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Freakonomics.com: perguntas a Aravind Adiga, autor de 'O Tigre Branco'

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Na semana passada, solicitamos perguntas no site Freakonomics.com para Aravind Adiga, autor de "O Tigre Branco", um romance tragicômico ruidoso sobre a índia moderna que conquistou o prêmio Man Booker em 2008. Em suas respostas abaixo, Adiga descreve a índia e sua cultura com a mesma franqueza e desafio que marcam "O Tigre Branco". Com as eleições indianas, que duram um mês, em andamento, algumas de suas respostas sobre política são especialmente ressonantes. Obrigado a todos os envolvidos. Pergunta: Por que os Estados Unidos praticamente se amarram pelo quadril à China, quando a índia, a maior democracia do mundo, parece uma parceira mais adequada? Trata-se apenas de economia ou é um resquício da aliança entre índia e União Soviética do passado? Resposta: A índia e os Estados Unidos são aliados naturais em praticamente tudo. Ambos os países são liberais, tolerantes e democráticos em um mundo onde democracia, liberdade de expressão e tolerância religiosa estão cada vez mais ameaçados. Mas a relação entre os países foi pobre por muitos anos. é uma verdadeira pena, e a culpa é de ambos os lados: os Estados Unidos foram, por décadas, os maiores doadores militares ao Paquistão, um país islâmico governado por militares que patrocina o terrorismo dentro da índia. Por sua vez, os diplomatas e políticos socialistas ineptos da índia cometeram tolamente abusos contra os Estados Unidos com frequência demais na ONU e outros fóruns internacionais. O que me deixa satisfeito é que houve uma melhoria dramática nas relações entre índia e Estados Unidos nos últimos anos, e uma amizade real teve início entre os países. Mas os autores de políticas americanos devem ser sensíveis ao impacto negativo da retórica rudimentar, racista e antiterceirização sobre o sentimento indiano - e à continuidade da ajuda militar americana ao Paquistão, que ainda permite que terroristas jihadistas, como os que atacaram Mumbai no ano passado e mataram centenas de homens e mulheres inocentes, treinem dentro de seu território. A índia, por sua vez, não deve pedir concessões demais aos Estados Unidos e deve se livrar de qualquer vestígio do velho antiamericanismo automático. Com dar e receber, este relacionamento pode crescer no mais importante deste século. Pergunta: Onde você vê a índia nos próximos 25 anos - em relações humanas, cultural, política e tecnologicamente? Resposta:Eu acho que esta é a pergunta mais difícil de todas de responder, e penso a respeito dela todo dia. O que eu temo é que os indianos demais de classe média olham para alguns indicadores de prosperidade, como a disseminação de telefones celulares no país, ao mesmo tempo que ignoram outros indicadores, como o aumento da escassez de água doce. O cenário de pior caso é a índia desperdiçar seu imenso potencial e acabar como um país significativamente mais rico do que hoje, mas com profundas e persistentes divisões de classe, níveis mais altos de criminalidade e inquietação social, assim como milhões que nunca terão o acesso ao ensino e liberdade econômica que lhes são de direito. Em outras palavras, a índia se transforme em um imenso país sul-americano no coração da ásia. A índia pode se sair muito, muito melhor do que isso, e eu espero que seus cidadãos forcem seu governo a lhes dar este futuro melhor. Pergunta: A índia moderna está tão segregada em relação a classe e casta quanto os Estados Unidos estavam nos anos 50 e 60 em relação a raça? Você vê esta situação melhorando ou regredindo? Uma versão indiana de Barack Obama, isto é, um membro de uma minoria, teria chance de ser eleito ao mais alto cargo da índia, ou sua classe política é estática demais? Resposta:O sistema de castas está mudando rapidamente na índia e se tornou mais fluido. Há a perspectiva real de Mayawati, uma política da comunidade dalit (a antiga classe mais baixa da sociedade hindu), se tornar primeira-ministra após esta eleição. Entretanto, eu acho que não devemos olhar para a casta ou religião dos líderes da índia; nós devemos avaliar o que fazem pelos pobres assim que são eleitos. Mayawati, por exemplo, é a líder de um grande Estado indiano há muito tempo e possui grande poder lá, mas ela fez pouco pelos pobres durante sua permanência no poder; todos os indicadores apontam que a condição dos pobres piorou sob seu governo. Não há alternativa para boa governança na solução dos problemas colossais da índia - e apenas eleger alguém de uma casta em particular não é solução. Pergunta: O que une a índia e lhe dá uma identidade coletiva apesar de sua diversidade desconcertante? Resposta:O que une a índia é o liberalismo natural de sua cultura, eu acho. Os indianos são um povo tolerante, liberal: há espaço para liberdade de expressão e debate aqui. Nenhum outro país no Sul da ásia é tão livre quanto a índia; este é o motivo para a índia ser o único país realmente estável em uma região atormentada por conflito civil e caos. Veja o exemplo do Paquistão, por exemplo, que está mergulhado no caos. O que mantém a índia forte é sua liberdade. Nos últimos 10 anos, esta liberdade de expressão sofreu o ataque de vários grupos extremistas - extremistas hindus, fundamentalistas islâmicos, ultranacionalistas - e temo que a liberdade de expressão esteja diminuindo a cada dia. Sem suas liberdades, a índia se transformaria em um Estado fracassado como o Paquistão. Pergunta: Por que tantas pessoas de origem indiana se incomodam tanto com a forma como você descreve a realidade lá? Resposta: "O Tigre Branco" é um livro provocante - e eu queria que ele iniciasse um debate dentro da índia a respeito da direção em que o país está seguindo. Alguns leitores indianos ficaram muito incomodados - e algumas coisas ditas a respeito do livro e a meu respeito foram extremadas. Mas eu apontaria que foram os indianos que vivem no exterior - especialmente nos Estados Unidos- aqueles que ficaram mais incomodados. Eu não desejo que gostem de mim em particular - muitos desses indianos são malucos de direita, e financiam organizações extremistas hindus na índia, de modo que é uma medalha de honra ser criticado por eles. Aqui na índia, "O Tigre Branco" é um best-seller, e vendeu quase 150 mil cópias. Isto é o principal para mim. Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt são os autores de "Freakonomics: O Lado Oculto e Inesperado de Tudo o Que Nos Afeta" Tradução: George El Khouri Andolfato

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