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09/12/2009

Sociólogo responde perguntas sobre o perfil das prostitutas de rua de Chicago, nos EUA

Freakonomics
Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt
Recentemente, solicitamos perguntas no Freakonomics.com para Sudhir Venkatesh, professor de sociologia da Universidade de Columbia cujo trabalho de campo com prostitutas de rua em Chicago compreende uma longa seção do primeiro capítulo de nosso livro "SuperFreakonomics". O livro mais recente de Venkatesh, "Gang Leader for a Day" (líder de gangue por um dia), descreve suas experiências observando uma gangue de traficantes de drogas em Chicago para um estudo sobre a pobreza urbana. Abaixo, ele responde perguntas sobre trabalho sexual. Agradecimentos a todos os envolvidos.

As prostitutas querem que a prostituição seja legalizada? Por quê?
Venkatesh:
Os trabalhadores sexuais talvez queiram as vantagens dos bens coletivos que surgem com o comércio legalizado, tais como a capacidade de usar a justiça e a polícia, a suavização do estigma e o acesso a regulamentos de saúde. Eles temem, contudo, que se a indústria se tornar completamente legítima, serão expulsos por aqueles que conseguem fazer investimentos que criam economias de escala. Imagine o que o Wal-Mart ou o Goldman Sachs poderiam fazer se tivessem acesso a esta indústria.

A Internet revolucionou a prostituição. A prostituição de rua é uma indústria quase morta? O que vai acontecer com os cafetões? Eu entendo que sempre haverá um nível basal de prostitutas de rua para servir aos viciados e aqueles que buscam emoções, mas certamente o tamanho da amostra deve estar diminuindo diariamente.
Venkatesh:
A Internet transformou as possibilidades para muitos na indústria de trabalho sexual, não apenas as "prostitutas". Dançarinas, fornecedores de serviços sexuais via telefone e gerentes de agências de acompanhantes se beneficiaram com a Web. Mas nós devemos observar que há uma divisão digital no trabalho sexual. Populações urbanas de baixa renda e minorias de fato não podem tirar vantagem da tecnologia da informação no mesmo grau. Talvez queiram, mas os custos iniciais, assim como a necessidade de manutenção excedem sua capacidade. O tamanho da amostra de fato pode estar diminuindo, mas isso também pode ser resultado da expulsão dos mais pobres dos centros urbanos. Prefeitos de cidades como Chicago, Baltimore, Nova York, Cleveland empurraram ativamente suas populações de baixa renda para fora dos limites da cidade, então de fato não sabemos com certeza se houve uma redução ou se simplesmente não estamos olhando no lugar certo.

No "SuperFreakonomics", Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt estimam o valor agregado do uso de cafetões estudando a variação dos ganhos de uma prostituta quando trabalham ou não para um cafetão. O que em geral acontece na vida de uma prostituta de rua que possa levá-la a deixar um cafetão? Ela em geral é demitida por alguma razão (e em caso positivo, quais são as violações típicas que a demitiriam), ou ela sai por motivos próprios?
Venkatesh:
Os cafetões fornecem às trabalhadoras sexuais uma base de clientes e a proteção contra abusos. Mas como qualquer gerente, eles podem tentar extrair concessões de sua força de trabalho consideradas injustas pelos trabalhadores. Frequentemente, eles pedem que façam coisas de graça. Eles podem pedir que trabalhem mais horas sem remuneração justa. Um cafetão não é diferente de um gerente corporativo nesse respeito. Então não é surpreendente que o trabalhador se frustre e saia. Ou às vezes se frustra, não aparece para trabalhar e é despedido.

O senhor encontrou justificativas econômicas que podem ser usadas como argumento pela legalização?
Venkatesh:
Dividindo a "legalização" em partes componentes, podemos até considerar o que pode significar ter uma indústria sexual regulamentada - o que, de fato, já temos até certo ponto. Primeiro, a legalização pode abrir a possibilidade para práticas de saúde mais seguras: uso de preservativos, exames, acesso à saúde, abrigo etc. Em minha opinião, essas coisas definitivamente precisam ser atendidas.

Em segundo lugar, sabemos que quando práticas ilegais (álcool, drogas, etc.) são legalizadas, os trabalhadores que não têm capital para investimento rapidamente se tornam suscetíveis aos que são capazes de tirar vantagem da economia de escala. Se a prostituição entrar no espaço das empresas com fins lucrativos, os trabalhadores sexuais estarão em severa desvantagem, porque não têm capital para proteger seus investimentos. Então temos várias opções.
Primeiro, nós podemos garantir que os trabalhadores tenham a capacidade de negociar coletivamente -assim como qualquer líder da indústria.

Segundo, nós podemos limitar o trabalho sexual apenas a organizações sem fins lucrativos -talvez dando temporariamente aos trabalhadores uma chance de controlar seu ambiente de trabalho. De outra forma, seria possível ter grandes bancos usando dinheiro federal para acabar com os pequenos empresários. A legalização também significa acesso a justiça, e isso gera uma série de problemas em relação a garantir que os trabalhadores sexuais tenham a capacidade de se defenderem. Atualmente, eles não podem. Tudo isso para dizer que a legalização é intrigante, mas é invocada frequentemente como uma solução fácil para um problema complexo.

Como as prostitutas que trabalham para um cafetão se relacionam umas com as outras? Há uma sensação de "equipe" entre o grupo ou há um sentido de competição? Algumas mulheres trabalham juntas para melhorar suas condições de trabalho ou lidar com clientes e cafetões?
Venkatesh:
Os trabalhadores sexuais de fato se engajam bastante para construir e manter relacionamentos coletivos. Eles fazem isso muito melhor que a maior parte dos trabalhadores. De fato, precisam disso para lidar com os perigos associados ao trabalho sexual - coisas como monitorar a polícia, reagir ao abuso e seguir alguém que cometeu roubo. Eles usualmente formam grupos e isso pode reduzir a competição individual - apesar de às vezes gerar considerável animosidade entre grupos que estão lutando por pontos de venda ou acesso a clientes.

O que as mulheres fazem com o dinheiro que ganham? Economizam alguma coisa? Como gastam o que ganham?
Venkatesh:
As que estão no topo do comércio sexual têm dificuldade considerável em administrar suas reservas em dinheiro. Não é tão fácil comprar um imóvel, abrir uma conta em banco, estabelecer uma linha de crédito etc. Então, muitas criam alianças com membros da família ou abrem empresas de consultoria independentes para se livrar do dinheiro e criar investimentos.

O "SuperFreakonomics" sugere que a prostituição é um substituto para o sexo não pago. Como a moral sexual se diluiu nas últimas décadas, o sexo não pago está aumentado. Como resultado, a demanda pela prostituição vem caindo. O senhor acha que há outros bens que servem como substitutos para a prostituição que alteraram a demanda pela prostituição nos últimos anos? A pornografia na Internet parece um exemplo óbvio que não foi mencionado pelo "SuperFreakonomics", mas talvez um aumento em outras opções de entretenimento como videogames, câmeras da Web e canais de televisão digital tenham tido esse efeito.
Venkatesh:
Não sei se concordo que a prostituição é um substituto para o sexo não pago - ao menos não para todas as classes sociais. Talvez se correlacionem, mas isso não significa que o relacionamento entre os dois merece tal argumento. Mas que sei eu? Sou apenas um sociólogo.

Tradução: Deborah Weinberg

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