Freakonomics.com: quando é válido votar em um candidato por causa da raça?

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Recentemente o "New York Times" publicou uma série de artigos a respeito do papel desempenhado pela raça dos indivíduos na atual eleição presidencial, incluindo uma matéria sobre a raça e a urna, escrito por Adam Nagourney, que inclui a seguinte passagem:

"Saul Anuzis, líder do Partido Republicano em Michigan, disse que já se acostumou a ouvir sussurros de eleitores dizendo que não votariam em Obama porque ele é negro. 'Honestamente, nós não conhecemos o tamanho deste problema', disse Anuzis. Mas o deputado Artur Davis, um democrata afro-americano do Alabama, disse que a raça não é mais a barreira automática que costumava ser para o ingresso na Casa Branca. Existe um grupo de eleitores que não votará em pessoas de raça diferente', afirma Davis. 'Mas eu creio que atualmente o número de indivíduos que pensam desta forma é o menor que já tivemos na história'".

O que é interessante para mim, e muitas vezes não é comentado, é que o "grupo de eleitores que não votarão em pessoas de outra raça" pode descrever melhor os eleitores negros do que os brancos.

É verdade que, com freqüência, os eleitores negros não contam com a opção de um candidato negro em quem votar. Mas pensem no que aconteceu nas eleições primárias democratas deste ano, quando eles tiveram tal opção. Entre os eleitores negros, o senador Obama conquistou vitórias estrondosas na disputa com a senadora Hillary Clinton em quase todos os Estados. Eis aqui alguns dos Estados nos quais esta tendência foi mais marcante:
 

  • Na Pensilvânia, Obama conquistou 92% dos votos negros e 38% dos votos brancos.
  • Em Indiana, 92% dos votos negros e 39% dos brancos.
  • Em Illinois, 94% dos negros e 62% dos brancos.
  • Em Ohio, entre 87% e 91% dos votos negros e entre 34% e 44% dos brancos.
  • Na Carolina do Norte, 91% dos votos negros e de 33% a 44% dos brancos.

    (Nota: em algumas pesquisas de boca de urna, a raça do eleitor é registrada juntamente com o seu sexo, não sendo entretanto fornecida como um total independente. Em Ohio, por exemplo, Obama saiu-se melhor entre as mulheres negras do que entre os homens negros, e melhor entre os homens brancos do que entre as mulheres brancas).

    Assim, nesses Estados, vários dos quais serão altamente disputados na eleição que está por vir, mais de nove entre cada 10 eleitores negros votaram em candidatos negros, enquanto que de três a seis entre cada 10 eleitores brancos votaram em um candidato negro.

    Isso me lembra do desconforto que os torcedores brancos sentem em relação ao desejo de dar gritos altos de apoio a um ou dois atletas brancos de um time da NBA. Isso seria um episódio de racismo - ou apenas mais um exemplo de votação na própria raça?


    McCain, a mídia, o dinheiro e Montesinos (e Obama também)

    Enquanto a campanha de Obama continua arrecadando milhões de dólares, uma coisa fica clara: caso ele vença a eleição, muita gente certamente atribuirá pelo menos uma parte da sua vitória ao dinheiro. Mas será que tal avaliação é correta?

    Em "Freakonomics", nós debruçamo-nos sobre esse tópico . O nosso argumento baseou-se em uma pesquisa de Steve Levitt em que ele analisou disputas por cargos legislativos na quais dois oponentes enfrentaram-se mais de uma vez. Eis aqui por que essa pesquisa é interessante:

    Se o candidato A vencer e gastar 50% mais do que o candidato B, poderia ser natural assumir que foi o dinheiro que fez a diferença. Mas como saber de fato? É difícil separar a atração natural exercida por um candidato da atração criada pelo dinheiro gasto com organização da campanha, propagandas, etc. Assim ao acompanhar o mesmo desafio repetidas vezes - ou seja, campanhas nas quais a atração natural exercida pelos candidatos ficou mais ou menos constante - Levitt foi capaz de isolar o impacto do dinheiro.

    Eis aqui como ele expôs os resultados:

    "A quantidade de dinheiro gasto pelos candidatos dificilmente tem qualquer importância. Um candidato vencedor pode reduzir os seus gastos pela metade e perder apenas 1% dos votos. Por outro lado, um candidato que está perdendo e dobra os seus gastos pode esperar uma migração de votos a seu favor de apenas 1%".

    O que realmente importa para um candidato político não é o quanto ele gasta, e sim quem ele é.

    Em outras palavras: não é que a arrecadação de muito dinheiro ajude um candidato a ser mais atraente ao eleitorado, e, conseqüentemente, a ter um melhor resultado; e sim que os melhores candidatos arrecadam mais dinheiro porque são mais atraentes sob o ponto de vista político. Basta lembrar: há apenas um ano, Mitt Romney estava nadando em dinheiro, e o senador John McCain encontrava-se praticamente quebrado. Se o dinheiro fosse tão crucial para as eleições, não seria de se esperar que McCain não tivesse conquistado a vaga republicana de candidato à presidência?

    É também interessante observar que Obama está usando a mídia - vejam, por exemplo, o plano da sua campanha no sentido de apresentar um informe comercial de 30 minutos no final de outubro em horário nobre de televisão - para divulgar a sua mensagem, enquanto parte da mensagem da campanha de McCain consiste em afirmar que a própria mídia é a inimiga.

    A atitude anti-mídia da chapa McCain/Palin tem conseqüências no circuito da campanha política. Vejamos por exemplo este artigo de 7 de outubro do jornal "The Washington Post" a respeito de um recente evento da campanha de Palin:

    "Os ataques rotineiros de Palin contra a mídia começaram a traduzir-se em fatos lamentáveis. Em Clearwater, os jornalistas que chegavam foram recebidos com vaias e assédios por uma multidão de cerca de 3.000 pessoas. A seguir Palin culpou as perguntas de Katie Couric pela sua 'nada bem-sucedida entrevista com um tipo de mídia tradicional'.

    Nesse momento, os apoiadores de Palin voltaram-se contra os jornalistas na área de imprensa, brandindo thunder sticks e gritando palavrões. Outros xingaram uma equipe de televisão. Um apoiador de Palin gritou uma ofensa de cunho racista contra o técnico de som de uma rede de televisão e disse a ele, "Sente-se, boy".

    Mas isso não significa que a campanha McCain-Palin não tenha nada a ganhar com a mídia. Tanto McCain quanto Palin capitalizaram uma matéria publicada no "New York Times" que falava sobre a relação entre Obama e William Ayers, que no passado foi um terrorista nacional.

    Portanto, qual é a forma correta de pensar na relação entre o dinheiro, a mídia e os resultados das campanhas políticas? Será que Obama está sendo sábio ao investir tanto nos meios de comunicação? E McCain é inteligente ao arriscar-se a ficar alienado em relação à mídia? Será que todo esse dinheiro e energia não seriam mais bem investidos em alguma outra coisa?

    Talvez haja alguma sabedoria a ser colhida de um estranho incidente ocorrido no Peru em um passado não muito distante. Há alguns anos, os economistas John McMillan e Pablo Zoido redigiram um trabalho fantasticamente interessante sobre Vladimiro Montesinos, que foi chefe do serviço secreto peruano no governo do presidente Alberto Fujimori.

    Montesinos oferecia rotineiramente propinas a quem quer que pudesse ajudar Fujimori a manter-se no poder, e ele também mantinha registros dessas propinas - chegando até a filmar as transações. Infelizmente, para ele, Montesinos foi pego, e McMillan e Zoido puderam analisar os dados referentes às propinas.

    Para quem você acha que Montesinos deu mais dinheiro?

    Eis a resposta, resumida por Richard Morin no "Washington Post":
    "Você não chegou nem perto. 'A propina paga a uma única rede de televisão foi quatro vezes maior do que o total das propinas pagas aos políticos de oposição', descobriram os economistas. 'com a revelação desta preferência, ficou claro que o maior obstáculo ao poder do governo era a mídia noticiosa'".

    Assim, embora Obama esteja torrando milhões de dólares, pelo menos parece que ele está desperdiçando dinheiro na direção certa. Quanto a McCain: bem, ainda não é muito tarde para ele começar a mandar alguma coisinha para os seus amigos na mídia.

    Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt são os autores de "Freakonomics: A Rogue Economist Explores the Hidden Side of Everything" ("Freakonomics: Um Economistas Renegado Explora o Lado Oculto de Tudo"). UOL

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt são os autores de 'Freakonomics' e 'Superfreakonomics'. O livro mais recente deles é 'When to Rob a Bank... and 131 More Warped Suggestions and Well-Intended Rants'.

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