Exclusivo para assinantes UOL

Freakonomics.com: Um P&R com o historiador político Julian Zelizer

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Na semana passada, nós solicitamos aos leitores do Freakonomics que apresentassem perguntas ao historiador político Julian Zelizer, professor de história e assuntos públicos da Universidade de Princeton. Zelizer é o autor de vários livros, mais recentemente "Rightward Bound: Making America Conservative in the 1970s" (salto à direita: tornando a América conservadora nos anos 70), juntamente com Bruce J. Schulman, da Universidade de Boston. Muitas das perguntas, realizadas em meio a tempos politicamente agitados, apresentavam o espírito do momento. P.: Algum outro presidente americano teve um sapato arremessado contra sua cabeça? R.: é hora de alguma pesquisa histórica! P.: Por que, na presidência moderna, o presidente em exercício deve ajudar na "transição" do presidente eleito para a Casa Branca? Onde na história americana este precedente foi estabelecido? R.: Há uma expectativa de que o presidência em exercício e seus assessores ajudarão o presidente eleito. Esta expectativa aumentou no século 20, à medida que aumentaram as responsabilidades do governo, cresceu o número de políticas e expandiu o papel dos Estados Unidos no exterior. O presidente eleito está simplesmente diante de uma maior responsabilidade desde que assume, de forma que o presidente em exercício precisa ser construtivo na ajuda para que seu sucessor aprenda como as coisas funcionam em Washington. Todavia, a interação entre os presidentes costumava ser limitada. O caso mais famoso foi a recusa de Franklin Roosevelt em interagir com Herbert Hoover, mesmo quando o presidente em exercício implorou por sua ajuda no apoio às suas políticas. Jimmy Carter e Ronald Reagan se encontraram uma única vez e o encontro foi gélido. Reagan nem mesmo fez anotações enquanto Carter lhe informava sobre os principais desafios diante da Casa Branca. Este ano foi incomum, com um alto grau de interação na transição -não apenas entre os presidentes, mas também entre suas equipes inteiras. O motivo mais importante para isso é a existência de uma grande crise econômica e a continuidade da ameaça internacional do terrorismo enfrentada pelo país. O atual presidente é muito impopular e carece de força suficiente para conseguir que as coisas sejam feitas em seu mês final. A combinação desses fatores facilitou um processo de transição muito avançado e integrado. P.: O que você acha do uso pela equipe de transição de Obama do site Change.gov para obter um retorno dos cidadãos e postar vídeos das reuniões e coletivas de imprensa? Este é um impulso sem precedente na direção da inclusão democrática ou ocorreram casos suficientes prenunciando este desdobramento? R.: Em certos aspectos, nós podemos situar este site em dois desdobramentos políticos diferentes da política americana contemporânea. O primeiro é que o uso por Obama do site Change.gov é um capítulo em uma história mais longa de presidentes tentando entrar em contato direto com os eleitores do que por meio do establishment do partido e, mais recentemente, por meio da mídia. Desde a época de Theodore Roosevelt, e altamente acelerado durante Franklin Roosevelt, os presidentes lutam para encontrar novos métodos de comunicação, para que possam vender suas idéias diretamente ao povo sem dependerem dos líderes partidários. Cientistas políticos e historiadores traçaram a separação gradual entre o presidente e o partido. Desde o advento da televisão a cabo e da Internet, nós vemos novos esforços por parte dos presidentes para contornar a grande imprensa usando canais especializados e sites de Internet para transmitir sua mensagem. O esforço Change.gov faz parte dessa história. A segunda forma de pensar a respeito do site é como parte de outra tradição -uma que tenta envolver os cidadãos mais diretamente na moldagem das políticas presidenciais. Por exemplo, no início dos anos 70, foram feitas reformas no processo de indicação presidencial de forma que as primárias se tornaram a forma dos candidatos serem escolhidos em vez das convenções partidárias. Além disso, os democratas mudaram as regras dos delegados para que mais mulheres, afro-americanos e minorias tivessem uma influência garantida. Durante os anos 80, os republicanos conservadores usaram programas de rádio com participação dos ouvintes para criar uma arena pública para a direita americana poder expressar suas idéias e críticas ao governo. A característica distinta da Internet é que qualquer pessoa pode enviar facilmente postagens ou e-mails para expressar seus sentimentos a respeito do que o futuro governo está fazendo. P.: Na escola primária nos anos 40, eu aprendi que Benjamin Franklin (supostamente) teria dito que "com sorte, esta Constituição poderá durar 200 anos". Eu não consigo encontrar esta citação, mas você vê algum caso que possa levar a uma revisão da Constituição dos Estados Unidos em conseqüência de um desdobramento doméstico ou mundial? R.: Não, não vejo. A Constituição provou ser um documento notavelmente eficaz; no geral, a saúde de nosso sistema político é forte. Há muitas, muitas áreas onde podemos ter reformas, mas não há motivo para uma reforma na estrutura básica de nosso sistema. P.: Você pode prever um futuro livro chamado "Leftward Bound: Making America Progressive in the 2010s" (salto à esquerda: tornando a América progressista nos anos 2010)? R.: Ainda não sabemos? é seguro dizer que o conservadorismo está passando no momento por uma verdadeira crise política. Em um artigo publicado na edição de 20 de outubro da revista "Newsweek", intitulado "Aqui Vamos Nós de Novo -Talvez" e comparando 2008 a 1980, eu tracei os motivos que acho que levaram os conservadores para a atual situação, variando de políticas desacreditadas e liderança fracassada até a ausência de idéias mais amplas que possam definir o movimento conservador. A campanha McCain-Palin foi tanto um reflexo do atual estado do partido quanto da condição política superior dos democratas. Mas isso não significa que estamos em um salto para a esquerda. Olhando para os anos 70, uma das principais lições de nosso livro é que não podemos presumir que alguma mudança nas áreas políticas é inevitável. A mobilização conservadora dos anos 70 foi apenas isso -uma mobilização onde a direita teve sucesso em conseqüência de batalhas duramente travadas e vitórias-chave ao longo do tempo. O liberalismo não cedeu facilmente e de muitas formas a ideologia permaneceu mais vibrante do que nos lembramos. A eleição de 2008 foi claramente um grande passo para as vozes progressistas dentro do Partido Democrata. Mas como os presidentes conservadores aprenderam após os anos 70, os desafios de governança podem ser extraordinariamente difíceis e oponentes derrotados podem voltar com força. (Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt são os autores de "Freakonomics: O Lado Oculto e Inesperado de Tudo o Que Nos Afeta". Para mais Freakonomics, visite o site www.freakonomics.com.) George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos