes de cirurgia bariátrica que sofrem de diabetes do tipo 2 experimentaram uma "solução completa" do diabetes após a operação. A cirurgia também ajuda a eliminar hipertensão e apnéia do sono. Sob um ponto de vista econômico, as pesquisas sugerem que a operação se paga em alguns anos porque um paciente pós-bariátrico passa a exigir menos cuidados médicos e remédios. É por isso que algumas companhias de seguros cobrem a cirurgia bariátrica - e à medida que um número maior fizer a mesma coisa, isso gerará um aumento acentuado do número de operações. Essa é uma notícia particularmente positiva para os hospitais que já passaram a depender do dinheiro gerado pelas cirurgias bariátricas.

Existem pelo menos duas maneiras de se pensar a respeito do aumento do número de cirurgias bariátricas. Por um lado, não é fantástico que a tecnologia tenha mais uma vez resolvido um problema humano que provoca perplexidade? Agora as pessoas podem comer tudo o que quiserem por anos a fio e, a seguir, devido às mãos de um cirurgião talentoso, dar adeus à gordura acumulada. É claro que há riscos e despesas, mas, mesmo assim, esses não são fatores intrínsecos ao progresso?

Por outro lado, por que recorrer a uma medida tão drástica? Uma coisa é gastar bilhões de dólares com uma doença cujas causa e cura são um mistério. Mas este não é o caso em se tratando da cirurgia bariátrica. Até mesmo aqueles que argumentam que a obesidade possui um forte componente genético precisam reconhecer, como Bessler, que "a quantidade de obesidade disparou nos últimos 30 anos, mas a nossa estrutura genética certamente não mudou nesse período".

Portanto, a causa é, essencialmente, o fato de as pessoas comerem demais: e a cura é, basicamente, comer menos. Mas a cirurgia bariátrica parece ter se encaixado muito bem no espírito do nosso tempo. Levemos em conta, por exemplo, os espetáculos de jogos que assistimos. O modelo antigo era o "Jeopardy!", que exigia que o jogador vencesse os adversários e, a seguir, retirasse apenas a quantidade exata de conhecimento trivial da sua vasta rede de dados cerebrais acumulados. O atual modelo é o "Deal or No Deal", que não exige talento algum além de escolher aleatoriamente um número em uma maleta.

Talvez o problema seja que, apesar das dietas, regimes e ginásticas que surgiram durante a nossa presente onda nacional de obesidade, a solução não cirúrgica correta simplesmente ainda não foi encontrada. Portanto, eis aqui uma sugestão: pendure no pescoço um saco plástico contendo um pequeno lenço impregnado do odor de algo profundamente repugnante (para não ofender alguém que esteja neste momento lendo durante o café da manhã, não daremos nenhuma sugestão específica, mas você pode sem dúvida pensar no odor mais horrível que lhe passar pela cabeça).

Toda vez que você estiver prestes a abrir a geladeira ou olhar um menu, abra a sacola e dê uma cheirada. Bom, este é sem dúvida um dispositivo de compromisso. UOL

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt são os autores de 'Freakonomics' e 'Superfreakonomics'. O livro mais recente deles é 'When to Rob a Bank... and 131 More Warped Suggestions and Well-Intended Rants'.

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