Freakonomics.com: "Não estamos implantando o socialismo", diz Austan Goolsbee, o economista da Casa Branca

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Há duas semanas, nós solicitamos no Freakonomics.com perguntas que seriam feitas a Austan Golsbee, diretor do Comitê de Assessoramento do Presidente para Recuperação Econômica (PERAB, na sigla em inglês). O PERAB, criado pelo presidente Barack Obama em fevereiro último, é um painel de assessores econômicos de fora de Washington, D.C., que o assessoram na busca de maneiras de combater a recessão do país. Goolsbee, economista da Universidade de Chicago, assessorou Obama nas questões econômicas durante a campanha presidencial de 2008: pouco depois da eleição, o presidente o escolheu para liderar o PERAB.

Obrigado a Goolsbee por participar e pelas suas interessantes respostas, e obrigado também a todos os que enviaram as perguntas abaixo.

Pergunta: O governo Obama aumentou o controle sobre as indústrias financeira e automobilística domésticas, bem como sobre a indústria do tabaco, e agora está se preparando para fazer o mesmo com a indústria dos serviços de saúde. Por que você e o presidente acreditam que o controle centralizado da economia será produtivo? O que faz o governo pensar que vai ter mais resultados quanto a isso do que outros países que fizeram a mesma coisa?
Goolsbee:
O presidente e o governo acreditam firmemente na importância de um setor privado que funcione bem. Estamos lidando com essas bagunças históricas porque essas são as bagunças que já estavam instaladas quando nós chegamos. Não estamos "aumentando o nosso controle" sobre essas indústrias para convertê-las em sistemas de socialismo centralizado, impor controle de pensamento e coisas do gênero. A nossa meta principal foi impedir que a pior crise financeira e a pior recessão desde a década de trinta transformasse-se na próxima Grande Depressão.

Eu sou da Universidade de Chicago. Você não achará ninguém que seja mais contrário ao socialismo e ao sistema de bem-estar social corporativo do que eu. Mas, você acha realmente que a fiscalização mais intensa dos mercados financeiros é uma medida contrária aos negócios? A perda de confiança pública nas instituições financeiras enfraqueceu o sistema de mercado e criou a maior crise em 75 anos.

Pergunta: O que você acha que impulsionará a nossa economia nos próximos 15 ou 20 anos?
Goolsbee:
As qualificações e a educação do nosso povo, bem como a inovação tecnológica. Esses são os investimentos fundamentais dos quais não podemos nos esquecer.

Porém, eu não sei quais serão as indústrias do futuro. Quando o nosso primeiro filho tinha cerca de um mês de idade, nós visitamos Betty, a avó da minha mulher, em Nova Jersey. Ela tem 90 anos de idade. Enquanto a filmávamos segurando o bebê, eu perguntei a ela o que ela achava que a neta seria quando crescesse. Ela previu que a neta seria "algo que ainda não foi inventado". Eu duvido que ela tivesse se baseado em uma leitura da história econômica, mas os dados dão razão a ela.

Pergunta: Segundo o "Wall Street Journal", em maio o governo dos Estados Unidos decidiu dar aos credores segurados da General Motors 29 centavos de cada dólar devido - quando os credores segurados deveriam ser os primeiros receber as suas dívidas integrais. Se o governo está tentando fazer com que os mercados de crédito se recuperem e funcionem, esse tipo de comportamento não seria contraproducente? Afinal, se os credores segurados acreditarem que o governo pode decidir, por um capricho qualquer, negar-lhes o dinheiro ao qual eles têm direito, isso desencorajará os empréstimos.
Goolsbee:
Acredito que você se refere à Chrysler (no caso da General Motors os credores segurados receberam pagamento integral). Mas, independentemente disso tenha cuidado com a sua alegação. Essa medida não foi tomada por capricho, e ela não é incomum em um processo de reorganização. Quando uma companhia pede concordata e procura reestruturar-se, a prioridade de pagamento é dada com frequência aos fornecedores críticos (no caso da Chrysler, os detentores de garantias e os fornecedores, por exemplo, receberam pagamento integral apesar de serem credores não segurados, porque obrigá-los a ter prejuízos teria ameaçado afastar os consumidores ou exterminar os fornecedores fundamentais, e quaisquer das duas coisas teria colocado em risco a companhia reestruturada). Credores segurados em um processo de concordata como esse receberão pelo menos o que teriam recebido no caso de uma liquidação. E, neste caso, 29 centavos de dólar foi melhor do que eles teriam conseguido.

Eu não creio que isso teve um impacto negativo sobre os empréstimos porque todo mundo conhece as regras sobre como as coisas funcionam nas reorganizações de empresas que pedem concordata, especialmente nos dias de hoje, quando muita gente que pegou empréstimos segurados junto a organizações duvidosas terá que absorver perdas. Se os credores segurados sabem que no caso de uma reestruturação eles receberão ainda mais do que receberiam caso houvesse uma liquidação de tudo, eles não deveriam ficar irritados (a limitação deles deveria restringir-se ao fato de terem emprestado originalmente dinheiro a uma companhia que pediu concordata).

Pergunta: Toyota ou Chevrolet - que carro você compraria?
Goolsbee:
Sou um cara que dirige o carro até as rodas dele caírem, de forma que ainda não estou no mercado. Além do mais, desde que cheguei ao Distrito de Colúmbia, vou para o trabalho de metrô. Mas quando chegar a hora de comprar um carro novo, consultarei a "Consumer Reports" e farei um test drive para decidir.

Pergunta: Que tipo de progressão em taxas de juros marginais você considera ideal? Falou-se muito sobre o fato de no Reino Unido certas pessoas atingirem o teto máximo de 50%. Será que nós também poderíamos estar rumando para esta situação? E isso seria mais útil ou prejudicial?
Goolsbee:
Não existe uma taxa de juro "ideal" tomada isoladamente. Entre outras coisas, ela depende daquilo que o governo faz com o dinheiro. Determinar se estão sendo feitos investimentos fundamentais em vez de gastos com programas perdulários que não funcionam é algo que faz uma grande diferença para que se decida qual deve ser a taxa de juros.

Pergunta: As pessoas cometem mais erros de grafia com o seu nome ou o sobrenome?
Goolsbee:
Ah, você parece conhecer bastante a minha frustração (desista mamãe, sei que foi você). Como Goolsbee é um termo fonético, às vezes as pessoas de fato escrevem este nome da forma correta. Mas isso jamais acontece com Austan. O meu sistema de correção ortográfica insere automaticamente uma grafia errada. Assim, às vezes os meus trabalhos de pesquisa dão a impressão de que eu não sei escrever o meu próprio nome.

Algum dia eu contarei a vocês a história que, segundo Levitt, o meu nome comprovou quando nós terminamos o curso de pós-graduação e ele fazia a pesquisa com nomes que acabou saindo na "Freakonomics".

Tradução: UOL

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt são os autores de 'Freakonomics' e 'Superfreakonomics'. O livro mais recente deles é 'When to Rob a Bank... and 131 More Warped Suggestions and Well-Intended Rants'.

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