Freakonomics.com: o básico da atual crise financeira

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Sou economista, mas não tenho a menor idéia do que a atual crise financeira nos EUA significa, então pedi respostas a Douglas W. Diamond e Anil K. Kashyap, meus colegas economistas da Pós-Graduação em Negócios da Universidade de Chicago.

Nesta coluna, os convidados escrevem sobre o que aconteceu no setor financeiro, por que aconteceu e o que significa para as pessoas comuns.

Stephen D. Levitt

Vimos o período mais notável de intervenção do governo americano no sistema financeiro desde a Grande Depressão. Aqui vão algumas perguntas freqüentes, junto com nossas melhores respostas.

1. O que aconteceu de tão extraordinário?

O episódio começou quando o Departamento do Tesouro nacionalizou Fannie Mae e Freddie Mac, no dia 7 de setembro. Seus ativos combinados são de mais de US$ 5 trilhões (em torno de R$ 9 trilhões). Essas firmas ajudam a garantir a maior parte das hipotecas nos EUA.

No dia 15 de setembro, o maior pedido de falência da história dos EUA foi feito pelo Lehman Brothers. O Lehman tinha mais de US$ 600 bilhões (cerca de R$ 1 trilhão) em ativos e 26 mil empregados.

No dia 16 de setembro, o Federal Reserve (banco central americano) fez um empréstimo ponte para a maior empresa seguradora do mundo, a AIG. A empresa será enxugada com a venda de ativos nos próximos dois anos. O Fed nunca havia afirmado sua autoridade para intervir nesta escala, desta forma ou em uma companhia tão distante de sua autoridade supervisora.

2. Por que essas coisas aconteceram?

O denominador comum foi a incapacidade das firmas de conseguir financiamento. As razões, contudo, diferiram caso a caso.

Fannie e Freddie tinham um papel único na economia. Eles ajudavam a garantir hipotecas e patrocinavam essas garantias emitindo sua própria dívida, que era tacitamente protegida pelo governo.

As garantias do governo permitiram ao Fannie e ao Freddie assumirem uma dívida muito maior do que uma empresa normal. A princípio, eles também deveriam reduzir o custo hipotecários dos proprietários, mas, em vez disso, parecem ter usado sua vantagem para extrair altos lucros e expulsar o setor privado do mercado de hipotecas "regulares".

No último ano, tornou-se claro que seu estreito capital não era suficiente para cobrir as perdas das hipotecas de risco. A enorme quantidade de dívida espalhada teria causado colapsos em toda parte, no caso de um calote; então, o Tesouro anunciou que ia explicitamente garantir a dívida.

Entretanto, uma vez que a dívida foi garantida, nenhum investidor teve a disposição de ajudar a tamponar as perdas. Assim, o Tesouro teve que assumir as empresas.

A falência do Lehman aconteceu quando não podia nem mais pegar emprestado. O Lehman estava rolando ao menos US$ 100 bilhões (em torno de R$ 180 bilhões) por mês para financiar seus investimentos em imóveis, bônus, ações e títulos financeiros.

Por meses, investidores temerosos estiveram convencidos que as perdas imobiliárias do Lehman eram maiores do que admitia. Quando emergiram mais notícias ruins do mercado imobiliário, inclusive as perdas no Freddie Mac e no Fannie Mae, essa opinião espalhou-se.

Os custos dos empréstimos do Lehman aumentaram, e suas ações caíram. Com a ameaça iminente de rebaixamento de sua classificação de crédito, restrições legais impediriam certas firmas de continuarem a emprestar para o Lehman.

A AIG. teve que levantar dinheiro porque tinha assinado contratos de seguro de US$ 57 bilhões (cerca de R$ 102 bilhões) cujos pagamentos dependiam das perdas nos investimentos relacionados às hipotecas de risco. Apesar de seus principais negócios e outras subsidiárias estarem bem, esses contratos, chamados de credit default swaps (CDS), provocavam uma hemorragia.

Ainda havia a possibilidade de maiores perdas, se o mercado imobiliário continuasse a se deteriorar. As agências de classificação de crédito rebaixaram a dívida da AIG e os contratos de seguros exigiam que a empresa demonstrasse que tinha garantias para cumpri-los.

O segundo problema que a AIG enfrentava era que, se não conseguisse apresentar garantias, considerar-se-ia que tinha dado calote nos CDS.

Dado o enorme tamanho dos contratos e o número de partes envolvidas, o Fed decidiu que um calote da AIG provocaria um caos no sistema financeiro e causaria falências contagiosas. O Fed, então, emprestou US$ 85 bilhões (em torno de R$ 150 bilhões) para a AIG .

3. Por que o Tesouro e o Fed deixaram o Lehman falir, mas resgataram o Bear Stearns, Fannie Mae, Freddie Mac e a AIG?

O Bear Stearns foi resgatado por duas razões. Primeiramente, porque o Fed - que não é regulador do Bear - tinha informações muito imperfeitas sobre o que estava acontecendo na empresa.

O segundo problema era que as partes envolvidas em muitas transações do Bear não estavam preparadas para a falência súbita do Bear. O Fed argumentou que o resgate era um evento raro, que aconteceria uma vez a cada geração.

Quando o Bear foi resgatado, o Fed criou uma nova via de empréstimos para financiar outros bancos de investimento. Essa via foi modificada no dia 14 de setembro, para que pudesse agüentar uma falência contando com as proteções do código de falência. Assim, o Lehman vendeu ativos operacionais separadamente de seus títulos tóxicos lastreados em hipotecas.

Se o governo tivesse resgatado o Lehman, estaria negando a alegação que o resgate do Bear era extraordinário; também estaria admitindo que nem a nova via que montou nem os outros passos que tomou para tornar os mercados mais robustos eram confiáveis.

4. Eu não trabalho no Lehman ou na AIG e não tenho muitas ações. Há motivos para eu me importar?

A preocupação das pessoas é com a incapacidade coletiva das principais instituições financeiras de obterem financiamento.

Quando seus próprios fundos secam, as financeiras restantes ficam muito mais cautelosas em oferecer crédito para empresas normais ou indivíduos. Então, mesmo para as pessoas cujas circunstâncias não mudaram muito, o custo do crédito vai subir e será muito mais difícil de obtê-lo.

Isso retardará o crescimento.

5. O que significa "prosseguir" para o Fed e para o Tesouro?

Uma leitura razoável dos planos de resgate sugere uma regra simples: se uma firma está em vias de colapso e seus laços com o sistema financeiro significariam uma cascata de caos, a firma será salva. A falência será permitida apenas se o fracasso puder ser contido.

6. O que significa "prosseguir" para os mercados?

Depois do Lehman, as principais firmas de serviços financeiros devem compreender que precisam administrar seus próprios riscos com mais cautela. Isso inclui tanto garantir fundos adequados quanto ter mais cuidado na escolha de parceiros de negócios de confiança.

7. Quando essa confusão vai terminar?

A incapacidade de assegurar fundos de curto prazo fundamentalmente nasce da falta de capital. As maiores instituições financeiras estão coletivamente sem dinheiro, e mais é necessário para evitar falências ou vendas. Deborah Weinberg

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt são os autores de 'Freakonomics' e 'Superfreakonomics'. O livro mais recente deles é 'When to Rob a Bank... and 131 More Warped Suggestions and Well-Intended Rants'.

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