Por que a reforma da saúde dos EUA não vai funcionar

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Fiquei calado durante o debate recente sobre a reforma da saúde nos Estados Unidos, principalmente porque o projeto de lei em discussão era tão extenso e tão complicado que eu não tinha certeza se entendia os tópicos bem o suficiente para avaliar de forma inteligente. Isso não parece ter impedido a maioria dos economistas, mas tento não pensar equivocadamente que publicar artigos sobre um assunto automaticamente me torna um especialista em qualquer tópico.

Leitores interessados deveriam dar uma olhada na opinião de Gary Becker sobre o assunto, publicada no blog que ele divide com o professor Richard Posner, da Universidade de Chicago. Suas conclusões são muito semelhantes às minhas, mas sua perspectiva tem a vantagem de estar ancorada numa análise cuidadosa dos detalhes da legislação.

De acordo com Becker, o projeto de lei para a saúde que foi aprovado em março é um desastre para os norte-americanos, por no mínimo duas razões. Primeiro, ele mal chega a abordar a principal falha do sistema atual: a quantia mínima que as pessoas pagam para o cuidado médico que recebem. Imagine se você pudesse chegar numa concessionária e pegar qualquer carro que quisesse, e quantos carros quisesse, sem nenhum custo diferencial. O mercado de carros entraria num caos completo à medida que as pessoas pegassem tantos carros quantos quisessem – e esses carros seriam todos muito bons.

Isso mais ou menos resume a situação em relação à saúde. Não é agradável discutir isso, mas se manter um octogenário vivo durante um mês custa US$ 200 mil, alguém precisa pagar por isso. Para os filhos do octogenário, que talvez tenham que pagar parte da conta, arcar com as despesas equivaleria à diferença entre conseguir pagar a faculdade de seus filhos ou não. Por fim, uma decisão difícil, para dizer o mínimo.

Com os gastos dos EUA com a saúde se aproximando dos 20% do PIB, esse tipo de escolha difícil é inevitável. Os mercados não podem funcionar quando as pessoas que recebem o benefício de um bem ou um serviço não são as que pagam por ele.

A segunda grande falha no atual sistema norte-americano, conforme aponta Becker, é que os empregadores fornecem assistência médica, o que faz com que os funcionários fiquem presos a seus empregos, percam a cobertura ao ficarem desempregados e assim por diante. Embora o projeto de lei inclua alguns elementos que enfraquecem a ligação entre os empregadores e a assistência médica, ele também tem outras características que fortalecem essa associação.

No geral, acho difícil acreditar que essa lei seja positiva. Veremos se os prós e contras irão empatar, ou se acontecerá algo bem pior.

Tradutor: Eloise De Vylder

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt são os autores de 'Freakonomics' e 'Superfreakonomics'. O livro mais recente deles é 'When to Rob a Bank... and 131 More Warped Suggestions and Well-Intended Rants'.

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